Para Mirtes Renata Santana de Souza, mãe do menino Miguel Otávio Santana da Silva, a visibilidade artística é um “dever coletivo” para evitar o apagamento da morte do filho de 5 anos.
O longa-metragem “O Agente Secreto”, que concorre a quatro prêmios no Oscar deste domingo (15), inclui uma releitura ficcional da tragédia ocorrida em 2020, no Recife.
Sarí Corte Real foi condenada em 2022, mas responde ao processo em liberdade. Em julho de 2025, o TJ-PE (Tribunal de Justiça de Pernambuco) negou recursos apresentados pela defesa e manteve a condenação.
A reportagem entrou em contato com a defesa de Sarí Corte Real, que informou que não se manifestaria fora do processo judicial. O TJPE também foi questionado, mas não enviou posicionamento.
A produção dirigida por Kleber Mendonça Filho disputa as categorias de melhor filme, melhor filme internacional, melhor ator, pelo trabalho de Moura, e melhor direção de elenco, categoria inédita.
“Eu tenho que ir lá no Tribunal de Justiça todas as vezes para cobrar que se tenha celeridade no processo. Eu fui no mês passado, estou me organizando para ir na semana que vem. É algo que me dói muito no peito, sabe? Foi o meu filho que morreu”, diz Mirtes à Folha.
“Qualquer forma de mobilização que é feita, uma matéria, uma notícia num rádio, num jornal”, afirma ela. “Eu sou eternamente grata porque é uma forma de não cair no esquecimento.”
Para a mãe de Miguel, aparecer no filme, da forma como o episódio é retratado, “é relembrar a sociedade sobre essa questão”. “Mesmo sabendo que existia esse trecho, quando eu assisti, eu fiquei super emocionada. Porque eu acabei relembrando tudo que aconteceu comigo naquele dia.”
Antes de assistir a ‘O Agente Secreto’, Mirtes encontrou Wagner Moura em um aeroporto, momento em que o ator confirmou a existência da cena. Os dois conversaram sobre o filme e sobre a cena. A mãe de Miguel viria a assistir o filme dias depois, já que havia uma dificuldade para se conseguir ingressos no Recife pela alta procura.
Segundo Mirtes, Sarí Corte Real cursa o sexto período de medicina e realizou viagens recentes à Europa.
“Ela ainda segue livre, vive bem com a vida, estudando, viajando. Tipo, sambando na minha cara e na cara da sociedade, né? Mostrando que o crime compensa. Eu tenho que ir para o cemitério, para ver como é que está meu filho, para levar flores para o meu filho. Enquanto isso, ela vai para Paris”, lamenta.
Mirtes decidiu cursar direito após o caso. Ela já apresentou o TCC, com nota 10, e precisa concluir poucas matérias para obter a graduação.
Além da esfera criminal, Sarí Côrte Real e o marido, Sérgio Hacker, foram condenados pela Justiça do Trabalho ao pagamento de R$ 386 mil por dano moral coletivo. A decisão fundamentou-se no fato de Mirtes e sua mãe serem remuneradas pela Prefeitura de Tamandaré enquanto prestavam serviços domésticos particulares ao casal.
Um juiz do Tribunal Regional do Trabalho da 6ª Região condenou os ex-patrões da mãe de Miguel a indenizar a família da vítima. A decisão foi proferida no dia 6 de setembro em 2023, e a indenização estabelecida foi de R$ 2 milhões.