Antes de Pelé, Garrincha, Leônidas da Silva ou Didi, o Brasil teve um outro ídolo incontestável no futebol. Ele se chamava Arthur Friedenreich (1892-1969) e foi a grande estrela do período de amadorismo no esporte, antes de 1933. Atuava de centroavante, mas podia ficar em qualquer posição no ataque ou mais recuado para distribuir o jogo. Era magro, pesava 67 kg, tinha garra e uma agilidade incrível, media 1,70 m de altura e se mostrava implacável diante do gol.
Filho do comerciante Oscar Friedenreich, descendente de alemães e oriundo de Blumenau (SC), e da professora brasileira preta Mathilde Silva, o craque teve sua trajetória marcada pela origem mestiça. O nome germânico, os olhos verdes e o enorme talento lhe abriam portas, mas não o livravam do preconceito nos clubes elitistas da época. A fim de esconder sua ascendência, besuntava o cabelo de gomalina para alisá-lo e entrar em campo.
Em seu livro “O Negro no Futebol Brasileiro”, o jornalista Mário Filho diz que o craque tentava esconder sua origem a todo custo e “passava meia hora de toalha amarrada na cabeça para amansar o cabelo duro, rebelde, ‘não nega'”.
Friedenreich fez quase toda sua carreira na capital paulista, jogando em equipes como Germânia, Mackenzie, Ypiranga, Paulistano e São Paulo. Um dos palcos que frequentou assiduamente foi o antigo campo de futebol do Velódromo Paulistano, que funcionou até 1916 na região da praça Roosevelt, no bairro Consolação.
Notabilizou-se pelos passes precisos e pelos chutes e cabeceios perfeitos e, obviamente, pela grande quantidade de gols. Além do mais, não era individualista e, de acordo com os cronistas da época, se visse um companheiro bem colocado, passava a bola. Dizia que nunca havia perdido um pênalti.
Em depoimento para a Folha da Noite, em 1934, o também jogador Sylvio Lagreca disse que Friedenreich “possuía o predicado que dificilmente se encontra nos futebolistas: jogava mais com a inteligência do que propriamente com os pés e daí adaptar-se a todas as posições em que era colocado sem dizer palavra”.
Colecionou títulos, jogou na seleção brasileira, pela qual fez 11 gols, mas nunca foi à Copa do Mundo por problemas políticos. A equipe que disputou o campeonato no Uruguai, em 1930, só contava com jogadores do Rio de Janeiro, com exceção de Araken Patusca.
O time em que jogou mais tempo foi o Paulistano, pelo qual foi sete vezes campeão do estado. Com a camisa do clube conquistou a Copa dos Campeões em 1920 e foi protagonista da primeira viagem de uma equipe brasileira à Europa em 1925, marcando 11 gols.
Com a seleção paulista, Friedenreich foi campeão brasileiro em 1920, 1922, 1923 e 1926. Saiu dos seus pés também o primeiro gol do futebol profissional, em 12 de março de 1933, num jogo em que o São Paulo ganhou do Santos por 5 a 1.
Em 1919, na final do Campeonato Sul-Americano, marcou o gol do título na segunda prorrogação e recebeu o apelido de “El Tigre” dos adversários uruguaios, espantados com a qualidade de seu futebol e com sua determinação.
Uma das lendas que cercam a história do craque foi seu número de gols. Dizia-se que tinha feito mais gols do que Pelé. No livro “O Tigre do Futebol”, do jornalista Alexandre da Costa, que se sustentou em depoimentos de um grande amigo de Friedenreich, Geraldo Lunardelli, consta que ele teria feito 1.329 gols, mais do que os 1.283 de Pelé.
Outro biógrafo do jogador, Luiz Carlos Duarte, considerando apenas os jogos oficiais, contabilizou 595 gols em 605 jogos, com uma média de 0,98 gols por partida. É essa estatística que prevalece atualmente.
Friedenreich encerrou sua carreira no Flamengo em 1935, quando tinha 43 anos. Ele se opunha ao profissionalismo do esporte. Depois de se aposentar no futebol tornou-se representante comercial da Companhia Antarctica Paulista. Hoje seu nome batiza um centro esportivo no bairro Vila Alpina, em São Paulo, e uma escola ao lado do estádio do Maracanã, no Rio.
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