Do início da guerra no Irã, em 28 de fevereiro, até o mais recente pronunciamento à nação, na quarta-feira (1º), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem se contradito ao abordar os objetivos dos ataques, a dimensão dos danos provocados ao país do Oriente Médio, a relação com aliados e as condições e o prazo para o encerramento do conflito.
Destruição do Irã e fim da guerra
1º.mar.
Um dia após o ataque dos EUA e de Israel que matou Ali Khamenei, líder supremo do Irã, Trump afirmou que a operação no país do Oriente Médio levaria de quatro a seis semanas.
9.mar.
Em evento com republicanos na Flórida, sem dar prazo, Trump disse que a guerra em Teerã acabaria “bem rápido”. Já vencemos de muitas formas, mas ainda não vencemos o bastante. Seguimos em frente, mais determinados do que nunca a alcançar a vitória definitiva que encerrará esse perigo de longa data de uma vez por todas.”
11.mar.
Trump disse que “praticamente não sobrou nada para atacar” na nação persa e que a ofensiva acabará quando ele “quiser que acabe”. Sem apresentar plano, disse: “A guerra está indo muito bem. Estamos muito à frente na nossa programação. Provocamos mais danos do que pensávamos ser possível”.
No mesmo dia, afirmou que os EUA já haviam vencido o conflito. “Deixe eu dizer uma coisa: nós vencemos. Nunca queremos dizer que ganhamos antes da hora, mas ganhamos. Na primeira hora, a guerra já tinha acabado.”
31.mar.
Trump disse que os ataques militares contra o Irã poderiam ser encerrados dentro de duas ou três semanas. Washington, contrariando o discurso de vitória americana e colapso em Teerã, enviou um porta-aviões e reforçou as tropas na região.
1º.abr.
Questionado pela agência de notícias Reuters sobre quando consideraria a guerra encerrada, Trump respondeu que não poderia dizer exatamente, mas que isso aconteceria “bem rápido”.
Mais tarde, em discurso à nação, disse que o país persa foi “completamente derrotado” em 32 dias, mas não deu previsão de término do conflito e prometeu intensificar os bombardeios nas próximas duas ou três semanas. O americano afirmou que os ataques continuarão até que todos os objetivos —também não esclarecidos por inteiro— sejam “totalmente terminados”.
“A Marinha deles acabou. A Força Aérea deles acabou. Os mísseis deles estão praticamente esgotados ou destruídos”, disse o republicano no pronunciamento.
2.abr.
As declarações de Trump foram rebatidas pelo comandante operacional do Exército iraniano, Khatam al-Anbiya, segundo o qual os centros estratégicos de produção de mísseis, drones de longo alcance e sistemas de defesa aérea da nação não teriam sido destruídos.
“Os locais que vocês acreditam ter atacado são insignificantes, e nossa produção militar estratégica ocorre em regiões que vocês desconhecem completamente e nunca conseguirão alcançar”, disse Al-Anbiya, prometendo ataques mais devastadores contra os EUA.
Objetivos do conflito e sucessão em Teerã
28.fev.
Trump justificou o ataque contra o Irã como ação de defesa: “Nosso objetivo é defender o povo americano eliminando ameaças do regime iraniano. […] Suas atividades ameaçadoras colocam em perigo direto os Estados Unidos, nossas tropas e nossas bases no exterior e nossos aliados pelo mundo. Por 47 anos, o Irã grita morte à América e travou uma campanha interminável de derramamento de sangue e assassinato em massa.”
Ele também citou o bloqueio do desenvolvimento de uma arma nuclear por Teerã: “Sempre foi a política dos EUA, em particular da minha administração, que esse regime terrorista jamais possa ter uma arma nuclear. Vou repetir: eles jamais poderão ter uma arma nuclear.”
E pediu que os iranianos assumissem o controle do governo: “Esta será provavelmente a única chance de vocês por gerações. Durante muitos anos, vocês pediram a ajuda da América, mas nunca a receberam. Nenhum presidente esteve disposto a fazer o que eu estou disposto a fazer esta noite. Agora vocês têm um presidente que está lhes dando o que querem, então vamos ver como respondem.”
9.mar.
