João Guimarães Rosa apareceu de pijama azul. Melhor do que nu, como também costumava transitar pelo imóvel. Pelo menos foi o que pareceu à escritora Socorro Acioli quando, sozinha, entrou no antigo apartamento do autor em Copacabana, no Rio. Ele estava morto há coisa de meio século, aliás.
A autora de “A Cabeça do Santo” contou no Festival Fronteiras seu esbarrão com o que acreditou ser o fantasma do escritor. A mesa, última deste domingo (8), reunia Acioli, a atriz e diretora Bárbara Paz e a romancista Carla Madeira, com mediação do jornalista Cris Naumovs.
A conversa falou da criação artística num mundo saturado de estímulos, “quando tudo é conteúdo o tempo inteiro”, como provocou Naumovs na abertura.
Acioli, que já teve Gabriel García Marquez como tutor, é fissurada em notícias insólitas. Recebe muitas dos amigos e às vezes protagoniza algumas. Como esta que começou quando pesquisava a vida de Guimarães Rosa e descobriu que o apartamento onde ele viveu e escreveu parte da obra estava disponível para aluguel por temporada. Após insistir com a imobiliária, passou alguns dias ali, sozinha, escrevendo.
Em determinado momento, ela viu alguém passar pelo quarto onde havia deixado as malas. Achou que fosse a equipe de limpeza. Não era. Já tinham ido embora.
A escritora descreveu a figura avistada como “uma pessoa alta, bem mais alta”, e “toda vestida de azul”. Depois perguntou à neta que gerenciava o imóvel se o autor costumava usar pijama daquela cor. Era isso mesmo. A história, contada entre o humor e o assombro, serviu de porta de entrada para um tema recorrente da mesa: o mistério do processo criativo.
Para Acioli, a criação nasce justamente dos momentos de silêncio, cada vez mais raros num cotidiano dominado por telas e notificações. “Eu preciso pelo menos meia hora sem fazer nada, porque senão em algum momento eu vou ter um curto-circuito”, disse.
Madeira abordou a tensão entre sucesso e liberdade criativa. Autora de romances que venderam mais de um milhão de exemplares, ela descreveu o peso de continuar escrevendo depois do reconhecimento público.
Para ela, a resposta está em ignorar o julgamento alheio, algo mais fácil de fazer antes de virar best-seller, admite. Quando certa vez lhe perguntarem se precisou de coragem para lançar “Tudo É Rio“, respondeu: “Não tinha que ter coragem nenhuma, eu não sabia que vocês iam ler”.
Madeira citou uma fala de João Cabral de Melo Neto: escritores criam por dois motivos, “sou para transbordar ou para preencher”. Pode ser ambos também.