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Arthur Nestrovski devolve Garoto à sua própria tristeza – 26/02/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

Em um antológico LP dedicado à música renascentista, o violonista e alaudista inglês Julian Bream, gravou a mesmíssima composição de John Dowland duas vezes, em faixas diferentes.

Do mesmo modo, em “Violão Violão Vol. 2 – Choros e Valsas”, o quarto álbum solo do violonista Arthur Nestrovski, que acaba de ser lançado, o mesmo recurso idiossincrático é utilizado no “Choro Triste nº 1”, de Garoto.

Tratam-se, na verdade, de duas interpretações bastante diferentes entre si —a segunda ainda mais triste e arrastada—, uma para abrir e a outra para fechar o novo trabalho. Se na primeira a harmonia ainda quer ser mostrada, ecoando o canto, na segunda quase some, sugerida, tênue.

Assim como fizera com Tom Jobim —em “Jobim Violão”, de 2009—, Chico Buarque —“Chico Violão”, 2010— e com autores diversos no primeiro volume de “Violão Violão”, lançado em 2022, Nestrovski trata a composição de Garoto como editor rigoroso. Isto é, atento às nuances inesperadas das melodias, à condução harmônica, às vozes internas, ao tempo de duração de cada som — som que também é o do músico clássico, com apoio, sustentação, gradação e amplamente variado em articulações mais ligadas ou destacadas. Ele identifica e corrige erros virtualmente perpetuados em gravações mais despojadas.

Além das duas versões do primeiro “Choro Triste” —também conhecido por “Tristezas de um Violão”—, estão no álbum a extraordinária “Enigma” e o “Choro Triste nº 2”. Nascido em São Paulo, em 1915, e morto no Rio de Janeiro pouco antes de completar 40 anos, Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto, é o cerne deste segundo volume de “Violão Violão”.

Famosa em sua época, a obra de Garoto sobreviveu apenas nos meios especializados até que ganhasse, em 1991, uma edição digna de suas partituras, lançada mundialmente graças aos esforços musicológicos de Paulo Bellinati. Desde então, ela tem sido tocada em toda parte e estudada na academia.

Poucos intérpretes extraem tanta dor dessa música como o próprio Arthur Nestrovski. Nesse terreno, seu precursor parece ser Paulinho Nogueira, cujo toque singelo e emotivo pode ser surgir na memória durante a escuta atenta de “Violão Violão”.

Tristezas são igualmente evocadas em “Eu Te Amo”, de Jobim e Chico, uma das canções mais doloridas —e difíceis— do cancioneiro brasileiro, ou na pós-jobiniana “Valsa nº 4”, de João Camarero, escrita em há três anos para o próprio Arthur Nestrovski.

Jobim tem sido perseguido pelo músico há bastante tempo, e isso tanto em sua produção ensaística como na pura performance. Além de ter sido o tema de seu álbum de estreia, o compositor carioca está presente com destaque no livro “Três Canções de Jobim”, de 2004, e no álbum “Jobim Canção”, de 2024, feito ao lado da intérprete Paula Morelenbaum.

Sua abordagem do compositor é original, e pode ser definida como radicalmente poética: perscruta o artesanato composicional jobiniano de modo a desencaixá-lo tanto do mundo do jazz como das análises

usuais para clássicos da MPB.

Na única faixa em dueto do disco, João Camarero e Nestrovski tocam juntos “Odeon”, de Ernesto Nazareth. A brincadeira com a célebre figura sonora da “Quinta Sinfonia” de Beethoven, presente já no início do arranjo, poderia parecer gratuita, mas não é.

Conforme a música avança, a diversão das citações aumenta mais, e, quando se chega à terceira parte do choro, já estamos plenamente persuadidos de que Nazareth estava, de fato, o tempo todo citando Beethoven. Ou, inversamente, poderia também ser que Beethoven fosse um chorão “avant la lettre”.

Mas a faixa do novo trabalho na qual Arthur Nestrovski está mais solto e despojado é, notavelmente, “Lamentos”, de Pixinguinha, cuja segunda parte ele faz em “campanelas” —isto é, com as notas vizinhas ressoando todas juntas, misturadas, em cordas diferentes. O ritmo flui, e há um caráter improvisatório que, pouco a pouco, vai preenchendo de tristezas o caminho que conduz do violão ao violão.

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