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Bad Bunny, em SP, convida Brasil a assumir sua latinidade – 20/02/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

Com terno e gravata brancos clássicos, Bad Bunny encerrou o primeiro ato de seu show de estreia no Brasil com a música “Nuevayol”. A canção sampleia uma famosa salsa da ilha caribenha —”Un Verano en Nueva York”, da orquestra El Gran Combo de Puerto Rico, dos anos 1960— e vai se transformando com batidas no estilo dembow.

“Nuevayol” acelera como um carro antigo adentrando as ruas iluminadas da metrópole americana para um verão marginalizado e de excessos conforme um toque acústico de percussão se reveza com um grave eletrônico distorcido. Essa dualidade é a cara da proposta do artista —um choque entre tradição e uma suposta ideia de modernidade, no qual a saída é olhar para as origens para conseguir aproveitar o presente.

Essa abordagem de Bad Bunny, artista mais ouvido do planeta no Spotify, consagrado no último Grammy e vivendo seu auge, ganhou a plateia brasileira, que esgotou os ingressos nesta sexta-feira (20). O porto-riquenho fez seu primeiro show no país no estádio Allianz Parque, em São Paulo, onde volta a se apresentar no sábado (21).

Mas o conceito de tradição para Benito, seu nome de batismo, não é puro nem imaculado. Sua música bebe de estilos antigos de Porto Rico, da vastamente latina salsa à menos conhecida plena, sem soar como mera repetição —ele os usa para criar um pop carregado por batidas de trap e reggaeton que conecta o passado cultural que resiste na ilha com a música que domina o streaming, neste caso não menos latina.

Esse molho Bad Bunny apresentou de cara, na abertura com “La Mudanza”, sob os gritos de fãs ensandecidos com sua presença em São Paulo. Sob uma base de salsa dura, ele cuspiu rimas como um desabafo engasgado em linha com suas origens de rapper e falando sobre o caminho de muitos de seus conterrâneos em direção aos Estados Unidos —país do qual Porto Rico faz parte, mas sem o status de estado, e portanto seus habitantes não têm direito a voto nas eleições.

No show em São Paulo, ele gritou que o destino desta vez era o Brasil, para o delírio da plateia. Mesmo que seu microfone estivesse um tanto baixo no começo, o público já estava gritando que Benito é “gostoso” na primeira música, conforme ele encarava as dezenas de milhares de presentes em pausas calculadas ao lado de uma numerosa banda.

O imperialismo dos EUA sobre Porto Rico e suas consequências permearam apenas como pano de fundo do show, que aconteceu apenas semanas depois de ele enfurecer Donald Trump e sua política contra imigrantes com uma apresentação provocativa no intervalo do Super Bowl. Com exceção de algumas letras, não houve referência explícita ao país mais rico das américas e sua situação atual.

Bad Bunny, apesar de essencialmente político nesta fase da carreira —com o disco “Debí Tirar Más Fotos“, do ano passado, e base da atual turnê—, faz suas batalhas no campo da música pop de massa. É o mesmo espaço em que Madonna travou sua guerra contra a igreja católica e Beyoncé contra o conservadorismo racista e machista, por exemplo.

Já na segunda faixa do show, “Callaíta”, Bad Bunny botou o Allianz Parque para dançar e berrar a letra da música, deixando claro que seu sucesso por aqui não é modinha. Ele disse que não imaginava que tanta gente viria vê-lo no Brasil e um músico de sua banda puxou um trecho de “Garota de Ipanema” antes de “Pitorro de Coco”.

A música que carrega no nome um drinque porto-riquenho feito com rum veio para fazer dançar sob uma levada irresistível de atabaques, contrabaixo acústico e naipe de metais. A banda afiada é um diferencial de Bad Bunny, que no palco de São Paulo se destacou em relação a outros astros pop da atualidade.

