“As feias inventaram o feminismo.” Ouvi essa frase num vídeo, dita por uma mulher com a certeza de quem se orgulha da própria estupidez. Já senti pena ao dar de cara com esse tipo de conteúdo, mas o que sinto, depois de anos em que esses clichês se repetem, é só desprezo. Fica claro que tamanha idiotice tem utilidade política e marca uma disputa de espaço.
Se viesse de um red pill, já seria constrangedor, mas faz parte do repertório de um movimento que transforma frustração em ideologia e apela para algo como hierarquia de gênero como se fosse da “natureza”. Na boca de uma mulher, a frase ganha uma camada extra de eficiência, porque soa como depoimento interno, um “eu posso falar” que ajuda a normalizar o deboche e, de quebra, empurrar a autonomia feminina para a prateleira do ridículo, como se o desejo por direitos tivesse relação com o espelho, e não, muitas vezes, com uma questão de sobrevivência.
Quando mulheres que pregam submissão e obediência tentam reduzir o feminismo a defeito estético, não querem apenas ofender. Tentam reorganizar o tabuleiro. Querem restaurar a velha ordem em que mulher “boa” é a que agrada, aceita, acolhe, se adapta, não tensiona a relação e jamais contesta o tratamento que recebe como cidadã de segunda categoria.
A caricatura da “mulher feia” é conhecida e, por isso mesmo, eficiente. De um lado, a feminista aparece como amarga, ressentida, masculinizada, mal-amada, aquela que “não conseguiu homem” e resolveu transformar o “fracasso” em movimento político. Do outro, surge a mulher “certa”: feminina, bonita, dócil, serena, desejável, bem penteada e em paz com o próprio “destino”.
A fraude começa quando esse discurso finge que feministas são um tipo específico de mulher, uma tribo esteticamente reconhecível, uma espécie à parte. Não são. Se casam, têm filhos, criam família, vão à academia, fazem a unha, gostam de receber amigos em casa e arrumam mesas lindas. Ou não fazem nada disso, porque não querem, e está tudo certo também.
São bonitas, feias —do ponto de vista de quem?— gostosas, discretas, extravagantes, magras, gordas, vaidosas, básicas, de salto, de tênis, de batom ou de cara lavada. Há as que sonham com casamento e as que definiram como meta viajar sozinhas pelo mundo. Muitas vezes as duas coisas convivem na mesma mulher. Porque feminismo não é figurino. É a recusa em aceitar que o valor feminino dependa do quanto uma mulher serve, seduz ou obedece.
Vou resumir minha teoria: o red pill fala para homens; a tradwife, a esposa troféu, fala para mulheres. Os dois entregam a mesma mercadoria: hierarquia. Um a vende no grito, no ressentimento e na ameaça. A outra, de modo dócil, com “vida simples”, rotina impecável e estética de esposa perfeita. E, quando a hierarquia vem em embalagem bonita, passa mais facilmente como escolha pessoal, paz doméstica, feminilidade recuperada.
O red pill ensina homens a temerem mulheres autônomas e a desejar as que aceitam liderança masculina como fato biológico. A esposa tradicional oferece a versão açucarada da mesma tese: pare de competir, pare de exigir, pare de querer tanto, pare de chamar independência de virtude, só assim será feliz. Um rosna, o outro sussurra, mas ambos trabalham para o mesmo RH da misoginia.
A ironia, aqui, é das boas: muita gente que diz para mulheres abandonarem a vida profissional profissionalizou esse discurso com um baita empenho. É conteúdo diário, publi, link, curso, comunidade paga. A submissão virou mercado, e mercado precisa de marketing, narrativa, estética, recorrência e, claro, concorrência. De um lado, eu, com meus valores tradicionais, minhas qualidades estéticas, dentro do padrão. Do outro, as feministas: loucas, barulhentas, feias.
E é aí que entra o algoritmo, que não radicaliza ninguém aos berros logo de cara. Ele faz isso por sedução e repetição. Você entra por um conteúdo aparentemente inofensivo, uma receita de bolo, uma rotina organizada, uma estética superacolhedora, uma ideia de ordem, beleza, tranquilidade e felicidade. E, aos poucos, junto com a decoração, o pão caseiro e a mesa posta, vai chegando uma visão de mundo.
Primeiro, a exaltação da feminilidade “verdadeira”. Depois, a crítica às mulheres independentes. Em seguida, a ideia de que homem bom é homem que manda. Quando você percebe, já não consome só conteúdo doméstico, mas um pacote ideológico inteiro, no qual autonomia feminina aparece como erro e obediência reaparece como virtude.
No fundo, o problema não é a suposta feiura das feministas, essa bobagem de quinta série. O que incomoda é que o movimento produz mulheres menos domesticáveis, que entenderam que agradar homem nenhum deveria ser projeto político de vida. Por isso a necessidade constante de desqualificá-las não apenas como adversárias ideológicas, mas como mulheres. Não basta discordar delas. É preciso insinuar que há algo de errado com seu rosto, seu corpo, sua sexualidade. A punição, como quase sempre, vem pelo velho tribunal da aparência.
A frase sobre as feias não revela nada sobre o feminismo. Revela, isso sim, o pânico de quem percebeu que já não basta ser bonita para garantir poder, nem ser obediente para garantir proteção, nem posar de delicada para escapar do desprezo. O feminismo nunca foi um clube de mulheres feias. Foi, e continua sendo, a reação das que estão fartas de servir de moldura, prêmio, enfeite, silêncio, propriedade. E talvez seja exatamente isso o que tanta gente considere imperdoável.