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Basílio 177 ocupa prédio de 1939 da Telesp no centro de SP – 28/02/2026 – Economia

by Silas Câmara

O empreendimento que vai ocupar o lugar que já foi sede da Telesp (Telecomunicações de São Paulo), no centro histórico de São Paulo, deveria ter ficado pronto em junho de 2025, mas atrasou e agora deve ser inaugurado em julho deste ano. Ao lado do metrô República, vai reunir um polo gastronômico e de eventos, o Ramal, e um complexo imobiliário residencial, o Basílio 177.

O atraso não parece ser problema para Bruno Scacchetti, CEO da Metaforma, a incorporadora que montou um fundo imobiliário com os investidores BR Capital, Unitas, Starboard Partners e Maker Uno para bancar o espaço. “O importante é que vamos inaugurar um empreendimento único, em uma região que promete ser uma das melhores de São Paulo na próxima década”, afirma.

Nesta quinta (26), o consórcio MEZ-RZK Novo Centro venceu o leilão para a concessão da PPP (Parceria Público-Privada) do novo centro administrativo do Governo de São Paulo, que será instalado no bairro de Campos Elíseos. O lançamento é o primeiro de fôlego a ser inaugurado na região central da capital paulista desde que a mudança foi anunciada pelo governo.

Scacchetti não divulga o investimento total no empreendimento, que terá VGV (valor geral de vendas) de R$ 280 milhões e três torres de apartamentos: uma restaurada (de 1939, projetada pelo Escritório Técnico Ramos de Azevedo & Severo Villares), uma modernizada (dos anos 1950) e uma nova torre. Ao todo, são 274 apartamentos, que variam de 35 m² a 130 m², com preços que vão de R$ 600 mil a R$ 3 milhões.

As duas torres mais antigas têm dez andares cada uma e a mais nova tem 13 —por causa da diferença de pé direito. Em um espaço de 35 mil m², o empreendimento sob a responsabilidade da construtora Rocontec vai contar com academia, brinquedoteca, salão de festas, piscina e bar no topo (rooftop).

No térreo do Basílio 177 vai funcionar o Ramal, uma galeria que interliga as ruas Basílio da Gama e 7 de Abril, atravessando todo o quarteirão, em 3.000 m². Com investimentos de R$ 50 milhões, o lugar vai funcionar nos moldes de um “food hall”, conceito apresentado como a evolução da praça de alimentação: 25 restaurantes diferentes funcionam no espaço, com serviço unificado.

Dessa forma, o cliente escolhe o que comer e beber, mas o atendimento e a conta serão um só. Com música ao vivo, exposições e espaço para eventos, o Ramal será capitaneado pela Fábrica de Bares, dos mesmos donos do Bar Brahma, Blue Note, Riviera, entre outros estabelecimentos da capital paulista.

“A gente tem o sonho de não fechar, de ficar aberto 24 horas, mas quem vai definir isso é o cliente”, diz Cairê Aoas, fundador da Fábrica de Bares. Com curadoria gastronômica de Rosa Moraes —responsável pela seleção dos 50 melhores restaurantes da América Latina para o ranking britânico 50 Best—, o espaço terá capacidade para 600 lugares e expectativa de receber mais de 100 mil pessoas por mês.

“Serão 25 opções de restaurantes, cada um com o seu DNA, com um cardápio enxuto, de até sete itens por menu, para o cliente provar a gastronomia autoral de chefes reconhecidos, a um preço mais acessível”, diz Felipe Braga, diretor de marketing da Metaforma. A comida terá um custo médio entre R$ 50 e R$ 60 por refeição.

Metaforma e Fábrica de Bares tentaram trazer para São Paulo a franquia Time Out Market, de polos gastronômicos no modelo “food hall”, presente em Lisboa, Nova York, Chicago, entre outras grandes cidades. Mas as negociações não evoluíram por causa dos altos valores exigidos.

“É a primeira iniciativa de ter um centro gastronômico que promova toda a diversidade cultural da capital no centro da cidade, uma região acessível para todos”, diz Cairê. “Vamos juntar o que São Paulo tem de melhor.”

Em estilo art déco e inaugurado em 1939, o edifício é tombado desde 1992, o que significa que deve preservar as características externas. Ao longo da galeria que vai interligar as ruas 7 de Abril e Basílio da Gama, serão dispostos maquinários que faziam parte das operações de telefonia do edifício.

O local nasceu para abrigar a CTB (Companhia Telefônica Brasileira), a principal empresa de telefonia no Brasil até os anos 1960. Integrava o grupo canadense Light, que também operava nas áreas de energia e transportes. Nos anos 1970, com a criação do Sistema Telebrás, os serviços e o edifício passaram para a Telesp. Com a privatização do setor em 1998, mudou para Telefônica. Moradores da capital costumavam ir à central telefônica para fazer interurbanos, para outras cidades do país ou para o exterior. No local eram vendidas fichas para uso em orelhões em cabines.

GENTRIFICAÇÃO

O empreendimento está inserido no programa Requalifica Centro da prefeitura, que oferece incentivos fiscais para estimular a modernização (retrofit) de prédios antigos na região. Urbanistas apoiam a proposta de combater o esvaziamento da área, promover a habitação e impulsionar a economia, mas questionam a maneira como esse tipo de programa é promovido.

“Cerca de 80% do déficit habitacional da cidade de São Paulo está na faixa de 0 a 3 salários mínimos”, diz Raquel Rolnik, professora titular da FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo). “Quantas famílias têm capital para morar em um apartamento de R$ 3 milhões?”, questiona a arquiteta. “A mudança não vai melhorar as condições dos moradores do centro —mas valorizar a área a ponto de expulsá-los de lá.”

Kazuo Nakano, professor do Instituto das Cidades da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), afirma que o projeto de mudança da sede do governo para Campos Elíseos pode levar o centro à gentrificação —quando bairros históricos ou populares são convertidos em áreas nobres.

“O poder público precisa garantir o interesse coletivo, que moradias populares, inclusive de baixa renda, possam continuar existindo na região, envolvendo comércio e serviços para este público”, afirma.

De acordo com a assessoria de imprensa do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), o objetivo do projeto é requalificar o centro e torná-lo mais seguro e valorizado.

Hoje, 12 das 24 secretarias do estado estão no centro da capital, como Fazenda, Justiça, Educação e Segurança Pública. Também estão grandes departamentos como Detran (trânsito), DER (estradas) e DAEE (águas e energia elétrica).

O governo afirma, porém, que “as estruturas estão distribuídas em 44 endereços distintos, o que gera dispersão operacional e contratos pulverizados de locação, manutenção, segurança e logística; a centralização permitirá racionalizar serviços e reduzir despesas recorrentes ao longo do contrato”. A conclusão do projeto é estimada para 2030.

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