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Estupro coletivo no Rio: ‘A mãe de alguém vai chorar hoje’ – 10/03/2026 – Joanna Moura

by Silas Câmara

Quatro homens estupram uma menina de 17 anos num apartamento em Copacabana, bairro nobre do Rio de Janeiro. Ao saírem do apartamento depois do crime, um deles saca o celular e grava um vídeo dentro do elevador. Na tela, os quatro aparecem descontraídos, rindo, como se o crime que haviam acabado de cometer não passasse de uma brincadeira. Mas o deboche de um deles revela a perversidade da cena e a consciência plena da gravidade de suas ações: “A mãe de alguém vai chorar hoje”.

Enquanto isso, a vítima, sangrando e com hematomas por todo o corpo, enviava uma mensagem para o irmão: “Preciso de ajuda agora, é sério. Acho que fui estuprada”. dizia o texto. Ao chegar em casa, a menina contou à avó o que havia acontecido e, pedindo desculpas, mostrava as marcas que permaneciam em seu corpo.

Foi essa cadeia de ações pós-crime que permitiu que eu, você e toda a sociedade brasileira ficássemos sabendo do que aconteceu naquele dia, naquele apartamento em Copacabana. Foi também o que possibilitou que soubéssemos o que havia acontecido três anos antes, quando três dos cinco envolvidos teriam estuprado, com modus operandi semelhante ao registrado agora, uma menina de 14 anos. E também o que havia acontecido num salão de festas com outra vítima, hoje com 19 anos.

Há dias estou horrorizada com esse caso, que piora a cada desdobramento. O mais recente deles tendo sido a cena nojenta de um dos réus se apresentando na 12ª DP, de cabeça erquida e vestindo uma camiseta com os dizeres “regret nothing”. A frase, que significa “não se arrependa de nada”, já seria uma afronta por si só, mas é pior. Trata-se de um slogan do movimento red pill, que propaga discursos de ódio contra as mulheres.

Já chorei muitas vezes ao ouvir sobre esse caso. Chorei de raiva, de revolta, de desesperança, de pena, chorei por mim e por minha filha, por tudo o que serei obrigada a ensiná-la porque o mundo me obriga. E chorei inconsolavelmente por essas mães dos dois casos que surgiram na esteira do estupro em Copacabana.

Essas duas mães cujas filhas, tomadas por medo e vergonha, só conseguiram reunir forças e coragem para dividir o trauma que haviam sofrido três anos depois, quando as marcas do corpo já haviam sido apagadas. Chorei por essas mães que foram à delegacia denunciar o que havia acontecido com suas filhas enquanto lidavam com a culpa que carregavam por não terem sido porto seguro quando o inimaginável aconteceu.

Como mãe de uma menina, não consigo imaginar dor maior do que saber que ela sofreu uma violência. Mas ouvir sobre essa violência três anos depois, sabendo que ela sofreu em silêncio por todo esse tempo, que lidou sozinha com as repercussões internas do maior trauma que uma mulher pode sofrer, deve sim doer ainda mais.

Por isso, se há algum fio de esperança nesse caso monstruoso, esse fio é a quebra do silêncio. No dia 31 de janeiro, uma menina encontrou na família um porto seguro para contar o que havia lhe acontecido. No dia 31 de janeiro, uma mãe chorou e por isso quatro homens enfrentarão a Justiça. De tantos debates que esse caso despertou, torço para que um deles seja o da importância de criarmos relações de confiança com crianças e adolescentes. Para que eles sempre saibam que têm com quem contar.


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