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A moda brasileira não vive só de commodities – 03/02/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

Em meio à celebração por conta do acordo comercial firmado entre Mercosul e União Europeia, negociação que durou mais de duas décadas para ser concluída, causou estranhamento a visão de diretores de importantes órgãos do setor têxtil brasileiro, que afirmam, em matéria publicada na Folha, na última quinta-feira (29), não existir design no Brasil.

Certas colocações dos executivos demonstram desconhecimento sobre as bases históricas que forjaram a moda europeia. Fica a impressão de que esses diretores-executivos enxergam o Brasil somente pela lente do agronegócio, da ponta inicial da cadeia da moda, como se o país fosse apenas um produtor de commodity. Essa perspectiva, evidentemente, é perigosa e redutora.

Como se sabe, a cadeia produtiva da moda é extensa, composta por muitos elos. Começa na produção de fibras —naturais, artificiais e sintéticas, como o algodão, a viscose e o poliéster—, passa pela produção e beneficiamento de tecidos, pela confecção de roupas e acessórios e termina no varejo.

Isso sem falar nos investimentos simbólicos e culturais que também participam da cadeia de produção da moda, como desfiles, editoriais em revistas, exposições em museus, a criação de acervos de indumentária e moda. E vale lembrar que o Brasil tem a última cadeia têxtil completa do Ocidente.

Certamente, não é fácil entrar no mercado europeu. A questão é que isso não se relaciona com falta de qualidade ou design do produto brasileiro, mas, sim, com fortes políticas protecionistas e impositivas relações de poder econômico e simbólico.

Mesmo assim, como atesta matéria publicada também na Folha, em abril de 2024, há importantes marcas brasileiras quebrando essa barreira. Osklen, Farm, Água de Coco, Lenny Niemeyer são algumas delas. A Farm, inclusive, tem um espaço de venda na loja de departamentos Le Bon Marché, uma das mais antigas de Paris, criada em 1852. Curiosamente, não são marcas que falam a mesma língua dos europeus. É justamente o oposto, são marcas que vendem “tropicalismo” e brasilidade.

E mesmo designers e estilistas brasileiros que criam uma moda mais estruturada e iconoclasta, como Alexandre Herchcovitch, obtiveram sucesso com o público internacional, com lojas em Nova York e em Tóquio.

Logo, a partir da abertura que o acordo Mercosul-UE pode representar, o segredo para conquistar mercados europeus não parece estar na adequação ou na cópia, mas sim no investimento em identidade e soft power.

Todo estudante de design de moda no Brasil, seja de curso técnico ou graduação, sabe que, desde seus primórdios, a moda europeia se fez a partir de trocas culturais e comerciais. Lá atrás, no século 12, no contexto das Cruzadas, guerras de expansão territorial e religiosa que os cristãos empreenderam contra os mouros, os europeus levaram para casa joias, tecidos luxuosos que não circulavam na Europa, roupas e, o mais importante, uma técnica de corte de tecido inovadora.

Foi a partir dessa técnica de corte oriental, base da alfaiataria, que foi possível desenvolver os princípios mais elementares disso que hoje chamamos de moda europeia —as roupas costuradas, modeladas e ajustadas ao corpos; a distinção entre os gêneros expressa na indumentária; os trajes curtos e bifurcados para os homens.

Alguns séculos depois, com a expansão do comércio ultramarino e a invasão de territórios em África, na Ásia, na Oceania, na América, foram incorporadas à moda europeia matérias-primas, técnicas, estéticas consideradas “exóticas” aos olhos dos colonizadores, mas que estão na origem do vestuário de luxo de reis e rainhas, e que desembocou na alta-costura, criada na França em meados do século 19. Aqui, estamos falando de sedas, plumas, tingimentos, bordados, e também joias, acessórios, modelagens etc.

Ao longo do século 20, como demonstra a professora de história da moda da Universidade Estadual de Santa Catarina, Mara Rúbia Sant’Anna, em seu livro “Elegância, Beleza e Poder”, a França investiu pesado em estratégias de poder que lhe garantiam —e garantem até hoje— a posição de “capital da elegância, cujo estilo de vida ditava a maneira de ser da elite”.

Insistir na ideia de que só os europeus têm design e marcas fortes, além de ignorar a moda brasileira, é uma clara expressão da síndrome de vira-lata. E, mais ainda, reafirmar essa imagem de risco Brasil, diante do contexto de rupturas e rearranjos da ordem internacional, é tão demodê.

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