Há duas semanas, falamos neste espaço sobre a hipótese de que o Telescópio Espacial James Webb possa ter detectado estrelas da chamada População III, a primeira geração a se formar no Universo. A ideia promovida por Abraham Loeb (o astrofísico respeitado, mas “etemaníaco”, de Harvard) ainda não foi confirmada, mas um grupo internacional de astrônomos descobriu numa minúscula galáxia nas cercanias da Via Láctea uma estrela que seria uma descendente imediata dessa tal primeira geração –e esse achado é incontroverso.
A descoberta veio das análises de imagens produzidas pela DECam, a câmera de altíssima resolução do projeto Dark Energy Survey, instalada no telescópio de quatro metros Victor M. Blanco, no Chile. Em artigo liderado por Anirudh Chiti, das universidades de Chicago e Stanford, nos EUA, a equipe trata da estrela designada PicII-503. O nome parece bem mais cifrado do que de fato é. Trata-se da 503ª estrela catalogada na galáxia anã ultratênue Pictor II, localizada na constelação austral Pictor (o Pintor), satélite da maiorzinha Grande Nuvem de Magalhães (que por sua vez é uma vizinha modesta, mas destacada pela proximidade, da nossa Via Láctea).
Pertencente à chamada População II, a PicII-503 é uma das estrelas mais primitivas já descobertas, em termos químicos. O que significa isso? Ela tem uma composição pobre em elementos pesados (aqueles produzidos apenas por estrelas, bem depois do Big Bang), o que indica que é uma sucessora imediata de estrelas da População III (que não teria elementos pesados, formada só pelo hidrogênio e hélio primordiais).
Para que se tenha uma ideia, o Sol (parte da População I, enriquecido com elementos pesados) tem 40 mil vezes mais ferro que ela. PicII-503 também se revelou extremamente pobre em cálcio, contendo as menores abundâncias desses dois elementos já medidas em objetos fora da Via Láctea.
Em compensação, a estrela tem uma concentração bem alta de carbono em proporção ao ferro, algo que os astrônomos já viram antes, mas principalmente em estrelas velhas nas regiões mais externas da Via Láctea, o chamado halo galáctico. A novidade está em encontrá-la numa galáxia anã ultratênue como a Pictor II.
A descoberta suporta duas hipóteses muito interessantes: a de que as estrelas do halo da Via Láctea se formaram a partir de galáxias anãs antigas incorporadas a ela por meio de capturas e fusões, e a de que essas estrelas pobres em elementos pesados, mas ricas em carbono, da População II são fruto da detonação de supernovas de baixa energia da População I. Nesses casos, os elementos mais pesados, como ferro, cairiam de volta nos núcleos remanescentes após a explosão, mas os mais leves, como carbono, conseguiriam escapar e polinizariam nebulosas que mais tarde dariam origem a estrelas da População II, explicando a discrepância.
Claro, tudo isso, por sua vez, ajuda a ter um quadro cada vez mais completo de como o Universo evoluiu nos últimos 13,8 bilhões de anos, a ponto de produzir criaturas capazes de desvendar os detalhes de sua história pregressa. Os resultados de Chiti e seus colegas foram publicados no periódico britânico Nature Astronomy.
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