São Paulo
Crítica | SP
Bodega da Maria Macaxeira
Três estrelas (bom)
R. Fortunato, 298, Vila Buarque, região central. @bodegadamariamacaxeira
“Você sabe servir vinho?”, perguntou Maria Macaxeira a um amigo meu enquanto ele almoçava. Ele estranhou a pergunta, mas disse que sim. E ela imediatamente pediu para que ele servisse o cliente que tinha pedido uma garrafa. Pediu não… Intimou. Com uma espécie de rabugice graciosa à qual foi difícil resistir. Então ele se levantou e obedeceu.
Picadinho paulista de filé-mignon com ovo pochê e banana à milanesa é o prato principal
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Priscila Pastre/Folhapress
Quando ouvi essa história, coloquei a bodega na lista de lugares a visitar. Era um domingo quando decidi almoçar lá, dia da semana em que os bares dos bairros vizinhos de Santa Cecília e Vila Buarque ficam lotados e barulhentos. Passei a pé por alguns deles e imaginei que estava a caminho de um lugar tão movimentado quanto.
Mas estava tranquilo, e foi como chegar a um refúgio no meio do caos. Daqueles lugares em que parece que todo mundo se conhece e você se sente bem-vindo. É pequeno e, num dia quente como o que fazia, a melhor opção era sentar fora, nas mesas que ficam na calçada inclinada —a rua é uma leve descida.
Quando cheguei, logo reconheci Maria Macaxeira. Estava sentada com clientes que pareciam velhos amigos, contando histórias em voz alta.
Passagens animadas da juventude, reclamações sobre quem estava chegando (estava quase na hora de fechar) e pedidos de agilidade à brigada. “Meninas, o pessoal aqui tá sem talheres, sem guardanapo, assim não dá!”. Usava um par de brincos grandes, lenço na cabeça e uma camisa chamativa, bem colorida.
Uma atendente se apressou em levar o cardápio à mesa. Disse que, para começar, indicava a porção de macaxeira (R$ 48) ou os pastéis do cardápio do evento de bares de que a casa está participando, o Comida di Buteco.

Entrada de pastéis com opções de recheio do Maria Macaxeira
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Priscila Pastre/Folhapress
O conceito agradou: quatro pastéis de vento, cortados ao meio para que o cliente recheie com preparos à parte (R$ 40). Foi o que escolhi.
A porção vale pela diversão de ser montada na mesa. O recheio de carne de sol carecia de maciez e umidade. O de queijo com alho-poró veio saboroso, mas morno. Então esqueça a suculência daquele fio de queijo derretido do pastel convencional. A geleia de jabuticaba da casa revelou-se o maior acerto, com doçura, acidez e adstringência na medida. A massa vem bem sequinha. Gostosa, mas com o inconveniente de esfarelar a cada mordida. Uma porção que funciona mais numa proposta de ir para tomar uma cerveja e petiscar do que como entrada.
De principal, comi o picadinho paulista (R$ 74). Feito com filé-mignon, vem com arroz, ovo pochê, banana à milanesa e farofa. Um prato bonito, colorido, bem servido e com tempero gostoso. Poderia ficar mais em conta se a casa apostasse em outro corte de carne. A banana estava ótima, com uma camada fina crocante e interior bem cremoso. A gema estava no ponto da casa, prazerosamente mole.

Pudim com calda de rapadura do Maria Macaxeira
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Priscila Pastre/Folhapress
De sobremesa, provei o pudim (R$ 22). Não era um pudim superliso. Tampouco tinha muitos furinhos. Um pudim que só se preocupava em ser… pudim. Com a graça de ter uma calda feita com um ingrediente incompreendido, pouco explorado e cheio de potencial: a rapadura.
Uma sobremesa forte, rústica, que me pareceu refletir bem a essência de Maria Macaxeira. Um lugar sem frescuras para ir numa tarde preguiçosa e, quem sabe, tomar uma bronca carinhosa. Ou, se der sorte, ser chamado para ajudar no serviço.