O ano era 2003 quando um novo reality show foi ao ar. America’s Next Top Model foi idealizado pela então modelo Tyra Banks para quebrar com as regras da indústria da moda. Sendo uma modelo negra, Tyra —que havia sofrido o racismo da indústria na pele— dizia querer abrir caminho para outras meninas que, como ela, não se encaixavam no padrão que a moda costumava exigir.
O programa foi um sucesso instantâneo. A dinâmica era simples: a cada episódio, as participantes deveriam cumprir desafios relacionados ao trabalho como modelo (sessões de foto, castings etc). Ao final do episódio, Tyra e um time de jurados composto por dois de seus melhores amigos avaliavam a performance das meninas e mandavam alguém para casa.
Como em qualquer reality show, a fórmula de sucesso não contava apenas com o desempenho das participantes nos desafios. Cada episódio era regado a muito drama. Inimizades eram criadas, traumas eram trazidos à tona, inseguranças eram exploradas à exaustão.
Apesar das polêmicas (ou talvez impulsionado por elas), o sucesso foi estrondoso e o programa sobreviveu por 24 temporadas, até que foi encerrado em 2018.
No ano seguinte, durante o lockdown, muita gente redescobriu ANTM (sigla pela qual ficou conhecido). E foi nesse novo contexto que muita coisa retratada no programa começou a ser problematizada. Episódios como o que as modelos “trocavam de raça” para uma sessão de fotos. Ou um ensaio cujo tema foi “mulheres mortas de forma violenta”.
Foi na esteira dessas discussões que a Netflix iniciou as gravações de “Reality Check: Inside America’s Next Top Model”, documentário que acaba de ir ao ar e narra os bastidores da série. Eu assisti tudo numa sentada só e me choquei com o nível de perversidade que vi retratado ali.
Um episódio em particular me causou profunda revolta. Na segunda temporada do programa, a produção sugere que as participantes recebam em casa alguns garotos que elas haviam conhecido horas antes durante um dos desafios. Lá pelas tantas, todos vão parar numa banheira onde Shandy Sullivan, uma das participantes, é vista trocando beijos com um dos rapazes. As câmeras, então, mostram Shandy na cama com o rapaz.
No dia seguinte, Shandy acorda chorando sem saber exatamente o que havia acontecido. Ela relata que bebeu sozinha duas garrafas de vinho e que não se lembrava do ato sexual, só sabia que ele tinha acontecido. Os relatos de Shandy —da época e de agora— são de quebrar o coração.
O documentário questiona os envolvidos na produção do programa sobre o episódio. Alguns fazem uma “mea culpa”, dizem que deveriam ter acolhido Shandy, que não deveriam ter gravado as cenas. Tyra finge não lembrar exatamente do ocorrido e depois tira o corpo fora, dizendo que não tomava decisões sobre produção e que Shandy, na verdade, havia sido poupada, porque havia imagens muito piores que poderiam ter ido ao ar.
Eu assisti aos três episódios do documentário esperando o momento em que alguém trataria o ocorrido com Shandy pelo nome: estupro de vulnerável. Mas foi em vão. A palavra estupro ou mesmo o termo violência sexual jamais foram mencionados.
A verdade é que o documentário faz um bom trabalho de mostrar que evoluímos em muitos aspectos. Em 2026, não é mais aceitável se fantasiar de outra etnia, nem tirar alguém do armário sem seu consentimento (como aconteceu com uma outra participante), mas infelizmente ainda parece que temos uma enorme dificuldade de nomear um crime contra a mulher, mesmo que ele aconteça diante dos nossos olhos.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.