Estamos tão vidrados nos LLMs (grandes modelos de linguagem) que acabamos esquecendo que os algoritmos das redes sociais estão mudando. Métricas clássicas como curtidas e compartilhamentos vêm perdendo centralidade, enquanto a capacidade de fazer a conversa continuar tornou-se a grande obsessão das plataformas preocupadas em atualizar a matemática do engajamento.
Detalhes recém-publicados e em parte ofuscados do código-fonte do algoritmo do X mostram isso. O sistema passou a privilegiar conteúdos que estimulam réplicas sequenciais em vez dos que geram reações imediatas, ainda que em maior número.
Uma atualização deste mês do Instagram vai na mesma direção: interações entre membros da audiência dispararam no ranqueamento. Os produtores de conteúdo reagiram multiplicando as narrativas que prendem pela sensação de que é sua obrigação contribuir com uma síntese. Como os entendimentos variam, criam-se debates infinitos.
A tática não é nova. Ela está presente no antigo caso do vestido que ora parece azul, ora dourado e, mais ainda, na polarização, cuja forma só se realiza quando quem foi fisgado responde. Agora esse princípio virou peça central de todas as categorias, levando a uma nova gama de iscas.
Posts com datas erradas ou erros de grafia para ativar o impulso corretivo. Vídeos que fundem a denúncia da má-fé dos bilionários com dicas secretas para enriquecer como eles. Listas dos “dez melhores” que omitem deliberadamente o mais óbvio para que todos comentem “você esqueceu de X”. Filmagens de explosões monumentais em Israel, feitas por IA, não mais para só enganar, mas para estimular a juventude progressista a interagir dizendo “como eu gostaria que fosse verdade”. Opiniões apresentadas como impopulares, mas calibradas para dividir a audiência exatamente ao meio.
A estrutura lembra Sam Altman quando diz que a IA geral pode acabar com a humanidade e que, justamente por isso, ele precisa desenvolvê-la. É o desejo do aparte que cria o meme.
Na base do fenômeno está a comoditização da incompletude. Ideias ambíguas ou contraditórias são usinadas sem qualquer pretensão de autoria e se espalham como vírus moral, levando os infectados a lhes dar sentido como quem faz uma boa ação. Isso não se escora em predileções narrativas, mas em ciência comportamental, especificamente processamento preditivo, que mostra que o cérebro-mente é facilmente cooptado por Gestalts em aberto, mesmo as que têm baixo valor pessoal.
O novo regime produtivo parece feito sob medida para a fusão do Instagram com o Moltbook, a rede social de agentes de IA adquirida pela Meta neste mês. A empresa já disse que prevê centenas de milhões de influencers sintéticos operando nas suas plataformas, com bios, fotos de perfil e a capacidade de postar e comentar como qualquer conta humana.
A fórmula da incompletude é altamente replicável e expansível e já está presente no ChatGPT, com suas sugestões insuportáveis ao final de cada resposta. É fácil imaginar os arquitetos da modelagem comportamental desenhando IAs hiperespecializadas em reagir com aquela quantidade ideal de informação para provocar uma réplica.
Isso dá outra dimensão às mudanças algorítmicas. As plataformas que premiam a incompletude estão prestes a ser povoadas por entidades cujo sentido de resolução é a possibilidade de gerar o próximo token.
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