Antes de chegar ao feito, até então inédito, de ter seu “Anistia 79” escolhido ao mesmo tempo como melhor filme pelo júri e pelo público do Festival de Tiradentes, Anita Leandro trabalhou como jornalista. E foi nessa profissão, entre 1979 e 1990, que se aproximou do cinema. Mais especificamente, foi editora em jornais da Globo, onde dedicou atenção especial à montagem.
Seu novo documentário abre, nesta quinta-feira (12), no Cinesesc, a versão paulistana da mostra de Tiradentes, com a exibição filmes de destaque deste ano até 18 de março.
Ali, ela trabalha sobre um encontro de exilados brasileiros, em junho de 1979, que ficou conhecido como Congresso de Roma. Na ocasião, vários líderes puseram em questão a anistia concedida pelo governo brasileiro aos seus antigos antagonistas, mas, ao mesmo tempo, também aos seus torturadores.
“Por meio da montagem, é possível manipular as imagens para levá-las a criar o sentido que você quiser”, diz a hoje cineasta e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ela dá como exemplo disso o trabalho de repórteres que induzem seus entrevistados a chorar falando de momentos dramáticos de sua vida. “Isso é o tipo da coisa que não me interessa. Só me interessa o que acontece depois que a pessoa já chorou.”
Assim, Leandro situa seu filme fora do âmbito do sentimentalismo. É algo também comum a seu filme anterior, “Retratos de Identificação”, de 2014, uma meticulosa reconstituição da trajetória da exilada Maria Auxiliadora Lara Barcellos, desde sua prisão, passando pela tortura, pela perda de sua nacionalidade até o exílio na Alemanha e o suicídio numa estação de metrô.
No novo filme, o fio condutor é a história de Denise Crispim. Seu caso esteve no Tribunal Russell, em 1974, e é ilustrativo do que Leandro pretendeu trazer à luz. Quatro anos antes, o marido de Denise, Eduardo Collen Leite, conhecido como Bacuri, foi preso e torturado continuamente pelo delegado Sergio Fleury ao longo de 109 dias no Dops paulista, onde morreu.
As primeiras imagens de “Anistia 79” são de Denise no tribunal. Ela é incapaz de ler seu depoimento. Alguém lê por ela o relato sobre ter sido também exaustivamente torturada, entre julho e agosto daquele mesmo ano, “em todo o corpo, menos na barriga”. Estava grávida de sua filha, que nasceria na prisão.
O filme reencontrará Crispim e a filha em Roma. O clima é outro, parece haver alguma esperança. Será o gancho para mergulhar no congresso. Para a diretora, o maior problema em um trabalho desse tipo era envolver o espectador numa discussão sobre um tema amplo sem perder de vista os problemas individuais.
Para isso, Leandro usa entrevistas de pessoas envolvidas com o processo de anistia —como o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, que comenta as imagens—, ou divindo a tela em três —tendo no centro cenas do congresso e, nas laterais, pondo o ex-exilado Jean-Marc von der Weld e Helena Greco, na época jovem militante dos direitos humanos.
Vemos ainda, a certa altura, um encontro entre três militantes históricos —Apolônio de Carvalho, veterano da Guerra Civil Espanhola e da Resistência francesa; Gregório Bezerra, quadro fiel do Partido Comunista Brasileiro; e Diógenes de Arruda Câmara, durante anos o número dois do PCB de Luiz Carlos Prestes.
Noutro momento, há um cruzamento de gerações, como entre Rolando Frati, um dos fundadores do importante Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André, e seu filho, Ruy Frati, que cresceu na França e lá permanece até hoje, sendo o sucessor de Augusto Boal na direção do Teatro do Oprimido.
Foi um trabalho de uma década, iniciado em 2015, quando a filmagem bruta do congresso foi encontrada na Universidade de Nanterre, em Paris. “Foram várias viagens à França para isso”, diz a cineasta.
Aqui, Leandro serviu-se das filmagens em 16mm produzidas por Hamilton Lopes dos Santos —exilado que optou por não regressar ao Brasil— e realizadas em grande parte pelo cineasta Velso Ribas, que havia pouco tempo antes terminado o curso do Instituto de Altos Estudos Cinematográficos, em Paris. A cineasta faz questão de dar os créditos desses realizadores, assim como do também documentarista Silvio Da-Rin, morto em janeiro deste ano, importante na recuperação do material bruto.
A esse primeiro elemento seguiu-se a busca, recuperação e sincronização do som direto gravado no evento e que estava em diferentes suportes. “Mas o mais difícil foi mesmo obter o financiamento para a montagem e finalização do filme”, diz ela, o que só em 2023.
Leandro diz que o sentido do filme, para além do registro, é pensar o que todos esses debates deixaram de herança para o país. E, na montagem, buscar absoluta fidelidade às imagens originais e à fala dos participantes.
“Quem insistia muito nisso era o Eduardo Coutinho, na necessidade de preservar a palavra, de não truncá-la, para não alterar o sentido”, explica a diretora, se referindo à referência absoluta do documentário brasileiro desde os anos 1980.
O resultado desse trabalho foi, primeiro, a exibição do filme em Tiradentes. “Eram 800 pessoas na plateia. Pensei que muita gente fosse sair no meio. Nada disso. O filme foi visto em silêncio absoluto. Ninguém saiu”.
Esse momento permanece gravado com força na memória da autora. Ele parece recompensá-la pelos anos de trabalho em “Anistia 79”, mas a emoção permanece contida, como em seu filme. Como se a emoção no cinema só tivesse sentido quando acompanhada da razão —e nisso, Leandro está próxima de Serguei Eisenstein, certamente.