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‘Cara de Um, Focinho de Outro’ não é a redenção da Pixar – 03/03/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

Uma andorinha não faz verão, e não será um único castor que poderá salvar este inverno da Pixar, estúdio de animação que entrega, nesta quinta-feira (5), mais um filme morno, ainda que espirituoso. A começar pelo título brasileiro, “Cara de Um, Focinho de Outro”, uma sagaz adaptação do trocadilho original “Hoppers”, e menos literal que a versão lusitana, “Saltitões”.

Ao saber que, na trama, humanos assumirão a forma de animais e vice-versa, sabemos estar numa comédia de corpos trocados —a exemplo de um “Se Eu Fosse Você” ou “Sexta-Feira Muito Louca”, mas sem a parte dos acasos místicos que resolvem dramas conjugais ou familiares.

Aqui, a mensagem é ecológica, ou, antes, em favor de uma bondade supostamente natural a pessoas e bichos. E só uma troca radical de perspectivas poderia ajudar a relembrar isso num mundo ameaçado pela inconsequência humana.

Não vai demorar muito para que a jovem Mabel, ativista e amante da natureza, bole um plano para impedir que Jerry, prefeito da sua cidade, construa um anel viário sobre uma clareira onde habitam várias espécies. Ou ao menos habitavam, na época em que ela frequentava o local com a avó japonesa.

Agora, todos os sapos, insetos, veados e patinhos foram embora, sem motivo aparente. Mas, se um castor voltar ao local e ali fazer a sua barragem, todo esse ecossistema pode retornar.

Eis que a protagonista descolada e rebelde, com cabelos arrepiados que parecem ter saído de um anime, desvenda um projeto secreto da sua faculdade: uma equipe estuda como pôr a mente em animais robóticos e usá-los para estudar os bichinhos de perto. O teste mais recente é, justamente, com uma castora, da qual Mabel tomará posse a contragosto da professora e de seus assistentes.

É nessa troca de corpos que o filme terá alguns dos seus momentos mais engraçados, sobretudo no primeiro contato da menina-castora com a natureza selvagem —bem mais cruel e organizada politicamente do que ela imaginava. Lá, toda sorte de mamíferos responde às regras do rei George, um castor gorducho e meio trapalhão, dono de uma senhora barragem.

Nesse começo da aventura, o diretor Daniel Chong —criador do desenho “Ursos sem Curso”, conduzindo seu primeiro longa para os cinemas— mostra sua habilidade com um humor físico frenético, perseguições e outras palhaçadas, ao mesmo tempo em que seu estilo rende sacadas visuais que dão alguma personalidade a uma animação, no mais, pouco memorável.

A melhor delas está na forma de desenhar os olhos dos animais. Enquanto estamos do lado dos humanos, os bichinhos têm olhos pequenos e pretos, e só escutamos seus grunhidos; já quando estamos na perspectiva animal, eles ganham olhos maiores, com pupilas expressivas, e entendemos o que falam. Sutilmente, o filme marca sua posição ao retratar animais que entendem as pessoas, mas não o contrário.

Basta dizer que os esforços de Mabel enquanto castora não serão suficientes para impedir os planos do prefeito antagonista —um personagem pintado, aos poucos, como um político democrata querido pela população, filhinho de mamãe e inseguro. Enfim, não mau caráter o suficiente para dispensar um pouco de compaixão. Na leitura mais óbvia, é um voto de confiança na política tradicional, isto é, não no extremismo hoje personificado por Donald Trump.

Sem adiantar muito, basta dizer que a empáfia de Mabel, por acidente, vai despertar uma confusão entre todos os animais, pondo tudo a perder de maneira bem previsível e melosa. Apesar das reações positivas que “Cara de Um, Focinho de Outro” recebeu em suas sessões lá fora, é difícil que, no final das contas, ele desperte mais atenção que “Elio”, produção da Pixar indicada ao Oscar deste ano, mas que pouca gente viu, ou lembra de ter visto.

Se filmes como “Soul” e “Divertida Mente” mostram que o estúdio ainda consegue conversar com crianças e adultos por meio da originalidade e da despretensão, a sátira de “Cara de Um”, com ares de filme B, soa bem menos espontânea que aquela dos seus principais filmes no mundo animal —a citar, “Ratatouille”, “Procurando Nemo” e “Vida de Inseto”, todos lembrados por ousadias que este novo filme não consegue atualizar.

Uma rápida olhada nos “Ursos sem Curso” mostra por que o talento de Chong foi escolhido para chegar ao cinema, mas a impressão é que aqui se sobressai o tom fofinho e dócil, não o “non sense” do desenho do Cartoon Network. E talvez a própria Disney não tenha morrido de amores pelo longa, já que a divulgação tem sido bastante tímida.

Mas, em se tratando de animais, a empresa não tem do que reclamar —começou o ano colhendo os frutos do notável “Zootopia 2”, que virou a animação americana com maior bilheteria da história, e a maior de Hollywood na China. Talvez um pouco mais de cara de ficção atemporal tire um pouco do focinho de “tratado sobre atualidades” no qual a Pixar tem se perdido.

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