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Apoio hesitante à guerra causa atritos entre Europa e EUA – 04/03/2026 – Mundo

by Silas Câmara

“A posição do governo da Espanha se resume em três palavras: Não à guerra”, afirmou nesta quarta-feira (4) o primeiro-ministro Pedro Sánchez, em uma fala que dá a dimensão do atrito entre alguns países da Europa e os Estados Unidos desde o início da guerra no Irã.

A declaração do líder socialista ocorre após o presidente americano, Donald Trump, ameaçar suspender o comércio entre as duas nações em retaliação a Madri, que negou à Casa Branca o uso das bases de Rota e Morón para atacar Teerã.

“Não seremos cúmplices de algo que é ruim para o mundo e também contrário aos nossos valores e interesses, simplesmente por medo das represálias de alguém”, acrescentou Sánchez. A postura combativa contrasta com a de seu homólogo britânico, Keir Starmer —que, mesmo assim, não se livrou de atritos com Trump.

Em uma entrevista ao jornal The Sun nesta terça (3), o republicano afirmou que a relação historicamente forte entre Reino Unido e EUA “não é mais como antes”. Os aliados da Segunda Guerra Mundial tem uma cooperação de longa data em defesa e no compartilhamento de informações de inteligência.

“Era a relação mais sólida de todas. E agora temos relações muito fortes com outros países da Europa”, continuou o presidente, elogiando especialmente França e Alemanha, além da aliança ocidental, a Otan, como um todo.

Na segunda (2), o presidente francês, Emmanuel Macron, ordenou o aumento do arsenal nuclear do país. “Para ser livre, é preciso ser temido. E para ser temido, é preciso ser poderoso. Este aumento em nosso arsenal comprova isso”, disse o político.

Após se recusar inicialmente a ter qualquer papel nos ataques, o Starmer anunciou no domingo que permitiria a Washington usar bases militares de seu país para um “propósito defensivo específico e limitado”, mas reafirmou que não participaria “de ações ofensivas no Irã“.

Anteriormente, na segunda, o americano já havia criticado o líder britânico jornal The Daily Telegraph por ter demorado “muito tempo” para liberar a base militar de Diego Garcia, no Oceano Índico, para a Casa Branca.

Horas depois, reiterou suas críticas ao lado do premiê da Alemanha, Friedrich Merz, na Casa Branca, ao afirmar que não estava “lidando com Winston Churchill”. “O Reino Unido tem sido muito, muito pouco cooperativo”, disse Trump.

No mesmo dia, o premiê defendeu no Parlamento sua decisão de manter o Reino Unido afastado dos ataques iniciais contra o Irã. “O presidente Trump manifestou sua discordância com nossa decisão de não nos envolvermos nos ataques iniciais, mas é meu dever julgar o que atende ao interesse nacional do Reino Unido.”

Starmer voltou a defender sua decisão aos legisladores nesta quarta. “Aviões britânicos estão abatendo drones e mísseis para proteger vidas americanas no Oriente Médio a partir de nossas bases conjuntas”, afirmou.

Primeiro premiê trabalhista do Reino Unido em 14 anos, Starmer tenta adotar uma postura pragmática em relação ao seu partido e à opinião pública, que tende a ver com cautela o envolvimento com guerras no Oriente Médio após o alinhamento total de Tony Blair à invasão do Iraque pelos EUA, em 2003.

A intervenção do início dos anos 2000 também respingou na retórica de Sánchez. Ao falar “Não à guerra”, o premiê recorreu às palavras de ordem das manifestações espanholas contra a invasão do Iraque, na qual o então governo do conservador José María Aznar se alinhou ativamente aos EUA.

Muitos espanhóis culparam esse envolvimento pelos atentados terroristas de março de 2004. Mais de 190 pessoas morreram nos ataques, apontados como uma das causas para os socialistas terem chegado ao poder pouco depois. Agora, a posição de Sánchez agrada ao seu eleitorado de esquerda às vésperas das eleições e em um momento em que o entorno do premiê é afetado por vários escândalos de corrupção.

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