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BC: Divergência entre Haddad e Galípolo adia indicações – 27/03/2026 – Economia

by Silas Câmara

As indicações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para as duas vagas abertas na diretoria do Banco Central estão atrasadas por divergências entre o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad e o presidente da autoridade monetária, Gabriel Galípolo.

Apesar de Haddad ter deixado o Ministério da Fazenda na última semana e anunciado que será candidato a governador de São Paulo pelo PT, a situação em torno da nomeação dos novos diretores não deve ser resolvida pela influência que Haddad ainda exerce no governo.

A divergência entre Haddad e Galípolo se deu em torno dos nomes dos novos diretores. Haddad sugeriu que Lula indicasse o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Guilherme Mello, e o economista Tiago Cavalcanti, ligado à universidade britânica de Cambridge.

A pasta agora está sob comando de Dario Durigan, que era secretário-executivo do ministério. Durigan tem demonstrado a seu entorno que é simpático à indicação de Mello, mas pessoas próximas avaliam que ele tentará não se envolver na discussão.

Galípolo não encampa as indicações de Haddad, e demonstrou a Lula discordar principalmente do nome de Mello. Professor licenciado da Unicamp e um dos principais nomes do pensamento econômico do PT, ele tem visões sobre a economia que divergem da visão dos agentes do mercado financeiro. Tanto é assim que, quando o seu nome veio a público, a reação foi negativa e contaminou os preços de ativos no mercado financeiro.

Além disso, a avaliação de aliados de Lula ouvidos pela Folha nos últimos dias é que o presidente deverá empenhar seu capital político nas próximas semanas na aprovação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para uma cadeira no STF (Supremo Tribunal Federal) e deixar as conversas sobre o BC para outro momento.

Como mostrou a Folha, a equipe econômica expressou a Lula não ter pressa na indicação dos nomes ao BC. Parte do grupo lulista acredita que os nomes para o BC só deverão ser enviados para a análise do Senado depois das eleições –mas essa não é uma unanimidade no grupo próximo ao presidente da República.

QUEDA DOS JUROS

Segundo relatos, Galípolo argumentou com Lula que a indicação do secretário de Política Econômica soaria como uma intervenção do governo no Banco Central. Por esse raciocínio, a redução dos juros seria mais difícil porque poderia motivar reações mais fortes do mercado financeiro.

O presidente da República teria demonstrado inicialmente, nos bastidores, simpatia à ideia de indicar Mello apesar da contrariedade do mercado, mas não quer arriscar uma desaceleração ainda maior da queda da taxa Selic.

Nesta quinta-feira (26), Galípolo disse publicamente que diretores da autoridade monetária estão se desdobrando para compensar a falta de dois integrantes na cúpula do órgão.

“Quem está sofrendo mais são o Paulo [Picchetti, diretor de Assuntos Internacionais e de Gestão de Riscos Corporativos], e o Gilneu [Vivan, diretor de Regulação], que estão tendo de ocupar dois chapéus, ter reuniões com duas diretorias. Mas [o tempo da indicação] é prerrogativa do presidente da República”, declarou o presidente do Banco Central.

As vagas abertas no BC são de diretor de Política Econômica e de diretor de Organização do Sistema Financeiro e Resolução. Os postos foram ocupados, respectivamente, por Diogo Guillen e Renato Gomes até o fim do ano passado.

O posto de Gomes é também sensível porque é dele a atribuição sobre questões de controle do setor bancário, a exemplo da liquidação do Master, o que desperta interesse elevado sobre a escolha do nome que ocupará a cadeira no mercado financeiro.

Na semana passada, o Copom (Comitê de Política Monetária), formado pelo presidente do Banco Central e pelos diretores do órgão, decidiu baixar a Selic de 15% ao ano para 14,75%. A decisão foi tomada com o colegiado desfalcado das duas diretorias que estão vagas na autoridade monetária.

Lula esperava uma queda maior e se mostrou decepcionado. “Eu esperava que o nosso Banco Central abaixasse os juros em pelo menos 0,5 e abaixou apenas 0,25 por causa da guerra”, declarou o petista em discurso em São Paulo.

Além da divergência entre Haddad e Galípolo, as circunstâncias políticas pesam para que as indicações sejam postergadas.

O Banco Central está politicamente exposto por causa do escândalo financeiro do Banco Master. A suspeita é a de que integrantes do órgão tenham favorecido o banco de Daniel Vorcaro. As supostas irregularidades teriam sido quando Roberto Campos Neto, indicado no governo de Jair Bolsonaro (PL), presidia a autoridade monetária.

O governo também ficou enfraquecido junto ao Senado desde que o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), afastou-se de Lula. Indicados para o Banco Central só podem assumir o cargo depois de serem aprovados pelos senadores.

Existe entre governistas o receio de os indicados de Lula, quando escolhidos, sofrerem resistência no Senado por causa desses dois fatores.

A avaliação de lulistas ouvidos pela Folha é de que o presidente tende a empenhar seu capital político primeiro em favor de Messias, indicado para o STF. Por esse raciocínio, as escolhas para o Banco Central ficariam para mais tarde.

O petista adiou o envio oficial da indicação de Messias ao Senado no ano passado para evitar uma derrota. Alcolumbre queria que o escolhido para o Supremo fosse seu amigo e também senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG).

Recentemente, o presidente da República avisou aliados que pretende enviar a indicação ao Senado mesmo com risco de Messias ser rejeitado pelos senadores.

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