Trump voltou a justificar a ofensiva contra Teerã como ato de defesa: “Em uma semana eles iriam nos atacar, com 100% de certeza. Eles estavam prontos. Tinham todos esses mísseis, muito mais do que qualquer um imaginava, e iam nos atacar, mas também iam atacar todo o Oriente Médio e Israel”.
1º.abr.
Em pronunciamento nacional, Trump disse que está próximo de alcançar os objetivos na guerra contra o Irã, mencionou o impedimento à construção de uma arma nuclear na nação do Oriente Médio e reafirmou o intuito de defender os EUA como razão do conflito.
O presidente, no entanto, disse que mudar o regime não estava entre os objetivos do ataque israelo-americano, contradizendo sua própria declaração no primeiro dia da guerra: “Nunca falamos em mudança de regime, mas a mudança de regime ocorreu porque todos os seus líderes originais estão mortos. O novo grupo é menos radical e muito mais razoável.”
A fala sobre a administração de Teerã contradiz outro posicionamento do republicano. Em março, ele classificou a escolha de Mojtaba Khamenei como líder supremo de “grande erro”, disse não estar contente e sinalizou que pretendia indicar uma pessoa para substituir o filho de Ali Khamenei.
Cessar-fogo e negociações
24.mar.
Os EUA, por meio do Paquistão, propõem um plano de 15 pontos para encerrar o conflito e ameaçam intensificar os ataques caso o Irã não o aceitasse. O projeto inclui, segundo funcionários ouvidos pelo jornal The New York Times, os programas nucleares e de mísseis balísticos do país persa, além da liberação de rotas marítimas.
“Enquanto o presidente Trump e seus negociadores exploram essa nova possibilidade de diplomacia, a Operação Fúria Épica continua inabalável para alcançar os objetivos militares estabelecidos pelo comandante-chefe e pelo Pentágono”, disse Karoline Leavitt, secretária de Imprensa da Casa Branca, em comunicado.
31.mar.
Trump disse que Teerã não precisa estabelecer um pacto com Washington para que a guerra termine. “Não, eles não precisam fazer um acordo comigo.”
1º.abr.
Trump disse que Teerã pediu cessar-fogo e que a solicitação só seria considerada quando o estreito de Hormuz fosse reaberto. Em seguida, o Ministério das Relações Exteriores da República Islâmica disse que a declaração do presidente americano era falsa e sem fundamento.
Mais tarde, ao discursar à nação, logo após afirmar que os novos líderes do regime são “muito mais razoáveis” que os anteriores, Trump ameaçou: “Porém, se durante esse período nenhum acordo for feito, temos os olhos em alvos-chave. Se não houver acordo, vamos atacar cada uma das suas usinas de geração de energia com muita força e, provavelmente, simultaneamente”.
31.mar.
Apontando para o Reino Unido e a França, Trump disse que países que não ajudaram os EUA na guerra contra o Irã deveriam comprar petróleo americano ou pegar por conta própria no estreito de Hormuz, bloqueado desde o início dos ataques.
“Vocês vão ter que aprender a lutar por si mesmos. Os EUA não estarão mais lá para ajudar, assim como vocês não estiveram lá por nós. A parte difícil foi feita. Vão buscar o próprio petróleo.”
1º.abr.
O presidente americano, no discurso à nação, reiterou as falas do dia anterior e acrescentou: “Os EUA importam quase nenhum petróleo pelo estreito de Hormuz e não vão importar no futuro. Nunca precisamos. Os países que recebem petróleo pelo estreito de Hormuz precisam cuidar dessa passagem”.
Mais cedo, no entanto, Trump disse estar insatisfeito com a Otan pelo que considera ser uma falta de apoio no conflito com o Irã e ameaçou deixar a aliança militar.
Reportagem do jornal inglês Financial Times mostrou que Trump, ao contrário da mensagem de independência do Oriente Médio e dos aliados europeus que buscou demonstrar no pronunciamento à nação, ameaçou interromper o fornecimento de armas à Ucrânia em março para pressionar aliados da Otan a ajudar na reabertura da passagem.
4.abr.
Diante da continuação do bloqueio, Trump ameaçou o país persa. “Lembre-se de quando eu dei ao Irã dez dias para fazer um acordo ou abrir o estreito de Hormuz. O tempo está se esgotando —faltam 48 horas antes que todo o inferno se abata sobre eles”, escreveu nas redes sociais.