Poucos ídolos do rock se esforçaram tanto para acabar com a própria reputação quanto Morrissey. Nos últimos 15 ou 20 anos, o genial letrista dos The Smiths, que passou o início da carreira defendendo os animais e malhando a monarquia inglesa, Margaret Thatcher e políticos em geral, se meteu em brigas e polêmicas que afastaram boa parte de seus antigos fãs.
De elogios a políticos de extrema direita a comentários belicosos sobre imigrantes, passando por cancelamentos de shows e farpas trocadas com o ex-colega de Smiths, o guitarrista Johnny Marr, Moz acabou “cancelado” por muitos ex-admiradores.
Acaba de sair “Make-Up Is a Lie”, o 14º álbum de canções inéditas de Morrissey e o primeiro desde “I Am Not a Dog in a Chain”, lançado há seis anos. O que primeiro chama a atenção no disco é a feiura da capa, um retrato de Morrissey de boca e braços abertos que mais parece uma postagem de Instagram.
Passado o susto inicial, o disco abre com uma música que não deixa dúvidas quanto ao estado de espírito de Morrissey: “You’re Right It’s Time” é uma paulada nos detratores do cantor e uma clara condenação da cultura do cancelamento: “Quero me afastar daqueles que passam o dia olhando para telas/ quero poder falar e não ser acuado por censura/ em busca de sabedoria bem mais sábia que a minha/ quero deixar alguém me amar se for capaz” canta Morrissey, sobre uma base que lembra a sonoridade synthpop de bandas como A Flock of Seagulls e Orchestral Manoeuvres in the Dark.
Morrissey é um dos grandes letristas do rock de qualquer época. Tanto nos Smiths quanto em sua carreira solo, conjurou imagens que embalaram jovens melancólicos em quartos escuros por todo o planeta. Dos “ônibus de dois andares” que matavam o casal apaixonado em “There is a Light That Never Goes Out” ao DJ que ele sugeria enforcar, em “Panic”, por tocar música que “não diz nada sobre minha vida”, Moz criou versos geniais de humor sombrio e um senso de ironia muito pessoal.
É exatamente essa capacidade de rir de si mesmo e dos seus fãs que falta em “Make-Up Is a Lie”. Se antes Morrissey destilava veneno de forma elegante e criativa, o novo disco tem ar pesado de acerto de contas. Além de “You’re Right It’s Time”, pelo menos duas outras canções do disco parecem colocar o compositor no papel de vítima.
Em “Boulevard”, por exemplo, balada melancólica e lenta, cantada em sua voz meio sussurrada, ele diz: “As pessoas me alertam: ‘Você está acabando com a sua saúde’/ e eu respondo ‘E daí’?/ só preciso de mais uma razão/ para desistir de Deus e de cada palavra que ele disse”.
O tom religioso e de autocomiseração continua em “Notre Dame”, em que o compositor parece alertar para algum tipo de conspiração no caso do incêndio da icônica catedral francesa. A música é bem fraca e parece uma imitação de Depeche Mode.
Algumas passagens do disco têm letras tão mundanas e medíocres para os padrões de Morrissey que soam como alguém tentando imitá-lo. “Kerching Kerching” periga ser uma das piores músicas que Moz fez em mais de 40 anos de carreira. O título remete ao barulho de uma caixa registradora, e a letra fala da obsessão por dinheiro que faz o personagem da canção esquecer as coisas importantes da vida.
E aí, quando você acha que Morrissey acabou e não tem mais nada a oferecer, ele saca do ar uma maravilha como “Zoom Zoom the Little Boy”, canção leve e divertida, com um refrão genial, sobre um menino obcecado em proteger animais: “Ele quer salvar os gatos e cachorros e morcegos e os sapos/ e os texugos e os porcos-espinhos/ ele quer salvar as vacas e ovelhas, e as criaturas das profundezas/ e a raposa com olhos de borboleta”. Só Morrissey conseguiria fazer uma letra tão bonita citando um texugo.
Outra faixa surpreendente é uma ode ao crítico musical norte-americano Lester Bangs, ídolo de Morrissey desde a adolescência. A faixa, que tem uma levada de guitarra que lembra “Get Lucky”, do Daft Punk, leva o nome do jornalista e recorda uma época em que o jovem Morrissey recortava artigos de jornal sobre suas bandas favoritas e chefiava um fã-clube da banda The New York Dolls.
“Outra noite de cerveja em seu porão de desespero/ mulheres nuas nas paredes/ porque é ali que elas pertencem/ uma camiseta de Detroit, suja e rasgada/ com manchas de sete dias/ Ah, mas quando você escrevia/ sobre o Roxy Music ou os Dolls [The New York Dolls]/ o ‘Village Voice’ não tinha escolha/ senão celebrar todas as suas palavras/ como é ser você, Lester Bangs?/ a três mil milhas de distância/ esse nerd devora todas as suas palavras”. O grupo Roxy Music não só é citado na letra, como foi homenageado no disco com uma versão de “Amazona”, faixa originalmente lançada no disco “Stranded”, de 1973.
No futuro, “Make-Up Is a Lie” certamente não será lembrado como um dos grandes momentos de carreira de Morrissey. Do compositor que lançou quatro LPs clássicos com os Smiths e gravou discos solo como “Viva Hate”, “Kill Uncle”, “Vauxhall and I” e “Your Arsenal”, os fãs esperam muito mais. Mesmo assim, o novo disco tem alguns momentos que nos fazem lembrar por que Moz é tão especial.