No conjunto de 18 romances que publicou —do inaugural “O Ventre”, de 1958, ao praticamente desconhecido “A Morte e a Vida”, de 2007, feito de encomenda—, Carlos Heitor Cony tinha um filho preferido. Apesar de visto como patinho feio, “Pilatos”, de 1973, era soberano, desfilava sem concorrentes na galeria de afetos do autor.
Cony afirmava que qualquer pessoa poderia fazer seus outros romances. “Pilatos”, só ele. É a história de Álvaro Picadura, que, depois de sofrer um atropelamento, carrega o pênis decepado num vidro de compota de pêssego Colombo, deambulando pelo centro histórico do Rio de Janeiro entre miseráveis e loucos de toda estirpe —um deles orgulhoso figurante nos filmes do cinema novo.
Em entrevistas, o escritor defendia a tese de que “Pilatos” era o melhor porque nasceu de uma molecagem. Uma obra suja, antiliterária, agressão a tudo o que é considerado de bom gosto e inteligente, como quem planeja a vida inteira construir uma casa, mas uma casa de cabeça para baixo.
Se o próprio romancista é peremptório em sua eleição, admiradores e críticos têm dificuldade de escolher um só livro, uma obra-prima inquestionável de Carlos Heitor Cony, cujo centenário de nascimento se completa neste sábado, dia 14.
A lembrança que imediatamente vem à cabeça é “Quase Memória”, publicado em 1995, obra que mistura jornalismo, crônica e ficção, num roteiro circular que dura o tempo real de 12 horas, entre uma tarde e uma madrugada.
“Cony foi um romancista extraordinário. Conheci seu trabalho na época em que lançou ‘Quase Memória’, pungente acerto de contas com o pai que marcaria sua volta à ficção após um hiato de 23 anos. É, até hoje, um dos livros da minha vida”, diz o escritor Marcelo Moutinho.
“Quase Memória” virou fenômeno de boca a boca entre leitores, entrou na lista dos mais vendidos quando a presença de autores brasileiros era praxe, atraiu a estima crítica. Sempre do contra e blasé, Cony chegou a se incomodar com o sucesso e torceu o nariz para a adaptação ao cinema realizada por Ruy Guerra.
“Se você fizer uma enquete, 90% dos entrevistados vão citar ‘Quase Memória’ como o Cony mais marcante e inesquecível”, diz o jornalista Sérgio Augusto, que integra a minoria —seu eleito é “Pessach: a Travessia”, de 1967.
É o livro mais político do autor. “Uma espécie de ‘Reflexos do Baile’ do Cony”, diz Sérgio, referindo-se ao título do romance de Antonio Callado que se passa durante a ditadura militar. Em “Pessach”, o narrador em primeira pessoa, cético e alienado, um espelho do próprio Cony no início dos anos 1960, acaba entrando meio sem querer na luta armada, para no fim constatar uma traição.
Os comunistas se sentiram ofendidos e conseguiram boicotar o livro, cuja segunda edição ficou “presa” nos depósitos da editora Civilização Brasileira.
Embora se identificasse com as angústias do protagonista de “Pessach”, Paulo Francis —o amigo que notou a ligação de Cony com os temas e obsessões de Nelson Rodrigues— tinha um xodó por “Informação ao Crucificado”.
A novela autobiográfica, de 1961, revela o drama espiritual de um seminarista. É uma narrativa dura, em forma de diários, com episódios repletos de angústia e ternura. Na última página o narrador escreve que “Deus acabou”, um desabafo de momento, que Cony colocaria em dúvida mais tarde.
“Os grandes conflitos humanos permanecem muito vivos na obra dele, o que faz de ‘Informação ao Crucificado’ e ‘Antes, o Verão’, para ficar em dois apenas de seus romances iniciais, livros atualíssimos. A crise religiosa, os desastres do amor. São os seus grandes temas, permeados às vezes pela política ou pela memória”, diz o crítico André Seffrin.
Há quem prefira a força e a revolta de “O Ventre”, estreia na qual se observa a influência de Jean-Paul Sartre, mas um Sartre que curtiu a infância no Lins de Vasconcelos, subúrbio da zona norte do Rio onde Cony nasceu, e que aprendeu, com Manuel Antônio de Almeida, Machado de Assis e Lima Barreto, a lição de como fazer um romance urbano e carioca em sua essência.
Cony tinha “O Ventre” em alta conta. Para as reedições, acrescentou uma nota de abertura e burilou o texto. Um luxo para quem costumava escrever com rapidez espantosa, como um atacante com medo de não marcar o gol. “A Verdade de Cada Dia”, o segundo romance, lhe custou uma semana em cima da máquina. “Quase Memória”, 21 dias.
Era a favor de que os livros, uma vez que ganhassem o ponto final, se criassem ou se destruíssem sozinhos. No entanto, ao ser entrevistado pelo Jornal do Brasil, logo que saiu “O Ventre”, comprou uma briga: “O autor brasileiro luta contra dois fatores adversos: a mediocridade dos outros e a própria mediocridade”.
A escritora Heloísa Seixas lembra a primeira frase de “Antes, o Verão”, de 1964 —”Agora, eu escrevo especialmente para você”— para definir sua relação com o romancista: “Eu me sinto como se sentem todos os leitores de Cony. Como se ele escrevesse só para eles”.
O acadêmico Antônio Torres destaca “O Piano e a Orquestra”, de 1996: “Gira em torno do pícaro e patético Gran Circo Tauromaníaco El Assombro de Damasco, que se exibe em pequenas cidades do interior. Lembra uma tirada dele: ‘O otimista é apenas um mal-informado’”.
O livro pertence à segunda fase do autor, iniciada com “Quase Memória”, da qual fazem parte “A Casa do Poeta Trágico”, de 1997, e “Romance sem Palavras”, de 1999. “Muito bem elaborado formalmente, ‘O Piano e a Orquestra’ é um caleidoscópico. Nele parecem estar refletidos todos os seus outros romances, e num tom divertidíssimo, de quem sabia rir de si mesmo”, diz Seffrin.
Cony escreveu colunas na Folha de 1993 até dias antes de sua morte, em 2018, aos 91 anos. Segundo o cronista Marcelo Moutinho, o autor precisa ser lembrado ou redescoberto.
“É um caso típico de grande escritor que ninguém mais lê porque está fora do ‘must-read’ das nossas bolhas culturais. Todo mundo no Brasil parece estar lendo os mesmos livros. E ficcionistas como ele, como Antônio Carlos Viana, Sônia Coutinho e Wander Piroli, entre outros, acabam eclipsados por essas listas quase compulsórias de autores do momento.”
Nem tudo é limbo ou desmemória. “Quase Memória” —sempre ele— tornou-se um long-seller. Editado atualmente pela Nova Fronteira, assim como a maior parte de sua obra, tem tiragens pequenas, mas constantes.
Para marcar os cem anos, haverá o lançamento do documentário “Cony, Retrato Íntimo”, com direção de Marcos Ribeiro e roteiro de Helena Lara Resende.
A base é um vasto material doméstico filmado ao longo de 20 anos com câmeras profissionais e do tipo Super 8 pelo próprio escritor e por sua viúva, Beatriz Lajta. São registros de encontros com amigos (Ruy Castro, Janio de Freitas, Sérgio Augusto, Marília Gabriela), viagens e passeios, além de cenas raras de Cony pintando e tocando piano.
Que entre a orquestra, pois Cony merece.