Na passagem do ano 999 pro 1000, os europeus achavam que o mundo ia acabar. Era, contudo, uma questão meramente numérica. E, convenhamos, meio estúpida. O universo não se rege pelo nascimento de Cristo —embora ainda hoje muita gente ache que sim. Na passagem de 1999 pra 2000 tava todo mundo apavorado de novo, agora com o “bug do milênio“. Os computadores iriam ficar todos doidos, o sistema financeiro ia quebrar, os celulares escreveriam cartas de amor pra ex-namoradas e ofensas aos chefes. Talvez, até, uma bomba nuclear escondida no Uzbequistão ou no Texas resolvesse se lançar pra algum canto. Bem, o fato de você estar lendo esta crônica significa que o mundo não acabou lá nem cá.
Agora o papo é diferente. “Ansiedade climática” é um termo existente. Ansiedade trumpística eu nunca ouvi, mas sofro de. Assim como ansiedade flavística —o fato de a imprensa e o mercado terem parado de adicionar o sobrenome, meio que pra fingir que ele não é tãããããão assim um Bolsonaro, que se trata de uma pessoa moderada, que consegue até comer frango com farofa e sair limpinho, me aflige ainda mais. Flávio BOLSONARO que, lembremos, quando deputado no Rio de Janeiro, foi acusado de fazer uma rachadinha do tamanho do Grand Canyon.
Ainda mais grave do que isso, concedeu ao matador de aluguel, segurança de bicheiro e torturador Adriano da Nóbrega a mais alta condecoração do estado do Rio de Janeiro, a Medalha Tiradentes. À época, Adriano estava na cadeia por homicídio. A viúva do cidadão conta no documentário “Vale o Escrito” que o hobby do cara era pegar um bandido e passar uns dois dias num apartamento torturando-o. “Adriano da Nóbrega sempre foi um policial exemplar”, disse Flávio BOLSONARO no Roda Viva.
Se eleito, o filho do golpista (que cumpre pena por tentar fazer com o Brasil o que fez com sua tornozeleira), mais um Congresso tomado por outros “moderados”, pode decidir que o STF tem que ter, sei lá, 25 ministros. Aí a democracia vai pro beleléu sem nem um soldado e um cabo, só com uma Bic. STF que, aliás, também tem colaborado com a sensação de fim do mundo. Além da “ansiedade climática”, “trumpística” e “flavística”, sofro de ansiedade “xandística”, “toffolística” e “gilmarística”. Sem mencionar a “kassística” e “andrezística”, das quais eu já era acometido desde uns anos.
Muitos já citaram a semelhança de hoje com a Alemanha em 1933. Há paralelos, mas em 1933 não havia crise climática, o Hitler ainda não tinha o poder de um Trump e Goebbels nem sonhava com smartphones e redes sociais.
Eu sempre pensei: como todos aqueles judeus não se ligaram e tocaram a mula quando tiveram que botar a estrela amarela no peito? Ou após a “noite dos cristais“? Agora eu entendo. A mudança é gradual, a gente vai se acostumando, como na lenda do sapo na panela. (Fake news, quando a água esquenta ela salta fora.) Meu pai viveu quase 20 anos em Florianópolis. Achou que era hora de voltar a SP quando colaram um adesivo vermelho na porta de seu apartamento, para que todos no condomínio soubessem que ali morava um perigosíssimo comunista e pudessem proteger suas crianças.
Ah, para não dizer que não falei das flores, tem o João Fonseca escalando seu caminho até o topo do Everest tenístico. (Pronto, tentei falar de algo legal, veio o exemplo do Everest e já estou aqui a imaginar se vai sobrar alguma neve lá em cima nos próximos anos.) Saco. Prometo tentar ser mais otimista na semana que vem, mas é meio difícil diante do fim do mundo.
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