Home » BK fará show de ‘Castelos e Ruínas’ no Allianz Parque – 09/04/2026 – Ilustrada

BK fará show de ‘Castelos e Ruínas’ no Allianz Parque – 09/04/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

Em 2015, quando fez “Castelos & Ruínas”, seu primeiro álbum, o rapper BK vivia um momento de incertezas. Ele tinha uns 25 anos, havia acabado de terminar um namoro de sete e vivia se bicando com a mãe por querer parar de trabalhar em um emprego convencional a fim de tentar uma carreira como artista.

“Quando você tem 20 e poucos anos, rola uma crise mesmo, ainda mais quando você não sabe o que fazer da vida. Tem a família, você pode estudar ou trabalhar, mas não é isso que você se identifica”, diz Abebe Bikila, seu nome de batismo. “O que você faz a partir disso? Eram vários questionamentos ali. O que quero da minha vida? Para onde vou seguir? O que faço?”

Dessa confusão nasceu a obra, lançada em 2016, que hoje se tornou um clássico contemporâneo do rap nacional. Nesta terça-feira (9), BK anunciou com a empresa 30e que vai fazer um show de celebração dos dez anos de “Castelos & Ruínas”, em setembro, no Allianz Parque. Será a primeira vez que um rapper brasileiro faz uma apresentação solo no estádio do Palmeiras.

Ele estava há algum tempo se preparando para esse momento. Diz que há dois anos veio diminuindo e até deixou de tocar as músicas do disco aniversariante em suas apresentações. “Na minha DM depois dos shows era todo mundo me xingando. Cadê [a música] ‘Caminhos’? Cadê ‘Quadros’?”, ele diz. “Mas era para isso mesmo, para a galera ir sentindo falta.”

Curiosamente, “Castelos & Ruínas” não é o disco mais popular de BK. A conta é difícil de fazer, porque os números do álbum no Spotify são subestimados, já que a obra ficou anos disponível apenas no YouTube. Ainda assim, é seguro dizer que o rapper ascendeu ao mainstream com seus dois últimos trabalhos —”Ícarus”, de 2022, e “Diamantes, Lágrimas e Rostos para Esquecer”, do ano passado, ambos com números superlativos no streaming.

Se levaram BK para os grandes públicos e palcos, os dois álbuns não conseguiram mexer tanto quanto “Castelos & Ruínas” com os fãs —e com a cena— do rap. Quando o disco de estreia do carioca saiu, o gênero vivia um momento de transição estética. Em São Paulo, Emicida e Criolo viviam o auge com um pezinho na MPB. No Rio, grupos como ConeCrew Diretoria dominavam com uma música mais hedonista, que muitos viam como um embranquecimento do estilo.

Em paralelo, o trap engatinhava no Brasil, inclusive com o Nectar Gang, coletivo do qual BK fazia parte. “Isso é muito engraçado porque hoje lembram do ‘Castelos & Ruínas’ como um disco de boombap”, ele diz, se referindo ao estilo de batidas de pegada mais analógica que marcou o rap dos anos 1990. “Mas quando a gente chegava no rolê de rap das antigas, os caras falavam que a gente não era rap —era trap.”

Com produção assinada majoritariamente por El Lif Beatz e JXNV$, “Castelos & Ruínas” tem uma sonoridade tão singular quanto seus temas e rimas, feito a partir de uma trama intrincada de samples obscuros. A falta de autorização para usar um trecho de cerca de 1 segundo chegou a derrubar o disco das plataformas.

Geograficamente, era também um disco entre dois lugares —Jacarepaguá, bairro suburbano onde BK viveu a infância e a adolescência até se mudar para a Glória, no centro da cidade. “Estava começando a misturar um mundo que eu vivi por 20 anos com esse novo mundo novo que eu estava conhecendo.”

Nesse choque reside a linguagem do álbum, entre a juventude cercada por pobreza num cenário de guerra às drogas e o começo da vida adulta de boêmia e dos perrengues do rap underground. Há em “Castelos & Ruínas” sexo, bebedeira e vontade de viver, mas também um olho aberto contra deslumbramentos e traições —um retrato de quem quer vencer na vida sem perder sua essência no meio do caminho.

BK amarrou a liquidez desses processos no conceito de dualidade que apresenta já no título. A primeira música feita para o álbum, diz, foi a faixa-título. “Foi quando nasceu essa ideia de fazer uma jornada interior, de tentar chegar em algum lugar. Quis desmembrar esse caminho até onde ele conseguir me levar.”

Mais surpreendente do que a habilidade de juntar tantas palavras e imagens de sentido oposto em suas rimas é o fato de que BK não fez isso somente para gastar as possibilidades de sua caneta. A partir do jogo de ying-yang, ele apresentou sua persona de MC, um anti-herói, de maneira exacerbadamente humana. Não há felicidade que não venha acompanhada de uma frustração, e nem conquista que não passe pelo filtro de sua autocrítica.

“Minha vida sempre foi um lugar de muita adrenalina, e acredito que esse conceito do disco está presente nela”, ele afirma. “Quando meu pai morreu, minha mãe estava grávida do meu irmão. Eu tinha 2 anos, e a partir dali a vida foi uma correria. Eu andava com os caras mais velhos da rua. Vi muita coisa legal e muita coisa ruim também. Muita doideira, muita merda acontecendo.”

BK se lembra de ter perdido vários amigos para o crime e para as drogas na adolescência. “Muita gente que viveu em determinados bairros, em determinados lugares, teve uma vivência parecida”, ele diz. “Às vezes eu pensava que não queria ficar velho igual aqueles caras. Até as coisas de errado que eles ensinaram para a gente valeu como um caminho a não ser seguido.”

Até os relacionamentos retratados em “Castelos & Ruínas” são conturbados, como em “Amores, Vícios e Obsessões”, a música mais famosa do álbum. “Por mais que eu esteja falando do ponto de vista do homem, eu deixo explícito na letra que é um jogo entre os dois”, afirma o rapper. “O cara não é o fodão. É um relacionamento que anos depois a gente foi saber que chamavam de tóxico.”

Quando saiu, “Castelos & Ruínas” abriu caminho para uma nova leva de MCs que iam despontar no gênero. Meses depois, nomes como Djonga e Baco Exu do Blues, para citar alguns, lançaram seus primeiros álbuns e ganharam espaço renovando a cena. Para BK, o disco inspirou uma geração que não se via nas referências da época.

“Era uma juventude preta que queria ver isso não só no [programa da Multishow] Top TVZ viu? Não só no cara que está longe”, diz. “Era a galera falando certas coisas, se vestindo de tal forma, agindo de tal forma. Além dos outros MCs, teve um impacto direto na vida dessa juventude preta que estava crescendo e querendo ter coisas com as quais se identificasse.”

Dez anos depois, “Castelos & Ruínas” segue um disco de qualidades até hoje inigualáveis. Nenhum MC depois de BK conseguiu dar um mergulho introspectivo com essa profundidade, aceitando ser anjo e demônio ao mesmo tempo.

O carioca conta que viu recentemente uma entrevista com Jon Jones em que o lutador respondia se considerava ele mesmo uma pessoa ruim tentando ser melhor. BK ficou refletindo sobre qual seria sua resposta. “Eu não sei. Acredito que não sou ruim, mas às vezes é foda. Sabe aquela história de que só de pensar em matar já matou? Às vezes a gente não é uma pessoa ruim na prática, mas pensa nisso.”

Autor Original

You may also like

Leave a Comment