Imagine duas crianças de sete anos, uma brasileira e uma chilena, fazendo a prova de leitura do 2º ano.
A chilena recebe um texto longo sobre um animal chamado coati. Lê. Responde. E então encontra a última questão: “Por que você acha que é bom para os coatis viverem em grupos? Escreva sua resposta.” Cinco linhas em branco. A prova quer saber o que ela pensou.
A brasileira encontra um poema curto. E a questão: “A palavra que rima com ‘parede’ é…” Quatro alternativas. Ela marca uma. Avança.
Mesma idade. Mesmo ano escolar. Perguntas radicalmente diferentes, e essa diferença não é acidente pedagógico. É escolha.
O ministro Camilo Santana anunciou que 66% das crianças da rede pública estão alfabetizadas na idade certa. O Brasil superou a meta do CNCA (Compromisso Nacional Criança Alfabetiada) para 2025. É um avanço real –saímos de 56% em 2023. Faltou uma pergunta: alfabetizadas segundo qual critério?
O padrão nacional define como alfabetizada a criança que lê textos de até seis linhas e localiza informações explícitas neles. É um piso necessário, mas está sendo celebrado como teto. A prova do CNCA revela isso: há questões não envolvem texto algum. Pedem que a criança identifique rimas, discrimine sílabas, reconheça o nome de uma figura, habilidades do início da alfabetização.
Há mais: parte das questões é lida em voz alta pelo professor durante a aplicação. A prova foi desenhada para crianças que ainda não leem com autonomia suficiente para entender um enunciado escrito. A prova chilena não tem nenhuma instrução desse tipo. A criança lê tudo sozinha.
O problema é que, ao medir essas habilidades como critério de chegada, o sistema declara implicitamente que isso é suficiente. Não é.
A comparação com o Chile é desconcertante. A prova chilena do 2º ano não tem uma única questão de decodificação. Parte do princípio de que isso já foi resolvido. Apresenta textos longos, pede sínteses escritas, exige que a criança opine sobre decisões dos personagens e justifique sua posição por escrito. Isso aos sete anos.
O problema não é só pedagógico. É sistêmico. A avaliação não apenas mede o sistema, ela o regula. Deixa de ser termômetro e passa a termostato, definindo a temperatura que o sistema vai perseguir e impedindo que ela suba além disso. O que se avalia define o que o professor ensina, o que o diretor cobra, o que o prefeito usa como prova de sucesso. Quando a meta é 66% das crianças lendo seis linhas, é isso que o sistema vai perseguir. E vai parar aí.
O resultado é previsível: crianças que decodificam palavras, mas não constroem sentido. Que passam no indicador do 2º ano e chegam aos 15 anos sem conseguir interpretar um texto de complexidade média. Os dados do PISA confirmam esse percurso a cada edição. A régua baixa no 2º ano não resolve o problema, o empurra para frente, onde custa mais.
O avanço de 56% para 66% em dois anos é real e merece reconhecimento. O CNCA é uma política séria. Mas é exatamente quando os números melhoram que o risco de parar na régua errada é maior.
O caminho existe e não exige revolução. No curto prazo, o MEC pode incluir itens de maior complexidade na próxima edição do CNCA: textos mais longos; questões que exijam inferência; ao menos uma resposta escrita. No médio prazo, elevar progressivamente o padrão até que a prova do 2º ano se aproxime do que o Chile já pratica. Mas nada disso funciona se a régua subir e o sistema ficar para trás. É preciso, em paralelo, que o MEC ofereça apoio técnico –formação, materiais, acompanhamento – para que estados e municípios se adequem à nova exigência. Elevar a barra sem construir a escada é apenas trocar um problema de lugar.
A pergunta que o Brasil precisa responder antes de 2030 não é quantas crianças leem seis linhas. É quantas leem, entendem, discordam e escrevem. Enquanto a régua estiver baixa, o sistema vai continuar entregando o que ela pede. E vamos continuar chamando de conquista o que é apenas o começo.
Alexandre Schneider é professor da FGV-SP. Foi Secretário Municipal de Educação de São Paulo por duas vezes e Secretário Estadual de Educação de Pernambuco.
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