Vinte anos após ser consagrada pelo papel, Georgette Fadel retorna à pele de Joana em uma atuação que desafia as leis do tempo e da memória. No palco do Teatro Anchieta, sua presença é simplesmente arrebatadora, conduzindo a montagem com uma maestria que transcende a mera interpretação para se tornar uma possessão ética. Georgette ocupa o silêncio com uma densidade ríspida, onde o tremor contido das mãos e a rigidez dos ombros narram o que as palavras — ditas com uma voz grave e modulada como um instrumento — mal dão conta de expressar. Sua Joana é uma força em colisão com o presente, interpretada com uma sobriedade que recusa a piedade para ser barreira frente ao cinismo contemporâneo.
Cinquenta anos separam a estreia original de “Gota d’Água” desta nova montagem, e o mais perturbador é constatar que o texto de Chico Buarque e Paulo Pontes, como Benjamin Button, envelheceu ao contrário. A tragédia da Medeia da periferia carioca permanece como uma ferida exposta de um país que retocou a superfície, mas preservou intactas as suas estruturas de exploração. A fictícia Vila do Meio-Dia continua sendo o espelho de um Brasil onde os conjuntos habitacionais agora carregam dívidas modernizadas, mas onde as promessas de igualdade seguem sendo sistematicamente derrotadas pelo carreirismo individualista de novos Jasões, capturados pela lógica da ascensão social a qualquer custo.
A direção da própria Georgette aposta em uma crueza estética deliberada. Ao cercar a ação com o público e descartar a amplificação vocal, a encenação expulsa os filtros tecnológicos para privilegiar a comunicação direta. A voz humana, em seu estado mais natural, torna-se o principal instrumento de denúncia. É um teatro que não foi domesticado pela indústria do entretenimento ou pela “espetacularização da miséria”, buscando, em vez disso, uma ríspida poesia que obriga o espectador a prender a respiração a cada pausa, como se cada silêncio fosse, de fato, uma gota d’água prestes a transbordar.
Nesse jogo de forças, a presença da Cia. Coisas Nossas de Teatro é fundamental. O coro e os músicos são a personificação de uma coletividade que assiste, por vezes impotente, ao esmagamento da dignidade humana pelas engrenagens do poder financeiro. A química entre Georgette e o elenco estabelece um jogo cênico de altíssimo nível, onde o confronto afetivo simboliza uma fragmentação social muito mais profunda: a perda da solidariedade em favor de um suposto bem-estar privado.
“Gota d’Água – no Tempo” é um ato de insistência. Quando Georgette Fadel escancara que Joana não perdeu Jasão apenas para outra mulher, mas para um sistema que devora origens e laços, ela nos lembra que a tragédia brasileira não se resolve no plano individual. É uma performance inteligente e generosa que, ao abraçar as contradições e a amargura da revolta da personagem, nos confronta com o limite de nossa própria empatia.
Três perguntas para…
… Georgette Fadel
Como a percepção de que agora você tem a idade real da personagem influenciou sua decisão de abandonar o que você chamou de “vaidade gestual” de outrora em favor de uma atuação mais densa e econômica?
Na verdade, eu ultrapassei a idade da personagem. Comecei a montagem aos 32 anos; hoje tenho 52, oito a mais que Joana. Mas esse distanciamento temporal me ajuda, pois o etarismo é um tema central na relação dela com Jasão. A maturidade traz um olhar histórico sobre a própria obra: você passa a ser juiz do que produz e entende que certos recursos não são mais necessários.
A “vaidade gestual” é o que costumamos chamar de “glacê sobre o bolo”: um excesso de açúcar que disfarça a natureza da massa e tira o sabor do recheio. Ao abandonar esses apegos — o vício de “cozinhar o galo” para agradar a plateia —, passo a confiar mais no meu próprio corpo e na minha energia atual. Hoje, não preciso criar um eixo tão distante do meu para habitar a Joana. As coisas se fundiram.
Como funciona, na prática, esse processo de dirigir o espetáculo a partir de dentro da tragédia e como isso altera a relação com os outros atores e músicos?
No meu caso, o processo foi orgânico. Pude transitar entre a atuação e a direção sem sair do tom da personagem. Eu interrompia uma fala para pedir “mais violão” ou orientava um colega, em plena contracena, a buscar uma entrega mais pungente ou econômica.
Isso só foi possível por ser um processo coletivo, uma “roda” onde todos tinham voz e o olhar era compartilhado. Eu não exercia uma direção absoluta; contava com o apoio dos colegas para ter referências de fora enquanto eu estava mergulhada na cena. Percebi que esse tipo de operação — construir a cena a partir do ponto de vista do embate direto com o outro — é fundamental para a criadora que sou.
A peça completou cinquenta anos em 2025. Na sua visão, por que a estrutura de exploração e o “esmagamento pelo sistema” descritos por Chico Buarque e Paulo Pontes se tornaram ainda mais urgentes em 2026?
A resposta é simples: o sistema permanece o mesmo. O capitalismo apenas se sofisticou em sua versão cibernética e virtual, fragmentado em “milhões de pedaços de espelho”. A exploração do trabalho hoje é inédita; ela invade as casas e o sono, promovendo uma precarização total e a desarticulação das classes.
Embora não tenhamos a inflação galopante das décadas de 1970 e 1980, as questões de moradia e a desigualdade permanecem acirradas. O sistema se camuflou, absorveu pautas identitárias e se travestiu de “boa coisa”, mas a estrutura de esmagamento é idêntica. Mantivemos a peça ambientada no período original porque não é preciso colocar um celular ou falar em criptomoedas para que o público reconheça o assassinato social que continua ocorrendo.
Sesc Consolação | Teatro Anchieta – rua Dr. Vila Nova, 245 – Vila Buarque, região central. Sexta e sábado, 20h. Domingo e feriado, 18h. Até 31/5. Duração: 180 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. A partir de R$ 21 (credencial plena) em sescsp.org.br e nas bilheterias das unidades. Os ingressos estão esgotados mas vale tentar a “fila da esperança” nos dias das sessões.
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