Além de sustentar o canto e as rimas com habilidade, ele consegue soar vivo e orgânico como um Bruno Mars, só que sem o ranço retrô. Tem também a potência eletrônica de um The Weeknd, mas sem o exagero plástico e sintético que tiram a profundidade do som.

O trato com o Brasil também foi diferente em relação a outras estrelas que passam por aqui —em especial as do norte do planeta. As vinhetas vieram em português, incluindo citações a diversas comidas típicas do país, do acarajé ao pão de queijo, e cenas regravadas com atores brasileiros.

O próprio Bad Bunny também se arriscou algumas vezes no português. Disse que não achava que tanta gente vinha vê-lo e agradeceu ao público pela recepção calorosa.

Afirmou ainda que o show tratava da união de Brasil com Porto Rico e toda a América Latina, além de ressaltar as coisas sensíveis da vida como dançar, rir e chorar. “Por isso lhes digo que vocês são as únicas pessoas capazes de fazer que esta seja uma que não vamos nunca esquecer”, disse.

Depois de quase uma hora de show Bad Bunny deixou o palco principal para ir até uma casinha rosa apinhada de pessoas do outro lado do estádio. Foi lá que ele cantou cerca de metade do repertório, durante quase outra hora inteira, trajando uma camiseta retrô da seleção brasileira campeã da Copa do Mundo de 1962, com a 10 de Pelé.

Foi o momento de festa e balada que concentrou a parte do repertório mais dedicada ao reggaeton, dembow e ritmos caribenhos que despontaram dos anos 1990 para cá. Isso incluiu músicas como “Me Porto Bonito”, “Bichiyal” e “Yo Perreo Sola”, num desfile de batidas eletrônicas ácidas, de alto teor dançante, e imagens de mulheres rebolando na casinha expostas no telão.

O clima ficou tão quente que muita gente no estádio tirou peças de roupa para dançar, e de certa forma ainda parecia Carnaval. Uma atmosfera tão familiar aos brasileiros quanto a vestimenta de futebol —uma cutucada no sentimento latino que Bad Bunny encarna pelo menos desde que botou as famosas cadeiras de plástico na capa do álbum “DTMF”.

A volta da casinha rosa ao palco principal ainda teve uma sequência de baladas e sucessos que incluiu “Ojitos Lindos” “La Canción”, “Dákiti”, “El Apagón” e um final apoteótico com “DTMF” —esta com o público em lágrimas enquanto o cantor pedia a todos para guardar o celular e aproveitar o momento— e “EOO”. Foram cerca de 2h30 de show no total.

O público no Allianz Parque não deixou a desejar na animação e nem no gogó. Ainda que a música brasileira esteja permeada por influências latinas, da lambada do Pará e da Bahia ao sertanejo do centro-oeste, não é tão comum que artistas movam multidões com esta intensidade cantando em espanhol.

Também não pareceu à toa que uma das músicas que tenham botado a plateia para chorar tenha sido “Baile Inolvidable”, no primeiro terço do show, logo depois de Bad Bunny afirmar que o show servia para unir Porto Rico, Brasil e a América Latina. O maior país da América do Sul tem uma dificuldade histórica de se entender latino, e na música pop costuma olhar mais para os Estados Unidos do que para os vizinhos hispânicos.

Em certa altura do show, cercado por músicos tocando a plena de Porto Rico na casinha rosa, Bad Bunny brincou dizendo que eles eram brasileiros, e o resto da plateia era de Porto Rico. Pouco depois, eles puxaram “Mas que Nada”, de Jorge Ben Jor, numa jam que serviu para apresentar o estilo musical da ilha caribenha ao público de São Paulo.

Nesse sentido, a estreia de Bad Bunny nos palcos do país soou como um convite aos brasileiros para assumir sua latinidade inevitável —apesar das diferenças de idioma e do eterno complexo de vira-latas. Ironicamente, ele veio de um artista que precisou ficar gigante antes na terra do Tio Sam para ter a dimensão que agora adquiriu por aqui.

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