A Lua, em “Lunar”, não aparece como enfeite místico nem como imagem fácil de capa. Ela entra como método. Regula colheita, águas, fertilidade, emoção —e, no novo disco de Souto, também organiza a travessia de uma artista que parece menos interessada em caber numa cena do que em deslocar o centro dela.
Lançado nesta terça (10), o álbum marca um novo momento da rapper paulistana, agora apresentada apenas como Souto, sem o “MC” que acompanhou sua trajetória até aqui. A troca não apaga sua origem nem sua vocação de rimadora; ao contrário, explicita um amadurecimento que rejeita a velha necessidade de escolher entre ser MC, cantora, compositora ou intérprete. Em “Lunar”, Souto prefere ser tudo isso ao mesmo tempo.
O disco nasceu de um projeto atravessado por debates sobre saúde mental e foi ganhando contornos de fim de mundo no pós-pandemia. Mas, em vez de se render ao colapso como estética vaga, Souto faz do apocalipse íntimo uma pergunta política: o que pode ser reconstruído depois da tragédia Há ecos do pensamento do ambientalista e ativista também indígena Ailton Krenak, nessa tentativa de adiar o fim e imaginar outra vida possível, sem transformar o conceito em mero slogan.
Essa imaginação também passa pela forma. Com direção musical de Trajano e produção de Grou, Souto troca parte da rigidez do ataque frontal por uma melodia mais aberta, mais porosa, sem diluir a força do que diz. Num rap acostumado a confundir agressividade com potência, “Lunar” propõe outra via: a de que vulnerabilidade não é fraqueza, mas linguagem.
A dimensão visual acompanha esse movimento. Inspirado pelo “amazôfuturismo” formulado por João Queiroz, o álbum constrói uma paisagem distópica de quebrada, feminina e futurista, com animações que evocam videogame e fim de era. O achado está em não transformar a identidade indígena de Souto em alegoria fixa ou adereço exótico. Sua presença atravessa o trabalho como uma obrigação pedagógica para uma plateia branca.
É aí que “Lunar” toca numa ferida que o rap adora fingir que enfrenta. O discurso sobre a ascensão das mulheres no gênero volta e meia reaparece, mas visibilidade, cachê e consagração seguem circulando entre pouquíssimos nomes —quase sempre os mesmos, no mesmo eixo, no mesmo rodízio de sempre.
Souto percebe isso e não pede licença: amplia seu território artístico justamente quando o mercado ainda insiste em empurrar mulheres para dois lugares convenientes, a exceção comemorada ou o apagamento estrutural.
Se “Ritual”, seu disco de estreia, afirmava memória e identidade, “Lunar” parece interessado em tensionar o que vem depois da afirmação: o direito de ser múltipla. Souto quer falar de ancestralidade, mas também de contradição, desejo, amadurecimento, falha e reinvenção. Quer ser lida para além da pauta única. Num tempo em que a indústria cobra legibilidade instantânea e personagens fáceis de vender, isso já é um gesto de insubordinação.
Marcado para 19 de abril na Casa Natura Musical, em São Paulo, o show de lançamento levará ao palco as quatro fases da Lua e a nova arquitetura sonora de Souto. O disco, que acompanha o movimento de uma artista que amadurece, reposiciona sua identidade e expande sua linguagem num cenário que ainda restringe espaço e reconhecimento para muitas mulheres.
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