Entre os preparativos para sua viagem ao Brasil, John Malkovich conseguiu um tempo para ver “O Agente Secreto“, filme brasileiro que concorre a quatro categorias no Oscar de 2026, incluindo a de melhor filme.
Às vésperas de apresentar “The Infamous Ramírez Hoffman”, espetáculo baseado em um conto do chileno Roberto Bolaño que desembarca no Theatro Municipal do Rio e na Sala São Paulo no final de março, o ator compara o projeto de Kleber Mendonça Filho com sua atração. A peça une monólogo e concerto musical e ironiza um autor fictício, ligado à direita, e defensor da arte como passe livre para faltar com a moral.
“Acredito que o filme é uma espécie de primo distante da minha apresentação. Armando [personagem de Wagner Moura] poderia ser um dos homens na mira de Ramírez Hoffman”, diz Malkovich à Folha, logo após elogiar a atuação do protagonista. Na trama de Mendonça Filho, Moura vive um professor de universidade pública que decide fugir para o Recife após desagradar um empresário perigoso.
Ambientado no Brasil da ditadura militar, o filme retrata um período de centralização do poder, ferramenta de domínio que o trabalho de Malkovich questiona com certa frequência —embora ele já tenha dito, em variadas ocasiões, não se enxergar como alguém de postura política. Reconhecido pelos muitos vilões que já viveu no cinema, o ator tem “Guerrilha Sem Face” como único longa que dirigiu na carreira, projeto sobre um policial sul-americano que caça um líder revolucionário em meio a um governo instável.
Mais de uma década depois, o ator subiu ao palco com “Just Call Me God”, um de seus vários projetos que investigam o caráter de figuras autoritárias. Em cena, ele encarna um ditador, prestes a ser deposto, que busca ser considerado uma divindade.
Malkovich traça um paralelo entre o narcisismo desses personagens, incapazes de aceitar opiniões diferentes das suas, e aquele gerado, hoje, pelas redes sociais. “As pessoas andam dizendo muitas coisas sem pensar. Tudo se resume a uma lógica de ‘eu sinto raiva, eu sinto isso ou aquilo.'”
“O final de ‘O Agente Secreto’ é chocante. Os dominantes decidem acabar com aquele personagem só porque ele não via o mundo da mesma forma que eles.”
Sobre o seu interesse pela América do Sul, ele cita a literatura da região, marcada por figuras como Bolaño e Mario Vargas Llosa, e a vontade de conhecê-la cada vez melhor. “Sou atraído por ela por não ter crescido lá. A história parece ter se esquecido que esse já foi o “novo mundo”, e muitos insistem em separá-la da América do Norte. É um lugar com histórias muito ricas e cujos autores parecem ter criado outro planeta.”