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Avanço do crime nos leva para a várzea, prevê ex-Febraban – 08/03/2026 – Economia

by Silas Câmara

A experiência no setor financeiro —tendo ocupado a presidência de bancos como ABN Amro Real e Santander Brasil, além da Febraban (Federação Brasileira de Bancos)— leva Fábio Barbosa a prever que o escândalo do Master entrará no debate público sobre as eleições deste ano.

Para o empresário, hoje, os dois temas mais sensíveis para a sociedade são a segurança pública e a corrupção, que ele prefere chamar de roubalheira, palavra que considera mais direta e compreensível.

“A sociedade não está apática. Ela está indignada, revoltada e não sabe bem como se expressar”, diz Barbosa, que hoje é presidente do conselho de administração da Natura e também participa de conselhos de outras companhias, como a Ambev.

Na semana passada, ele discursou no evento realizado na Faculdade de Direito da USP, no Largo São Francisco, em apoio à criação de um código de conduta para o STF (Supremo Tribunal Federal). O movimento, chamado Ninguém Acima da Lei, já havia divulgado um manifesto no fim do ano passado, quando foi tornado público o pagamento de R$ 3,6 milhões mensais do banco de Daniel Vorcaro para o escritório da família do ministro Alexandre de Moraes, além de medidas de Dias Toffoli que abalaram a reputação da corte.

Barbosa destaca sua preocupação com a infiltração do crime organizado em diferentes setores da economia formal, , por considerar que a sociedade passa a ser refém de um um tipo de administração que não é boa para ninguém. “Nós todos aqui somos treinados para jogar um jogo limpo. Eu digo que somos treinados para jogar no Maracanã. O crime organizado nos leva para a várzea. E na várzea, a gente não sabe jogar”, diz.

Questionado sobre a ineficácia da regulação e da fiscalização que favoreceu as fraudes do Master, Barbosa ainda evita culpar CVM (Comissão de Valores Mobiliários) ou Banco Central.

“Primeiro, vamos focar o Banco Master e quem ele cooptou. Depois vamos ver exatamente onde falhou o sistema de ‘checks and balances’ [freios e contrapesos]”, diz.

O que o empresariado espera nas eleições deste ano? É time Lula versus time Bolsonaro de novo? E quais temas terão mais espaço no debate? O que eu tenho visto, não só no empresariado, mas em movimentos da sociedade civil, é que se busca uma alternativa. O voto de parte grande da população não está definido por nenhum dos dois lados e pode mudar dependendo do candidato que aparecer.

Apesar das pesquisas que temos visto [com Lula e Flávio Bolsonaro à frente], ainda não é jogo jogado. Ainda será lançado um candidato do PSD, a ser decidido entre os governadores Eduardo Leite [RS], Ratinho Jr. [PR] e Ronaldo Caiado [GO], que certamente será alternativa para boa parte dos eleitores.

Chega de eleição que se define a favor de quem tem menos rejeição. Temos agora a chance de votar a favor [de alguém]. De um candidato íntegro e com experiência administrativa, com visão moderna liberal, que nos recoloque em ritmo de crescimento.

Estamos em um momento em que há espaço para propostas que podem trazer prosperidade.


Não há mais expectativas pelo governador de SP, Tarcísio de Freitas, que era visto como queridinho do empresariado? A leitura no mercado é que ele se aliou bastante a Bolsonaro, portanto, na hora que Jair Bolsonaro lançou o nome do Flávio, tomou o espaço do Tarcísio.

Mas há um espaço de 30% ou 40% dos votos que não estão tão definidos assim. Uma alternativa pode ser construída. E precisa falar do plano econômico, mas sobretudo precisa ter uma boa chamada popular. Não adianta o candidato ficar falando de déficit fiscal ou de choque de gestão, porque a população, o eleitor, não entende. É preciso comunicar alguma coisa que traga para a população um entendimento da proposta.

E o tema mais sensível nesse ano é segurança pública? Tem alguns temas. Segurança pública, sem dúvida, é um que está preocupando muito, além da corrupção. Aliás, eu sempre digo que esse debate contra a corrupção precisa ser mais bem trabalhado. O tema certo é roubalheira. Não é todo mundo que entende a palavra corrupção. É até difícil entender o que isso quer dizer exatamente. Tem um cansaço da sociedade com as fraudes que aparecem a todo instante, ora no setor privado, ora no público.

[Na campanha de 2026], a esquerda vai falar muito em democracia e soberania, mas acho que os dois temas centrais são aqueles, especialmente a questão da segurança. E são temas que a esquerda não trabalha muito bem e que a direita radical também trabalha de um modo que não é aceito por todo o espectro.

E o escândalo do Master? Esse assunto deve ganhar relevância na eleição? Dizem que tem muita gente arrepiada com isso em Brasília, não? Muitas pessoas têm receio do que pode vir à tona. Então, sim, vai ser um fator eleitoral. Tenho a impressão de que vai pegar gente de todos os lados. E acho ótimo. Sou sempre a favor de luz acesa, transparência. Que apareçam os desvios e quem estava envolvido, independentemente da orientação política.

