Eles morrem terrivelmente no final. Ambos. E o final de “História de Amor: John F. Kennedy Jr. e Carolyn Bessette“, série produzida por Ryan Murphy, vai ao ar hoje.
Mas isso todo o mundo sabe. Mesmo quem não prestava atenção a eles antes de junho de 1999 não resistiu ao noticiário da época. Dois jovens apaixonados –e uma cunhada, que só agora a gente entende a razão de estar ali– desaparecem no mar depois de o piloto –ele, no caso– perder o controle do monomotor que os levaria a um casamento de família.
Era noite, o clima estava péssimo dentro e fora do aviãozinho, que caiu no Oceano Atlântico quase chegando à ilha de Martha’s Vineyard, um reduto dos ricos e poderosos. Os corpos dos três foram achados por mergulhadores profissionais dias depois, despedaçados.
John F. Kennedy Jr. era um homem lindo, filho de pais que foram o que mais perto os Estados Unidos conseguiram produzir de uma realeza, Jack e Jackie Kennedy.
Ele, um jovem presidente democrata amante de deusas do cinema, morreu assassinado em uma carreata em Dallas ao lado da mulher, um crime nunca devidamente solucionado. Ela, uma viúva estilosa e arretada, que passou 24 horas sem trocar o tailleur rosa Chanel que vestia quando o marido foi atingido por duas balas na cabeça. O mundo precisava ver o que tinham feito com o marido dela.
John John, como era chamado pela mídia –e por ninguém de suas relações mais próximas–, tinha apenas três anos quando perdeu o pai, mas foi ao enterro e prestou continência quando passou pelo caixão. A imagem é uma das mais icônicas do século 20.
Ele cresceu sob os holofotes e lidava muito bem com isso, tinha sido treinado a vida toda e tinha aquela sorte genética e etarista que faz algumas pessoas, em geral bem jovens, saírem lindas em todas as imagens.
Carolyn Bessette também tinha essa particularidade, a câmera a favorecia, em qualquer ângulo, em qualquer situação. Mas ao contrário do marido, não tinha treino para o assédio constante. O interesse global que despertou quando levou ao altar o solteiro mais cobiçado do planeta a incomodava.
Talvez, se fosse uma mulher dos dias de hoje, em que qualquer atenção parece ter valor de mercado e só é completamente discreto quem tem muito a perder, fosse tudo diferente. Mas não.
Bessette era uma criatura do século 20. Vivia uma versão muito específica de liberdade urbana. Não era uma vida espalhafatosa ou performática. Era quase silenciosa. Tinha um trabalho divertido, na Calvin Klein, grife que ajudou a definir o que viria a ser o estilo dos anos 1990, minimalista, elegante, clássico.
Esse é o look mais democrático de todos, porque o acesso a ele é muito fácil, afinal, uma camisa branca é uma camisa branca. Uma ótima camisa branca é muito diferente de uma camisa branca qualquer, mas só quem conhece vê. O que muda, na verdade, é quem a veste. E o destino foi generoso com Bessette, alta, corpo longilíneo, rosto lindo e marcante, cabelos lisos, que ela clareava e mal penteava. Era uma bagunça chique, de quem não perde muito tempo com isso.
Ela tinha Nova York inteira para si, podia circular em qualquer ambiente sem explicar nada a ninguém, era independente financeiramente, paquerada, desejada, cool. Sem pressa nem ansiedade em relação aos grandes marcos da vida de muitas mulheres. Carolyn nunca foi o tipo de menina que cresce sonhando em se casar até os 25 anos e ter filhos antes dos 30.
Ela estava bem mais para as mulheres de “Sex and the City” do que para os “social X-rays”, as esposas magérrimas e vestidas de alta costura dos bilionários do mercado financeiro, descritas com ironia fina pelo escritor Tom Wolfe em “Fogueira das Vaidades”.
Levava uma vida leve, divertida e despretensiosa, um tipo de existência que, hoje, parece impossível replicar. A brecha ocupada por gente privilegiada, mas não rica, anônima, independente e muito à vontade com tudo e com todos quase não existe mais. Sem aparecer, ninguém mais se sente vivo nos nossos tristes tempos.
Bessette era completamente livre. E abriu mão de tudo por um sonho banal e rodeado de clichês por todos os lados –o do príncipe encantado, que aparece nas histórias para salvar as pobres mocinhas de algo terrível, seja a pobreza, seja a prisão, seja a violência doméstica ou até o boa noite, Cinderela original. Por quê?
O que faltava a Bessette? O que, no universo de John F. Kennedy Jr., que ela conheceu e frequentou antes do casamento, tempo suficiente para ver do que se tratava, parecia valer a troca?
Era uma paixão, claro, com aquela injeção de otimismo e de energia que as paixões despertam, mas ela chegou a hesitar, ela comparou os prós e os contras, pensou, deixou o futuro de John John em pausa trágica, mas acabou trocando a vida que levava por opção, fruto de estudo, trabalho e muita dedicação, por ser uma peça no quebra-cabeça dos Kennedy.
Não há interpretação fictícia possível que dê conta dessa equação. Não faz sentido. E nunca fará, porque ela nunca deu uma entrevista desde que adotou o sobrenome do marido, uma decisão complexa por si só. Nunca saberemos se a paixão seria eterna, mas não parece ter sido infinita nem no tempo que durou.