A Anbima, associação de entes do mercado financeiro de de capitais que representar bancos, gestoras, corretoras, distribuidoras e administradoras, está implementando uma profunda mudança na sua política de certificação dos trabalhadores que pretendem ingressar e se manter no setor.
Essa certificação é obrigatória obrigatória para quem lida com investidores ou é especialista em investimentos.
As três principais homologações exigidas desde 2002, CPA-10, CPA-20 e CEA, foram substituídas em 2026 por outras três: CPA, C-Pro R e C-Pro I.
As novas provas começaram em 19 de fevereiro, após adiamento por conta do grande volume de testes do antigo modelo realizados em dezembro. Até 31 de março, segundo dados da Anbima, o número de exames aplicados foi de 4.746, sendo 3.795 apenas na certificação CPA.
A taxa de aprovação, considerando os três novos certificados, ficou em 58% —acima da média de 2025 com as certificações antigas, de 50%.
As novas provas têm 2h30 de duração, uma hora a menos do anteriormente exigido para a prova da CEA.
A mudança foi gestada para dar conta da complexidade dos produtos financeiros disponíveis hoje no mercado, cenário muito distinto do que existia no começo do século, e da popularização das plataformas pessoais e dos apps de investimentos.
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Certificação |
Exames aplicados até 31 de março |
Taxa de aprovação |
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CPA |
3.795 |
50% |
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C-Pro R |
319 |
62% |
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C-Pro I |
138 |
51% |
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Total |
4.746 |
58% |
Fonte: Anbima
Pretende-se agora também avaliar as habilidades comportamentais do ingressante, sua capacidade de entender as principais demandas do cliente e de se relacionar com ele de maneira conforme.
As provas, antes exclusivamente compostas de questões de múltipla escolha, passam agora a também exigir respostas discursivas e a conter estudos de caso e estruturas de árvore de escolha, abrindo caminhos dirigidos de acordo com uma seleção prévia do candidato.
Elas ainda deixam de exigir um conhecimento acumulado, como era o caso da prova para a certificação CEA, circunscrevendo-se àquilo que é realmente necessário para a certificação desejada.
Segundo a entidade, até 31 de dezembro de 2025, 434 mil pessoas possuíam os antigos certificados, que puderam ser revalidados. Do volume total de certificações, 85% referem-se às mais básicas CPA-10 e CPA-20, concedidas quase equitativamente.
Não há diferença percentual no gênero do profissional certificado, e São Paulo, com cerca de 15% dos homologados, e Rio, com 5,64%, são as cidades que mais se destacam.
A mudança, como era de esperar, chacoalhou o mercado de cursinhos preparatórios para esse segmento, pelo qual passam mais de 80% dos candidatos –apenas 17% deles se preparam de maneira autônoma para os exames, segundo a Anbima, que lançou recentemente uma plataforma de estudos online gratuita, a Anbima Edu.
A taxa de aprovação, contudo, é parecida: 48% para os autônomos, 51% para quem opta pelos cursinhos. Para Kleber Stumpf, CEO da TopInvest, um desses cursinhos, as mudanças são bem-vindas.
“Elas são bastante aderentes ao mercado e passam a explorar aspectos básicos da atividade, o relacionamento com o cliente e o entendimento de investimentos”, diz.
Para Stumpf, há também mais justeza no novo modelo: “Se antes os candidatos decoravam o que iria cair na prova, o que poderia ter reflexos mais à frente, na performance do profissional, agora deverá premiar quem estuda de verdade, quem se prepara”.
Tiago Feitosa, da T2 Educação, disse à Folha que remodelou completamente o material dos seus cursos em razão do novo modelo de provas. Ele elogia a Anbima por ter ouvido os cursinhos ao longo do processo e divulgado a metodologia da confecção das novas questões.
Para ele, as avaliações estavam distantes do “dia a dia” dos profissionais, algo que tende a mudar agora.
“Como o aluno podia, e ainda pode, refazer a prova caso fosse reprovado, ele ia lá, fazia um simulado e, mesmo diante de novas questões, acabava passando”.
Ainda que o empresário considere positivo o advento da plataforma educacional da Anbima, ele justifica seu “peixe” ao entregar ao candidato “curadoria e organização” do conhecimento que será avaliado nas provas.
Rafael Toro, da “academia de finanças” que leva seu nome, também enxerga a mudança como positiva, e com o condão de melhorar a qualificação do profissional.
“Era muito comum que o candidato fosse aprovado por ter decorado as questões, mas aí, na hora da entrevista de emprego, não conseguia ser contratado. Às vezes, ele não tinha condições de entender os movimentos da economia, a relação, por exemplo, entre taxa de juros, câmbio e inflação.”
Marcelo Billi, superintendente de sustentabilidade, inovação e educação da Anbima, vê o novo modelo em linha com a melhor prática internacional e afeto a avaliar profissionais mais completos, especialmente em relação às habilidades comportamentais.
Mas, diferentemente do que entendem alguns fundadores de cursinhos ouvidos pela reportagem, Billi não crê que o velho modelo certificava profissionais com deficiências técnicas.
A necessidade de atualização anual para a manutenção do certificado supre, no seu entendimento, esse possível déficit técnico.
Quanto à dinâmica de ajuste das provas, visando seu aprimoramento, ele diz que o modelo permite indicar as questões que se mostram mais fáceis ou mais difíceis, suprimindo-as ou alterando-as, se for o caso, imediatamente. Uma possibilidade, ele diz, vigente também no modelo que sai de cena.