O Banco Master é um horror, mas tem um aspecto positivo: chegou a um ponto irreversível em que as coisas virão à tona. Foi longe demais. Eu aposto que não vai acabar em pizza. Isso vai acabar em alguma mudança, seja na questão de transparência por parte do Judiciário seja no mundo político ou no setor privado. A vontade de esconder é tão grande, que deve ter alguma coisa muito feia lá por baixo. Mas a mídia tem feito um trabalho excelente e não deixa esse assunto morrer.

O sr. fez parte de um manifesto no fim de 2025 apoiando a criação de um código de conduta para o STF e discursou no evento da São Francisco na semana passada. Como fica o impacto do caso Master na reputação do Supremo? A sociedade vai ter de puxar as rédeas? Isso é uma moção de apoio a uma iniciativa que surgiu do próprio ministro Edson Fachin, presidente do STF, ao falar do código de conduta.

A ideia é simplesmente ter transparência. Ninguém aqui está julgando se houve desvio de conduta por qualquer um que seja. Isso é um assunto a ser julgado por quem de direito. O que estamos dizendo é: por que não aceitar um código que dê transparência àquilo que é feito e balize o comportamento? As empresas e vários países têm.

Estamos apoiando alguns ministros dos tribunais superiores, não só do Supremo, que querem isso e entendem que isso é bom para o Judiciário, que vai dar credibilidade. Por que não fazer? Não tem nenhum ponto negativo em fazer.

Fizemos um movimento reforçando isso. E foi essa a minha posição: nós voltaremos a esse assunto até que ele seja implementado. Outro ponto que eu tenho dito é: a sociedade não está apática. Ela está indignada, revoltada e não sabe bem como se expressar. O que estamos buscando através desses manifestos é: sem entrar em méritos jurídicos, queremos mobilizar a sociedade. Os tribunais superiores, não só o Supremo, têm de ser um exemplo de comportamento, virtude e excelência.


A incapacidade da CVM de levantar os alertas também ficou clara nesse processo? Como se vai evitar que surja um novo Vorcaro? Tem dois órgãos que supervisionam isso, o Banco Central e a CVM. Mas a CVM está sem quadros para fazer o trabalho que lhe compete. Falta gente, renovação de quadros, contratação, a própria diretoria não está composta como tem de estar. O Banco Central tem mais independência e tem os quadros formados. Também está ficando complicado, mas em todo caso, tem mais.

Agora, tem que olhar qual foi o papel de algumas pessoas de dentro do BC nessa tolerância que deixou o caso ficar tão grande. Mas eu não quero jogar a culpa no BC nem na CVM. A culpa é do Master, que usou as fragilidades para se beneficiar e criar um sistema que envolveu muita gente, que nós ainda vamos saber. A mídia está atrás disso para saber quem mais está envolvido.

Primeiro, vamos focar o Banco Master e quem ele cooptou. Depois vamos ver exatamente onde falhou o sistema de ‘checks and balances’.

O assunto Donald Trump, que já deu dor de cabeça com as tarifas e agora com guerra, é outro tema que deve ter algum efeito eleitoral? Ele criou um problema [com as tarifas], e Lula aproveitou bem para falar em defesa da soberania. Acho que isso já se acomodou. O Trump é imprevisível, mas acho que o Brasil não é o país que mais está na mira dele.

O problema são os efeitos colaterais. No caso do Irã, o Brasil vai ser prejudicado na exportação de milho, aves, no preço do petróleo. Pode ser que ele venha a interferir em uma ou outra direção, mas lembrando que hoje ele transita bem com Lula e com a família Bolsonaro, pelo que sabemos, então não sei bem que papel ele vai desempenhar.

O nosso assunto não é politica e segurança internacional, porque felizmente estamos longe geograficamente disso, embora tenha reverberações por aqui. Mas no tema da segurança, é PCC, crime organizado, Comando Vermelho, isso sim é problema que, dentro das nossas fronteiras, tem de resolver. Está permeando a política.

Quando se falava em crime organizado no passado, eram as drogas. Hoje, é combustível, mercado financeiro, transporte público. À medida que isso vai crescendo, vamos perdendo o controle, e a sociedade passa a ser refém de um tipo de administração que não é boa para ninguém.

Nós todos aqui somos treinados para jogar um jogo limpo. Eu digo que somos treinados para jogar no Maracanã. O crime organizado nos leva para a várzea. E na várzea, a gente não sabe jogar.

Lembrando que essas grandes operações, que começaram em 2025, como a Carbono Oculto, trouxeram essa questão no caso da Reag, ligada ao Master, não? Temos de tomar um cuidado. O mercado financeiro é correto e ético na sua maior parte. Mas isso vem pelas franjas, por organizações sem tradição, que foram se aproveitando de algumas novas tecnologias e brechas. Mas não vamos contaminar o mercado financeiro como um todo.


RAIO-X | FÁBIO COLLETTI BARBOSA, 71

1954, São Paulo

Formado em administração pela FGV, presidiu instituições como Santander e Febraban e hoje segue em conselhos de administração de empresas como Natura e Ambev, além de cargos em conselhos de entidades como UN Foundation e Unicef.

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