Ataques e insultos que circulam por plataformas digitais podem ser tão ou até mais devastadores que os da vida real. É dessa ideia que surgiu “Vigiada e Punida“, peça na MITsp que transforma ofensas dirigidas à Safia Nolin numa espécie de embate musical.
Sob direção de Philippe Cyr, a cantora lésbica vê casos de misoginia, gordofobia e de homofobia darem lugar a músicas compostas contra ela. Protegido por máscaras brancas, um coro de agressores canta comentários da internet, e a artista empunha um violão para combater o ódio.
“Um objetivo é fazer o público perceber que esses ataques são reais. É comum dizer que aquilo que é virtual não pertence à realidade”, diz o diretor, que destaca a união entre a protagonista e o público. “Era importante que todos pudessem sentir os insultos sobre seus próprios corpos. Queríamos que a plateia estivesse ali com Safia, representando uma extensão do corpo dela e um tipo de união mundial.”
Sobre um palco indefinido, revestido por tapeçarias de uma sala de estar, o coro se divide entre degraus e demonstra certa imponência perante Nolin. Nascida no Canadá, ela tem milhares de seguidores em suas redes sociais e ficou conhecida por abordar questões introspectivas em álbuns indie. Apesar de ativa na internet, onde defende causas da comunidade LGBTQIA+ e da população palestina, suas letras vão na contramão da lógica explosiva que define plataformas digitais, onde muitos buscam reações extremas.
“Ela é uma mulher gorda, lésbica, árabe e, além disso, uma artista. Era impossível que a peça não fosse, também, sobre a sua identidade”, afirma Cyr. “Existem vários aspectos sobre Safia que fizeram dela alvo de ofensas, por supostamente tornarem ela alguém ‘diferente’. Mas, o que é ser ‘normal’ hoje?”
O encenador, que já levou o espetáculo para diferentes países, diz acreditar que os espectadores de São Paulo devem recebê-lo com a mesma comoção de outras plateias. Ele fala sobre as pautas progressistas que têm ganho repercussão pelo mundo, mas diz que crimes contra mulheres seguem igualmente atuais.
“Costumo dizer que a misoginia é a mãe de todas as ofensas. Quando as pessoas dizem algo racista, ou apontam o dedo para a orientação sexual de alguém, costumam dizer algo misógino na mesma frase.”
O diálogo de “Vigiada e Punida” com tensões contemporâneas e pessoais, aliás, trouxe à equipe um grande desafio —como evitar que o processo criativo reproduzisse alguns dos traumas de Nolin? “O grande trunfo da nossa peça é pegar coisas sujas e fazê-las lindas”, justifica o diretor. Ele diz que apropriação de termos muito ofensivos trouxeram ao projeto uma noção de empoderamento.
Não por acaso, durante a apresentação, uma amiga se junta à protagonista. As duas se abraçam e, munidas de suas vozes, encontram palavras de afeto para reaver a barbárie. Com o tempo, mesmo os integrantes do coro ajustam a intenção de seus discursos.
“Queríamos mostrar que ela não está sozinha, de jeito nenhum. A orquestra se transforma em uma parte de Safia. E, ao final, todos do público também estão ao lado dela. De cidade em cidade, estamos construindo a nossa pequena luta armada contra a violência”.
Sobre ações coletivas na indústria artística, hoje cada vez mais digitalizada e que em muitos casos estimula a rivalidade, Cyr afirma que construir experiências cativantes é cada vez mais desafiador. Apesar do cenário bem elaborado e da composição de músicas inéditas, ele diz que o verdadeiro trunfo de “Vigiada e Punida” está em sua simplicidade.
“Fisicamente, a nossa apresentação é muito simples. Não precisávamos de muito mais do que a voz angelical de Safia e o seu violão. Ela não precisou se esforçar muito para chamar a atenção enquanto grande artista.” É o tipo de força, segundo ele, que as redes sociais não podem apagar.
“As pessoas dizem que as artes vão acabar desde que o mundo é mundo. Isso é mentira. Precisamos nos adaptar às novas linguagens que aparecem, pois estamos diante de uma oportunidade.”