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Casas de alta-costura apresentam nova dinastia criativa – 02/02/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

Depois de mim, o dilúvio. Por fortuna, os estilistas que herdaram os bastões de seus antecessores não precisaram carregar tal profecia ao estrear na temporada de verão 2026 da alta-costura, realizada entre 26 e 29 de janeiro.

Três casas —duas delas entre as mais importantes da França— apontaram novos rostos para conduzir uma engrenagem que permanece como força motriz do trabalho artesanal secular, mantido vivo pelas mãos dedicadas a horas de silêncio, rigor e excelência nos ateliês parisienses.

Entre as estrepitosas apresentações aguardadas desde o início do ano passado estavam a Dior, sob o comando de Jonathan Anderson; a Chanel, que anunciou Matthieu Blazy como seu novo diretor artístico de moda em dezembro de 2024; e o mistério sobre quem guiaria a Giorgio Armani Privé foi enfim revelado: Silvana Armani, sobrinha do fundador, é a responsável por conduzir as coleções após a morte do estilista, em setembro do ano passado.

Já habitués das salas de desfile do prêt-à-porter, esses debutantes também enfrentaram a pressão de um métier com ritmo distinto —mais lento, tradicional e perfeccionista—, mas capaz de alcançar patamares raramente atingidos em uma indústria regida pela produção em série.

Mesmo após o episódio envolvendo John Galliano, naquele 1º de março de 2011, quando foi demitido da Dior após o escândalo de comentários antissemitas filmados que vieram a público no fim de fevereiro daquele ano, o estilista retornou aos domínios da Christian Dior para encontrar o novo criativo por trás das dezoito coleções anuais da casa —Jonathan Anderson.

Galliano, herói de Anderson nos tempos de universidade, o iconoclasta que transformou a Dior em um fenômeno fantasioso da alta-costura, jamais plenamente alcançado por outro criativo moderno. Um feito que, para a falta de sorte de seus sucessores —brilhantes, mas deslocados—, como Raf Simons, com seu verniz minimalista e o apoio de seu braço direito Pieter Mulier, ou a feminilidade feminista de Maria Grazia Chiuri, mostrou-se impossível de sustentar.

A consequência desse período letárgico foi uma lacuna de irrelevância. O renascimento, felizmente, veio com Anderson —alguém que, antes de ingressar na Dior, jamais havia compreendido plenamente o glamour ou sequer se imaginado no universo da couture.

Sua interpretação parte claramente de um lugar experimental, com a intensidade de uma abelha sendo introduzida ao pólen pela primeira vez. “As flores mais lindas que eu já tinha visto”, declarou Jonathan, referindo-se aos dois arranjos de ciclâmen, envoltos por uma fita de seda preta, presenteados por Galliano.

Anderson decidiu torná-las onipresentes: cobrindo o teto como se fosse um jardim, surgindo nos maxibrincos, nos sapatos e nas centenas de pétalas de seda produzidas pelo ateliê Lemarié para recobrir vestidos.

A silhueta esculpida, marcada por tensões acentuadas e superfícies refinadas, é um eco direto das curvas dos vasos feitos à mão pela artista Magdalene Odundo. As formas reverberam em peças curtas e longas, arrematadas com laços, traduzidas em uma passarela que não disfarça as mais de 4.000 horas dedicadas às costuras de tiras de seda, seja para tornar as curvas leves como uma pluma, seja para o tricô de versões curtas, pensadas também para o cotidiano na sala de desfile no Museu Rodin que, na semana anterior, apresentava seu masculino —e que acolheu, nos mesmos assentos cromados, seus mil convidados.

Tiras raras de seda do século 18 transformam-se em detalhes de patchwork em bolsas e sapatos, algumas delas usadas do avesso para fora, oferecendo uma nova lente sobre a noção de preciosidade. Essa lógica orienta a joalheria que, ao substituir ouro e diamantes, reúne o que Anderson chama de objetos de maravilha. De meteoritos encontrados na Argentina a pedras ornamentais, o espírito dos antigos gabinetes de curiosidades é esculpido ou montado como braceletes e anéis.

Os quarenta anos ao lado de Giorgio Armani, vividos em todos os dias úteis, fizeram de Silvana Armani a escolha natural —não apenas pelo laço de sangue— para assumir a etiqueta Privé. Filha do irmão mais velho de Giorgio, e já ativa nas coleções femininas da Emporio Armani e da própria Giorgio Armani, ela sabe que Armani é Armani, mas que Armani também muda.

Assim, ainda que sua estreia esteja profundamente ancorada no legado construído pelo tio, as peças dialogam com seu gosto pessoal: nada de chapéus, mais calças. A cartela sublime repousa entre tons delicados de jade — nome da pedra que batiza a coleção —, rosa, branco, greige e pretos fulgurantes.

A leveza é explorada em diferentes intensidades, propondo uma oscilação entre o sonho e o guarda-roupa cotidiano, em silhuetas verticais, ternos desestruturados, bustiês bordados usados com calças de alfaiataria masculina, vestidos de drapeados precisos, túnicas midi que se abrem para revelar calças de corte rigoroso e pulôveres com franjas finas. A homenagem mais fiel ao fundador surge no vestido de noiva —o último desenhado por Armani.

O interregno da Chanel chegou ao fim. Matthieu Blazy, que teve mais de um ano para orquestrar essa estreia, escolheu uma miríade de visuais intrinsecamente etéreos para dar sua visão do que é a alta-costura da maison.

Para os desavisados, o excesso de simplicidade pode ser confundido com uma sublime coleção de roupas em série. Mas as mãos dos ateliês Lesage, Lemarié, Montex e Massaro, ainda que sub-repticiamente presentes, não enganam quanto à preciosidade do primeiro look, como o tailleur que abre a apresentação, desta vez feito em musseline de seda.

A sua obsessão pelos materiais que brincam com a ilusão —já vistos em suas criações para a Bottega Veneta— surge aqui também: os tweeds fluidos e os couros que parecem jeans intercalam períodos em que penas e plumas sugerem um voo. Entre um cogumelo ou outro, nesta floresta encantada que, se tivesse sido obra de Carsten Höller, seria lúdica —sem jamais se tornar infantil.

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