Plataformas de locação de curta temporada, como o Airbnb, terão de garantir segurança, serviço e qualidade, como fazem os hotéis. A afirmação é do belga Thomas Dubaere, CEO da Accor Américas, rede que comanda marcas como Ibis, Novotel, Pullman, Mercure e Faena.
A Accor vive momento de lua de mel com o Brasil. Em 2025, pela 1ª vez em quatro anos, houve crescimento do RevPAR (indicador que mede o lucro por quarto) motivado pelo aumento da ocupação. A demanda cresce no país nos segmentos de hóspedes que viajam a negócios, a lazer e para acompanhar eventos (shows, festivais e esportes). O RevPAR da companhia cresceu 10,2% em comparação com 2024.
Como está a concorrência de redes hoteleiras e plataformas de locação de curta temporada, como o Airbnb? É um questionamento que surgiu há dez ou 15 anos, quando o Airbnb começou a operar. A locação de curta temporada é uma oferta diferente, não substituta direta dos hotéis. Sim, há um impacto pontual, mas é outro modelo de negócio. Mesmo com o crescimento dos aluguéis de curto prazo, a ocupação dos nossos hotéis continuou crescendo, assim como a diária média. Se as plataformas de locação quiserem avançar nesse mercado, terão de garantir segurança, serviço e qualidade de produto — e seguir as mesmas regulações que os hotéis tradicionais.
O que o hóspede espera do hotel? Experiência, experiência e experiência. Na Accor, temos mais de 45 marcas, em todos os segmentos de hotelaria. Cada segmento tem o seu serviço, mas pensamos mais em experiência agora. É como podemos nos diferenciar da concorrência e diferenciar nossas marcas, mesmo nos selos de entrada, como Ibis.
O que explica o aquecimento do setor hoteleiro no Brasil? A infraestrutura está melhorando, a conectividade aérea, também. O câmbio, para alguns países, é favorável. O ponto positivo é que os estrangeiros estão crescendo a cada ano, e 2025 foi um recorde de quase 9,2 milhões. Eles vêm não somente no segmento de lazer, mas também no corporativo, que é o último que ainda não voltou completamente quando comparamos com 2019, o fluxo antes da pandemia. É o 1º ano em que o aumento da diária média não é a única razão do aumento do RevPAR, houve aumento da ocupação real, o que não acontecia há quatro anos. A demanda está crescendo nos três segmentos (lazer, negócios e eventos).
Como vocês esperam que o cenário econômico do Brasil afete os negócios da Accor em 2026? Os juros estão em 15%, o que é bastante elevado e sempre torna mais complexa a atração de novos investimentos. Mas, de todos os hotéis que assinamos, uma grande parte são projetos greenfield (novas construções), concentrados no segmento Ibis, que exige um nível de investimento menor do que um Fairmont ou um Sofitel. A economia brasileira está indo bem. Este é quase o primeiro ano, em cinco ou seis, em que a demanda cresce de forma consistente. Em vez de 4,5 milhões de visitantes internacionais, praticamente dobramos esse número. Quando a demanda cresce, o apetite para investir cresce indiretamente também.
O Faena terá um formato que combina residências e centro cultural, lembrando o modelo do Rosewood em SP. Há demanda para o super luxo? Sim. Já temos exemplos concretos. Em termos de volume, o segmento econômico, o médio e o premium sempre serão maiores. O luxo não precisa de volume, precisa de boa localização, produto de qualidade e demanda qualificada. Mas há, com certeza, potencial no Brasil, e não apenas em SP.
O cenário global está mais tenso. É uma preocupação para a Accor? Seria estranho se não fosse. Estamos em muitos países. Quando uma região enfrenta dificuldades, outra funciona bem, o que acaba compensando. Somos uma indústria resiliente. E o principal motor desse crescimento é a expansão da classe média no mundo, que viaja cada vez mais.
RAIO-X
Thomas Dubaere, 60
1965, Kortrijk. É CEO Accor Américas, na divisão Premium, Midscale & Economy. Formado na Brussels Hotel School, ele iniciou sua carreira no Novotel Bruges Centre (Bélgica) e ocupou diversos cargos até chegar a Diretor de Operações das Marcas Econômicas na Bélgica e em Luxemburgo, em 2005. Em 2012, assumiu a posição de Diretor Geral do Reino Unido e Irlanda. Em 2018, Dubaere tornou-se COO Accor Europa do Norte, responsável pelo Rein Unido, Irlanda, Escandinávia, Holanda, Bélgica e Luxemburgo. O executivo chegou ao Brasil em 2020, quando assumiu o cargo de CEO da região.
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