A inteligência artificial vem sendo tratada como uma das principais forças de transformação nos negócios globais e já começa a influenciar também decisões no topo das grandes empresas.
Se num primeiro momento o debate se concentrava no risco de automação de empregos, agora a tecnologia passa a pesar na sucessão de executivos. Em alguns casos recentes, CEOs de multinacionais associaram suas saídas à necessidade de lideranças mais alinhadas à nova fase tecnológica.
Na Coca-Cola, o executivo James Quincey deixou o comando em março após nove anos à frente da empresa. Ele afirmou, em entrevista à CNBC, que a decisão esteve ligada à necessidade de preparar a companhia para um novo ciclo, marcado pela inteligência artificial.
“Meu trabalho também é pensar em qual é a melhor equipe para colocar em campo para concretizar a próxima fase do negócio”, disse Quincey. “E cheguei à conclusão de que, na verdade, era hora de colocar outra pessoa em campo para a próxima fase de crescimento.”
Quincey deu lugar ao antes diretor global de operações da empresa, o brasileiro Henrique Braun. O ex-CEO destacou que, embora a empresa tenha avançado em diversos aspectos antes da popularização da IA, o cenário atual representa uma ruptura mais profunda. Ele classificou Braun como “alguém com a energia necessária para buscar uma transformação completamente nova da empresa”.
Engenheiro agrônomo formado pela UFRRJ (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro), Braun acumulou experiências em diversas áreas da Coca-Cola ao longo de três décadas, incluindo operações, marketing, inovação, cadeia de suprimentos e gestão de engarrafadores.
Movimento semelhante ocorreu no Walmart. O então CEO Doug McMillon afirmou, antes de deixar o posto, que a velocidade das mudanças trazidas pela IA influenciou sua decisão de antecipar a sucessão.
“Com o que está acontecendo com a IA, eu poderia iniciar o próximo grande conjunto de transformações com IA, mas não conseguiria terminar”, disse McMillon em entrevista à CNBC. “Há cerca de um ano, comecei a sentir que, nesta próxima fase, seria possível vislumbrar como seria o comércio automatizado, a visão para as compras com IA, e comecei a pensar em tudo o que precisa acontecer nos próximos anos, e isso realmente me fez pensar que agora era o momento certo [para me afastar]”.
Rafael Steinhauser, ex-CEO da Qualcomm para a América Latina, afirma que a questão já faz parte da rotina de decisões de conselhos de administração de grandes empresas.
“Veremos executivos que conseguirão fazer essa transição rapidamente e outros que não. Por isso, é provável uma forte rotação geracional, com novas equipes formadas tanto por executivos experientes com alta adaptabilidade quanto por gestores mais jovens, que já navegam bem nessa nova cultura de IA. O mesmo deve ocorrer nos conselhos de administração, que também têm essa demanda”, disse ele à Folha.
Steinhauser é cofundador da Wabee, empresa focada em IA agêntica para marketing, ferramenta que entende o contexto, toma decisões e age de forma proativa com base nos comandos do usuário.
“Como em qualquer transformação empresarial, a IA requer que os executivos acompanhem ou até liderem esse movimento. Em geral, o C-level tem uma idade mais elevada do que a média e, portanto, mudanças radicais na forma de trabalho, aliadas ao domínio de novas tecnologias, não são triviais de assimilar”, disse.
Já Hernan Kazah, cofundador da Kaszek Ventures e do Mercado Livre, avalia que ainda não há uma substituição forçada de executivos por causa da IA, mas sim uma corrida das empresas para não repetir erros do passado.
“Na época da internet, muitas empresas não falharam por falta de informação, mas por não agir com velocidade e convicção suficientes. Elas viram a disrupção, mas subestimaram”, diz Kazah. “Hoje, as empresas tradicionais não querem repetir esse erro. E o mais interessante é que os grandes disruptores do passado —Google, Amazon, Meta, Microsoft, Apple— hoje estão investindo muito agressivamente em IA justamente para não virar o ‘lado perdedor’ da história.”