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Uma tempestade em Benguela – 23/04/2026 – Djamila Ribeiro

by Silas Câmara

Nos primeiros dias de abril, uma tempestade de grandes proporções atingiu a cidade de Benguela, na costa de Angola. A cidade —eternizada no Brasil pela líder abolicionista Tereza de Benguela, pelos cantos de Clementina de Jesus e por toda uma tradição de memórias e práticas culturais afrodescendentes— hoje precisa de ajuda.

As chuvas provocaram o rompimento de um dique, o que levou ao transbordamento do rio Cavaco, deixando um rastro de casas e infraestruturas submersas e destruídas. Rodovias e ferrovias foram interrompidas, e o sistema de abastecimento de água ficou comprometido.

Segundo fontes oficiais do Ministério da Ação Social, Família e Promoção da Mulher de Angola (Masfamu) e do Governo Provincial de Benguela, a situação é drástica: aproximadamente 15 mil pessoas estão desabrigadas; há inúmeros desaparecidos e o número de mortos ainda varia conforme as contagens iniciais. Veículos de imprensa da lusofonia africana, como a revista online Bantumen, falam em ao menos 45 mortos.

A maior parte dos desabrigados está concentrada em três pontos: no Estádio Nacional de Ombaka e nas regiões de Campismo Novo e Campismo Antigo. Trata-se de uma área que, nos últimos anos, já vinha recebendo apoio de agências internacionais em razão de surtos de cólera e outras condições estruturais agravadas por um histórico de exploração colonial. Com a inundação, esse quadro se intensificou.

Segundo a feminista angolana Ângela Maria Feijó, em entrevista a esta coluna, mais do que um episódio climático, “trata-se de uma crise humanitária em curso, com relatos de deslocamento forçado, interrupção de atividades escolares e dificuldades de acesso a serviços essenciais. Para muitos, a perda vai além de bens materiais —atinge vínculos, memórias e condições de estabilidade”.

Feijó aproxima o cenário de Benguela a tragédias recentes no Brasil: “O caso de Benguela não é isolado. Eventos semelhantes se repetem em diferentes regiões do mundo, especialmente no Sul Global. No Brasil, tragédias recentes em cidades como Petrópolis, Recife e localidades do Sul do país revelam um padrão reconhecível”.

“Diante desse cenário, cresce a necessidade de atenção internacional. Benguela demanda respostas urgentes, com mobilização de recursos para garantir abrigo, alimentação, assistência médica e apoio psicológico às populações afetadas”, completa.

O Brasil ainda enfrenta uma rota tortuosa para quem deseja ajudar Benguela —reflexo da dificuldade histórica de reconhecer e valorizar suas próprias raízes africanas. Eu mesma, ao tentar contribuir, encontrei obstáculos. Há poucas informações disponíveis e, mesmo em contato com a Embaixada do Brasil e com parceiros angolanos, estabelecer uma ponte de apoio mostrou-se um desafio.

Segundo informações da embaixada brasileira em Luanda, o governo angolano, por meio da sua Comissão Nacional de Proteção Civil, tem enfatizado a importância de canalizar doações por meio de organizações já estabelecidas no território, como a Cruz Vermelha de Angola e a Cáritas, braço social da Igreja Católica, que atuam em articulação com as autoridades locais.

O catolicismo, religião de cerca de 44% da população angolana, tem desempenhado papel central na organização do apoio às vítimas. Nesta terça-feira (21), encerrou-se no país a visita do papa Leão 14, que reuniu multidões. Em seus pronunciamentos, o pontífice criticou o modelo econômico extrativista, que concentra benefícios em elites enquanto deixa populações à margem, produzindo “sofrimento, mortes e catástrofes sociais e ambientais”.

As falas do sumo pontífice convergem com a teoria social sobre extrativismo, que vem crescendo no círculo acadêmico internacional. A coincidência de sua visita com os eventos climáticos em Benguela conferiu ainda mais peso simbólico à sua passagem pelo país.

Diante da situação, do posicionamento do papa e da rede transnacional de solidariedade, ficam os pedidos para que a Igreja Católica no Brasil, por meio da rede Cáritas, mobilize redes de doação, abrindo caminhos para que fiéis —e pessoas de todas as crenças— possam contribuir, ainda que com pouco, mas com a força coletiva que transforma.

Além disso, fica aqui um apelo: que o governo brasileiro consulte o governo angolano para, caso haja abertura, organizar o envio de mantimentos, equipes e equipamentos. Que o governo, ainda, monte um canal oficial para a contribuição do povo brasileiro ao povo angolano.

Nossas orações estão com Benguela. Que o povo que tanto contribuiu para a formação do Brasil possa superar esse enorme desafio.


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