Tricia Tuttle manterá o cargo de diretora do Festival de Berlim, mas, segundo o jornal alemão Bild, terá de se submeter a um novo código de conduta, que reforçará medidas de “combate ao antissemitismo” entre os participantes. No dia 25, o ministro da Cultura da Alemanha, Wolfram Weimer, que preside o conselho da Berlinale, convocara uma reunião para discutir a possível demissão da curadora, que não foi aprovada.
A jornalista americana sofreu críticas por sua presença numa foto com a equipe responsável pelo filme “Chronicles from the Siege“, do diretor Abdallah Alkhatib. Na imagem, tirada após uma sessão do filme no festival, várias pessoas usam keffiyehs, os lenços típicos, e um homem segura a bandeira da Palestina.
Tuttle, que, apesar da posição de neutralidade adotada durante o festival, sempre defendeu o direito à manifestação, foi então acusada de antissemitismo, ainda que participar de fotos com as equipes responsáveis pelos títulos selecionados seja um de seus tantos papéis como diretora.
Também contribuiu para as acusações o fato de Abdallah Alkhatib ter repetido o gesto ao ser premiado no sábado (21), na seção Panorama do festival. Ao receber o prêmio, o diretor afirmou que o governo alemão era “conivente com o genocídio em Gaza”, numa das várias menções ao conflito no Oriente Médio feitas durante o evento.
Segundo o Bild, o jornal mais popular da Alemanha, Weimer não foi capaz de chegar a um acordo voltado ao desligamento de Tuttle, cujo contrato de cinco anos com o festival ainda contempla outros três. A solução estabelecida, de acordo com fontes próximas ao governo citadas pelo veículo alemão, foi a criação de um novo conselho consultivo e a elaboração desse novo conjunto de regras.
Diante da possível demissão de Tuttle, diversos artistas da indústria cinematográfica, como o cineasta Sean Baker, a atriz Tilda Swinton e Wim Wenders, diretor que presidiu o júri da última Berlinale, prestaram apoio a ela. Foi publicada, também em defesa da curadora, uma carta aberta assinada por diretores de importantes festivais internacionais, caso de Thierry Frémaux, à frente do Festival de Cannes.
Ainda na edição desse ano, a curadora americana esteve no centro de uma grande polêmica por ter defendido que cineastas e atores não são obrigados a se manifestar politicamente. A discussão começou na entrevista de abertura da Berlinale, quando um jornalista provocou o júri sobre a guerra Israel-Hamas e ouviu de Wenders que o cinema é “o oposto da política”.
A posição de Tuttle, que não serviu de argumento para amenizar as acusações de antissemitismo, foi alvo de uma carta assinada por 81 profissionais da indústria que já haviam participado da Berlinale ou estavam na edição deste ano. Javier Bardem, Tilda Swinton e Fernando Meirelles estavam entre os signatários, que pediam um posicionamento do festival sobre a Faixa de Gaza. Em outros anos, a Berlinale não se furtou a emitir opiniões sobre a violação de direitos humanos no Irã e a invasão russa na Ucrânia.
Em resposta ao The Hollywood Reporter, a organização da Berlinale afirmou que as novas informações sobre o caso são “totalmente novas, apesar de terem sido dadas pelo Bild como fatos estabelecidos”. “Por ora, aguardaremos as conclusões do Conselho de Supervisão e, então, nos pronunciaremos sobre o assunto em um momento posterior.”