Sinto muito, mas serei obrigada a seguir falando sobre Bad Bunny. É que pelo segundo domingo consecutivo, o artista porto-riquenho, fez história. Depois de subir ao palco da cerimônia de premiação do Grammy na semana passada e se tornar o primeiro artista latino a conquistar o prêmio de Álbum do Ano, Benito Antonio Martinez Ocasio, fez história novamente ao se apresentar no halftime do Super Bowl.
Durante os treze minutos de sua apresentação repleta de simbolismos, Bad Bunny fez inúmeras referências à cultura de seu país, recebeu no palco Lady Gaga e Ricky Martin, mostrou o gingado do “perreo” com dezenas de dançarinos de origem latina, celebrou um casamento real de um casal porto-riquenho, interagiu com ícones do cotidiano latino em cidades americanas —como Toñita, dona de um bar no Brooklyn, conhecido como Caribbean Social Club— e teceu críticas ao desamparo governamental ao fazer referência à crise elétrica que o país enfrenta. Mas, talvez mais importante que tudo isso, Benito lembrou ao mundo que América não é um país, mas um continente.
Porém, se você esteve online nos últimos dias, provavelmente já sabe de tudo isso —ou será que foi só a minha timeline que foi totalmente abduzida pelo “Benito Bowl”?
Eu poderia tranquilamente passar a semana toda exaltando o que foi o halftime mais assistido de todos os tempos e sua importância num contexto de repressão violenta à imigrantes por parte do governo Trump. Mas não quero chover no molhado, então seguirei tratando sobre o assunto —sobre o qual estou levemente obcecada— a partir de um outro ângulo.
A câmera mostra Bad Bunny e Ricky Martin confraternizando após o show. Os dois ainda trajavam os figurinos com os quais haviam se apresentado quando se juntaram para tirar uma foto. Ricky olha para frente e sorri para a câmera, Benito, em pé ao seu lado, com o braço por cima de seu ombro, se emociona e se curva nos braços do ídolo que embalou as noites de sua infância e abriu caminho para seus sonhos. Com o rosto encostado no peito de Ricky, Benito dá tapinhas de agradecimento em suas costas. Ricky o conforta, lhe retornando o abraço. Benito então se afasta e lhe olha nos olhos, com as mãos unidas sobre a boca em respeito, em admiração, em gratidão.
A cena me levou às lágrimas. Em tempos de red pills e incels de um lado e esquerdomachos autoproclamados aliados mas que se sentem à vontade para criticar o feminismo, ver uma interação tão honesta e vulnerável entre homens, especialmente entre um homem heterossexual e alguém que diverge da heteronormatividade me fez ter esperança de que uma nova masculinidade já é possível.
Como se não bastasse, Benito seguiu para cumprimentar Lady Gaga, a ídola que se tornou sua amiga. Uma mulher que Benito admira, cujo trabalho ele respeita, cuja amizade ele valoriza.
Essa é a masculinidade que eu quero ver estampada na mídia, ensinada em casa, reforçada na escola, viralizada nas redes sociais, exercida nas ruas. Quero homens conectados com suas emoções, corajosos o suficiente para serem vulneráveis. Quero homens que abracem homens que amam outros homens. Quero homens que lutem por igualdade de gênero e pela defesa de minorias. Quero homens que admiram outras mulheres além daquela que os pariu, que sejam amigos de mulheres, que leiam e ouçam mulheres.
Queremos uma masculinidade que se pareça mais com a humanidade.
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