Filha do icônico sitarista Ravi Shankar, a artista britânica Anoushka Shankar vem, assim como seu pai, desafiando a hegemonia do ocidente na indústria musical desde os anos 1990, quando começou sua carreira. Em 2006, ela se tornou a primeira musicista de ascendência indiana a se apresentar na cerimônia do Grammy.
Vinte anos depois, a artista quebrou mais uma barreira em sua carreira, fazendo sua primeira turnê pela América Latina. Depois de passar por Curitiba e Porto Alegre, Shankar encerra sua passagem pelo Brasil nesta quarta (25) com um show no Cine Joia, antes de seguir para Buenos Aires e Santiago.
Apesar de estar no país para se apresentar pela primeira vez, Shankar diz à Folha que já esteve no Brasil, no final dos anos 1990, quando curtiu férias em Salvador. “Desde então, ouvi muito Gil, Caetano, Maria Bethânia“, fala a musicista. “Eu amo a cultura brasileira há muito tempo, então estava muito ansiosa para me apresentar aqui.”
Quando Anoushka nasceu, em 1981, seu pai já era uma estrela internacional da música. Mestre do sitar, um instrumento de cordas tipicamente indiano, parente do alaúde, Ravi passou a se apresentar nos Estados Unidos e Europa a partir da década de 1960, onde chamou a atenção de diversos músicos ocidentais – em especial, do ex-Beatle George Harrison. Juntos, eles gravaram em 1971 o disco “The Concert for Bangladesh”, que ganhou o Grammy de Álbum do Ano em 1973.
Como resultado das viagens internacionais de seu pai, Anoushka cresceu entre Londres, Delhi e Los Angeles. “Além de ter sido criada em diferentes continentes, meus pais também vieram de origens diferentes, porque a Índia é mais um continente do que um país”, fala Shankar. Sua mãe é de origem tâmil e, seu pai, bengali. “Eu sentia que pertencia a vários lugares, mas também sempre me senti de fora. E, quando comecei a compor, tudo isso apareceu na minha música.”
Shankar aprendeu a tocar o sitar desde criança, mas demorou para que ela achasse seu próprio caminho na música. Nos primeiros anos, focou em fazer turnês e gravar álbuns tocando música clássica indiana. Foi só em 2005, com o disco “Rise”, que a artista passou a trilhar um caminho particular na música. Mesclando o som de seu sitar com jazz, pop e música ambiente, “Rise” foi o pontapé inicial para que Anoushka se desvinculasse da fama de seu pai.
“Eu sempre me senti conectada a culturas muito antigas por meio da música que aprendi com meu pai e das culturas artísticas ao meu redor”, fala a artista. “Mas eu também fazia muito parte do mundo moderno, ouvindo muita, muita música contemporânea quando era jovem. Sinto que tanto as geografias quanto os períodos de tempo meio que se misturaram na minha música.”
A partir dos anos 2000, Shankar colaborou com músicos de diversas origens musicais – como as irmãs francesas Ibeyi, de ascendência afro-cubana; o cantor americano Lenny Kravitz e o produtor de música eletrônica britânico Gold Panda. Recentemente, a artista fez uma aparição em algumas faixas do novo álbum do duo Gorillaz, “The Mountain”, que foi fortemente influenciado por música clássica indiana.
Na turnê sul-americana, o repertório de Shankar é composto, principalmente, pelos três mini-álbuns que a musicista lançou nos últimos três anos, “Forever, for Now”, “How Dark It Is Before Dawn” e “We Return to Light”. “É música sobre dor, sobre cura e sobre alegria. Por isso, há uma expressão emocional realmente dinâmica e ampla ao longo do espetáculo no palco, com a minha banda incrível”, fala a artista. “Acho que as pessoas não têm a oportunidade de ouvir o sitar com tanta frequência, e nós somos uma banda bem incomum de músicos, com a qual acredito que as pessoas daqui vão se conectar bastante.”
Em sua terceira década de carreira, Anoushka conta que ainda se frustra com a falta de reconhecimento da música oriental por parte da indústria da música, que insiste em classificar tudo o que não sai de países norte-americanos e europeus como “música global”. Mas ela garante focar seus esforços em impactar o máximo de pessoas possível, “como meu pai fez”.
“Existem certas pessoas que impactam a música e a cultura de uma forma que transcende o normal, e até mesmo o que consideramos sucesso”, fala a musicista. “O impacto e legado dele vai além do que consideramos um músico bem-sucedido – por ter sido, para tantas gerações, o primeiro contato das pessoas com um certo tipo de música e toda uma cultura.”