Antes de o Sepultura fazer seu show de despedida, Andreas Kisser, o guitarrista da banda, queria realizar um sonho —gravar uma balada. Para isso, ele recrutou Tony Bellotto e Sérgio Britto, dos Titãs, e os três, a partir de ideias no violão e palavras sugeridas por Bellotto, compuseram, junto ao vocalista Derrick Green, “Beyond the Dream”, ou além do sonho.
De andamento lento e vocais limpos, a faixa é um movimento incomum para o Sepultura, a maior representante da música pesada e rápida feita no Brasil. Nela, os versos “deixe tudo para trás/ para começar de novo” são repetidos diversas vezes, como um prenúncio do fim da banda, que está na sua última turnê.
“Beyond the Dream” faz parte do novo disco do grupo, lançado nesta sexta-feira. O EP “The Cloud of Unknowing”, com apenas quatro músicas, é um belíssimo canto do cisne de uma banda muito amada pelos metaleiros de dentro e de fora do Brasil e que está na ativa, ininterruptamente, desde a década de 1980.
Quando o Sepultura anunciou a sua despedida, há mais de dois anos, não havia a ideia de gravar canções novas, diz Kisser, numa conversa por vídeo. Mas a entrada inesperada do baterista Greyson Nekrutman dias antes de os shows começarem trouxe uma nova energia para o grupo.
“Ele tem trazido a influência dele, esse tempero meio jazz —um elemento que a gente nunca usou. O Sepultura nunca teve a oportunidade de ter um músico como ele”, afirma Kisser. “Nas passagens de som, nos ensaios, a gente sempre estava improvisando alguma coisa, ele fazendo alguns ‘loops’ de bateria. Ele se encaixou muito bem. Criou química, uma atmosfera saudável para a gente compor.”
Para o estúdio a banda foi. O quarteto —do qual também faz parte o baixista Paulo Xisto— se enfurnou por dez dias no Criteria, espaço de gravação em Miami onde o Black Sabbath concebeu “Heaven and Hell”. Lá, trabalharam sem pressão, cada coisa a seu tempo.
Kisser conta que, quando eles entraram em estúdio, há pouco mais de um ano, nem o disco nem as músicas tinham nome, o lançamento não estava marcado e não havia “gravadora enchendo o saco, no sentido de ter data para entregar coisa”. Além do mais, “não eram 12 ou 13 músicas, né?”
Com exceção da balada, as outras três faixas do disco são o Sepultura tradicional. A primeira, “All Souls Rising”, é uma pancada thrash metal alternada por orquestrações a cargo do maestro Renato Zanuto. “Sacred Books” combina peso e levada a teclado e pianos —também tocados por Zanuto—, e “The Place”, a última canção, traz dois minutos instrumentais antes de o vocalista alternar registros limpos e guturais para cantar sobre imigrantes que se voltam contra seus pares.
Embora tenha só 17 minutos, o EP deixa claro que a banda poderia gravar mais um álbum completo, se quisesse, porque a criatividade está ali. Mas isto não vai acontecer, segundo o guitarrista. Ele não crava que, depois desta turnê, o Sepultura vá se desfazer para sempre, mas sim que não tocará mais junto e nem terá o trabalho de compor um disco.
“Irrelevante a gente falar se vai ser para sempre [a separação] ou se vai ser dois meses. Os alcoólatras sabem muito bem o que é isso. Qualquer um que tem uma batalha contra algum vício, é diário. Todo dia é um novo dia. Não tem o para sempre, não tem o ‘ah, parou’, agora não pode voltar mais porque falou ontem. Mas, mano, ‘go have a life’, tá ligado?”
Em breve, o Sepultura divulgará informações do seu show derradeiro, previsto para acontecer em São Paulo, no segundo semestre —Kisser adianta que será um festival, com mais bandas tocando. Não haverá a participação dos irmãos Cavalera, Max e Iggor, que fundaram o Sepultura e com quem o conjunto gravou seus discos mais aclamados, “Chaos AD.”, de 1993, e “Roots”, de 1996. Segundo o guitarrista, o convite foi feito, mas a dupla não teve interesse.
Ao olhar para trás, Paulo Xisto, o baixista, afirma que a banda encerra seus mais de 40 anos de atividade com a sensação de “missão cumprida”. Para Kisser, a longa despedida do Sepultura é motivadora, não um momento de tristeza. A turnê atual, que terá passado por 40 países quando concluída, tem sido uma das melhores na carreira do grupo, diz ele. “A morte dá uma intensidade ao presente, traz mais vida às coisas.”