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Brasil bate recorde no prêmio Nebula, de ficção científica – 31/03/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

O Nebula, um dos prêmios mais prestigiados do gênero de ficção científica e fantasia, indicou pela primeira vez quatro brasileiros em suas categorias principais.

Os livros “Bem Mal me Quer”, de Hache Pueyo, e “Disgraced Return of the Kap’s Needle”, de Renan Bernardo, disputam a categoria de melhor noveleta. Já os ilustradores Matheus Lopes e Bilquis Evely concorrem, ambos, por “Helen de Wyndhorn”, na categoria melhor quadrinho.

Esta é a sexta vez que brasileiros aparecem como indicados na premiação, que é organizada pela Science Fiction and Fantasy Writers of America, organização fundada nos anos 1960 para a promoção e defesa de escritores de ficção científica. As indicações marcam um momento de maior destaque de latino-americanos no mercado global do gênero.

“Foi inesperado e muito bem-vindo. Quando fui indicado em 2024, achei que aquela seria a primeira e única vez”, diz Renan Bernardo, que concorreu na 57ª edição do Nebula com a noveleta “Breve Biografia de uma Cadeira Lúcida”.

Renan é formado em engenharia da computação e começou como autor independente no Wattpad, plataforma que permite a publicação e leitura gratuita de histórias com diferentes estilos. Ao longo de sua carreira, já foi indicado para prêmios como o Odisseia e o Argos de literatura fantástica, ambos considerados bons promotores da produção de fantasia e ficção científica nacional.

O escritor carioca, que publica suas obras originalmente em inglês, tem uma sugestão para conseguir que editoras americanas aprovem e publiquem seus livros. “O importante é manter constância da escrita e não desanimar ao ouvir o primeiro não. Aceitar a rejeição faz parte do processo”, afirma.

Histórias de ficção científica escritas por brasileiros vêm chamando a atenção de editoras internacionais de grande e médio porte. É o que explica Luara França, diretora editorial da Aleph, referência na publicação do gênero no Brasil.

“Acompanhamos nos últimos anos é um mercado editorial mais aquecido. Ter brasileiros concorrendo contra produções americanas dentro dos Estados Unidos é um reconhecimento incrível.”

A Aleph acaba de contratar o livro “Disgraced Return of the Kap’s Needle”, de Renan Bernardo, que narra a história de uma expedição intergalática mal sucedida. A tripulação, em estado de decadência após dez anos dentro da nave, precisa encontrar meios de retornar, mesmo que preço pago para isso seja a vida de pessoas inocentes. O próprio autor assina a tradução, que deve sair ainda neste ano.

Embora o Brasil tenha alto volume de leitores do gênero, a produção de ficção científica e fantasia abrange em maior parte obras de língua inglesa. Muitas vezes a tradução de títulos internacionais é priorizada, e as produções nacionais ficam reservadas à literatura de nicho.

No caso de Hache Pueyo, a publicação de “Bem Mal me Quer” aconteceu primeiro em português e foi traduzida para o inglês sob o título de “Not Too Bold”.

A história se passa na Casa Caprichosa, um local assombrado onde a antiga guardiã das chaves foi devorada. A nova guardiã, Dália, precisa assumir a responsabilidade pelas gavetas que guardam as memórias de Anatema, uma enorme aranha humanoide que também é senhora da casa.

Hache, que é argentina-brasileira, publica há alguns anos em revistas respeitadas de ficção especulativa como a Strange Horizons e Clarkesworld. A autora se define como eremita e tem uma persona reservada, deixando que as atenções se concentrem apenas em suas obras. Ela também diz ter recebido com surpresa a indicação. “Fiquei muito feliz em ser indicada e em ver outro brasileiro na categoria.”

Os outros dois brasileiros que concorrem ao Nebula são Matheus Lopes e Bilquis Evely na categoria de melhor quadrinho. Os dois assinam a arte de “Helen de Wyndhorn”, que já venceu o prêmio Eisner, considerado o Oscar do gênero. Como mostrou a Folha, os artistas foram os primeiros brasileiros a alcançarem esse feito.

A Science Fiction and Fantasy Writers of America é responsável pela votação do evento, cuja premiação acontece no dia 6 de junho, em Chicago, nos Estados Unidos.

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