Após três décadas de sua saída dos Engenheiros do Hawaii, o guitarrista Augusto Licks volta aos palcos para um reencontro com os fãs da banda gaúcha. O único show em São Paulo será nesta sexta-feira (6), no Carioca Club, mas há apresentações previstas em outras capitais.
Licks integrou os Engenheiros de 1987 a 1993 e participou da formação mais estável da banda que ficou conhecida como GLM, em referência aos sobrenomes de seus três integrantes: Humberto Gessinger (baixo e vocal), Licks e Carlos Maltz (bateria). Juntos gravaram dezenas de sucessos como “Infinita Highway”, “O Papa é Pop” e “Pra Ser Sincero”.
Essas e outras músicas da banda estarão no repertório da turnê “Augusto Licks & Engenheiros” que começa pela capital paulista. Mas, embora Licks tenha sido um dos Engenheiros, ele afirma que não pretende representar a banda. Os Engenheiros do Hawaii encerraram as atividades em 2008.
Licks disse que apresentará ao público paulistano algumas canções inéditas que ele ainda pretende gravar em estúdio. No entanto, a principal novidade do show serão os novos arranjos das antigas composições.
“Tem certas canções que eu acho que não podem faltar num show de um determinado público. Elas têm uma história, têm um significado, têm quase um simbolismo. Com certeza terei mais liberdade para tocar porque o show é meu, está no meu nome”, afirmou Licks à Folha.
Mas o guitarrista afirmou que não pretende fazer o show sozinho. Além dos músicos que o acompanham, ele conta com a participação dos fãs dos Engenheiros do Hawaii. Ao longo de 30 anos de existência, a banda gravou mais de 20 álbuns, entre gravações de estúdio, ao vivo e coletâneas, e vendeu mais de três milhões de discos.
“O público faz junto o show. Não como num teatro que a gente toca e a plateia fica sentada, assistindo e observando. Ali [no show] o povo vai estar de pé, cantando junto. É uma cumplicidade automática”, disse.
Outra novidade do show é a participação da baterista Ananda Torres. “Eu não faço discussão de gênero, pois eu sempre considero a pessoa, mas eu gosto muito da ideia de ter um olhar feminino nas coisas”, comenta. Para completar o trio no show, o baixo ficará por conta do multi-instrumentista Sandro Trindade.
Segundo Licks, foi Trindade quem o intimou a retomar os shows no início de 2024. Trindade estava em parte movido pelas apresentações com a formação original de bandas do rock nacional como Titãs e Legião Urbana e queria reunir a formação mais longeva dos Engenheiros, o GLM. Porém, Gessinger não aceitou, segundo Licks. Mas Maltz topou e marcaram um primeiro ensaio.
“O Humberto [Gessinger] não quis nem conversar. Mas isso não nos impediu de nos reunir. Foi emocionante a gente se reencontrar no primeiro ensaio lá em Porto Alegre. A gente se abraçou e contou ‘três, quatro’ e mandamos ver”, afirma Licks.
O guitarrista lembra que a primeira apresentação foi um show rigorosamente dos Engenheiros do Hawaii, apenas sem Gessinger, que atualmente detém a marca da banda. “O Humberto [Gessinger] estava junto nas composições, em alguns arranjos, só não estava em pessoa”, diz Licks.
Os shows com Licks, Trindade e Maltz rodaram o país e terminaram em dezembro de 2024 por questões de logística. Agora, em nova formação, o guitarrista volta aos palcos com Ananda Torres na bateria, substituindo Maltz.
“Eu me sinto um privilegiado [por continuar tocando]. Seja o que acontecer daqui pra frente, eu sou grato por tudo que aconteceu e, claro, estou muito ansioso pelo show de São Paulo”, afirma.
A ansiedade se justifica porque, após a saída dos Engenheiros em 1993, o guitarrista ficou quase três décadas longe do show business. “A minha saída da banda foi bastante traumática. Eu precisei de muito tempo para me reestruturar pessoalmente”, lembra.
Na retomada ao trabalho, fez composições para teatro e cinema, participações em workshops e apresentações em duetos. Seus trabalhos recentes incluem o recital instrumental de violão Cenéticas, o duo de canções Transz it com Edu Prestes, e também o duo instrumental Licks Blues, ao lado de seu irmão José Rogério, que o ensinou a tocar e reside na Alemanha.
Sobre a saída dos Engenheiros em 1993, Licks diz que o que sabe é que foi uma decisão de Gessinger, mas o que não sabe é o motivo. “Mas a verdade é a seguinte. Por quê? Por que eu fui tirado da banda? Isso nunca foi informado, nunca foi revelado”, diz.
Apesar da saída que ele mesmo considerou traumática, Licks diz que certamente a música sobreviveu às diferenças.
“[O reencontro com Maltz] foi uma coisa muito bonita, até porque tá todo mundo já na terceira idade. Hoje nós temos a oportunidade de ter na vida uma dose de epifania que, quando a gente era jovem, a gente não poderia ter. A música sobreviveu às diferenças, com certeza”, diz.