Home » Lula 3 termina melhor do que eu imaginava – 04/04/2026 – Samuel Pessôa

Lula 3 termina melhor do que eu imaginava – 04/04/2026 – Samuel Pessôa

by Silas Câmara

Faltam três trimestres para o fim do terceiro mandato de Lula. Ele termina melhor do que eu imaginava no final de 2022, apesar de nunca ter sido muito pessimista com Lula 3.

Cinco fatores explicam o fato de a economia ter aguentado melhor do que eu supunha o forte impacto sobre a demanda da PEC da Transição.

Primeiro, o bom desempenho do ministro Fernando Haddad, tema tratado há duas semanas. Segundo, o bom desempenho de Gabriel Galípolo, tema tratado há seis meses.

Terceiro, foi excelente o comportamento da agropecuária nos últimos três anos, como tem apontado o economista-chefe da Tullet Prebon, Fernando Montero. Cresceu 25% de 2023 a 2025, isto é, ao ritmo de 7,7% por ano. Foi a maior taxa de crescimento da agropecuária para um triênio de que se tem notícia. Bolsonaro enfrentou condições climáticas ruins. A agropecuária cresceu no seu quadriênio 3,4%, ou 0,8% por ano. O forte avanço da agropecuária neste governo Lula permitiu que a inflação de alimentos rodasse três pontos percentuais abaixo da inflação cheia.

Quarto, as estripulias de Trump na economia e seu esforço em piorar generalizadamente as instituições dos EUA enfraqueceram a moeda americana em 2025, ano em que os fundamentos, pela elevação das tarifas de importação por lá, indicariam fortalecimento do dólar. A desvalorização da moeda americana gerou uma onda desinflacionária mundial que nos atingiu.

Quinto, o mercado de trabalho apresentou maior flexibilidade. Como tratei em outubro passado, a economia brasileira consegue operar hoje com uma taxa de desemprego menor sem pressionar a inflação. A taxa corrente de desemprego, 5,5%, pressiona menos a inflação do que há 15 anos.

Assim, olhando retrospectivamente, a economia absorveu bem o choque de demanda dado pela escolha de Lula de inverter o ciclo político da despesa pública e iniciar seu terceiro mandato adicionando no Orçamento quase 2% do PIB de gasto permanente.

Evidentemente, o efeito colateral de ter rasgado o livro-texto da ciência política foi o alongamento do ciclo monetário. A Selic está elevada por muito tempo. E não houve erro de condução de política monetária. A Selic alta por muito tempo é necessária para contrair parte da demanda privada e abrir espaço para a elevação do gasto público e das transferências públicas a indivíduos. Nos livros-textos de macroeconomia, esse fenômeno é conhecido pela expressão inglesa “crowding out”.

Os limites do modelo petista de governar —operar a economia além da capacidade produtiva e, portanto, forçar a base de recursos— têm como efeito colateral o forte endividamento das famílias e uma onda de recuperação judicial nas empresas.

Como apontado em recente estudo de Silvia Matos do FGV Ibre, o ciclo recente de aceleração do crescimento tem sido caracterizado por estagnação da produtividade do trabalho.

A baixa taxa de crescimento da produtividade e o elevado endividamento das famílias —em que pese o programa Desenrola— parecem estar por trás das dificuldades da popularidade do presidente Lula, apesar dos bons indicadores macroeconômicos.

Como apontou o vice-presidente Geraldo Alckmin, em entrevista na semana que passou ao jornal Valor Econômico, será necessário um ajuste fiscal em 2027. Ajuste, segundo o vice-presidente e, segundo o livro-texto da ciência política, se faz no primeiro ano de governo. A ver se até lá não teremos uma crise de crédito.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Autor Original

You may also like

Leave a Comment