Nos dias 19 e 20 de março, participei como uma das palestrantes convidadas do 1º Simpósio do Grupo de Estudos em População e Desenvolvimento Aurélia Castiglioni no Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes). A professora homenageada, Aurélia, estava presente e foi bonito ver o carinho e a admiração de alunos e colegas. Esse reconhecimento é especialmente significativo em um ambiente em que todos sabemos das dificuldades da vida acadêmica.
No dia 20, participei da sessão “Dinâmicas de família, gênero e vulnerabilidades”, com a professora Érika Leal, para debater trabalhos apresentados por estudantes do Ifes. Os trabalhos abordavam temas diversos e interessantes, mas tinham em comum o entrave de não poderem ser plenamente desenvolvidos, pois dependiam dos microdados do Censo 2022. E não são apenas eles que aguardam esses dados —pesquisadores, alunos, professores e gestores também.
O Censo deveria ter sido realizado em 2020, mas não ocorreu devido à pandemia de Covid-19. Assim, o último Censo disponível na íntegra é o de 2010. Já se passaram 16 anos, e o Brasil mudou muito nesse período. O atraso na divulgação dos microdados do Censo 2022 evidencia desinteresse em liberar os dados para pesquisa.
Estamos em 2026, e o IBGE já deveria estar voltado à organização do Censo de 2030, mas ainda mantém em aberto o de 2022. Essa situação gera uma série de problemas. Alocamos recursos públicos para a realização dessas pesquisas, e a não divulgação de seus resultados pode resultar em desperdício. Além disso, são esses dados que permitem traçar um retrato atualizado do país e subsidiam a formulação de políticas públicas. O Censo é a única pesquisa domiciliar de cobertura nacional com representatividade no nível municipal, beneficiando tanto pequenas quanto grandes cidades.
A divulgação dos microdados do Censo estava prevista para novembro de 2025, mas não ocorreu. Conversei com a demógrafa e membro da comissão consultiva do Censo de 2022, Suzana Cavenaghi, que me informou que a razão apresentada pela comissão de qualidade para a não divulgação foi a preocupação com a possibilidade de identificação de indivíduos em municípios muito pequenos.
No entanto, não foi apresentado nenhum estudo nem proposta concreta para mitigar esse risco. Considere, por exemplo, um município muito pequeno em que haja apenas um médico: como a ocupação é divulgada, seria possível identificá-lo nos dados e, assim, conhecer sua renda. Para evitar esse tipo de identificação, é possível aplicar tratamentos estatísticos específicos aos dados desses municípios. Uma alternativa, portanto, seria divulgar imediatamente os microdados do Censo 2022, com exceção dos municípios muito pequenos, que poderiam ser submetidos a esse tratamento.
Esse tipo de problema, no entanto, não é novo. Como ele foi resolvido nesses casos? Ademais, as diretrizes do Censo de 2022 começaram a ser elaboradas em 2019, e esse tipo de questão deveria ter sido antecipado, e não enfrentado apenas agora. A LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) foi sancionada em 2018, de modo que essa preocupação também deveria ter sido incorporada desde então.
Minha preocupação vai além do Censo 2022. Outra pesquisa, a Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde (PNDS), realizada em 2023/2024, ainda não tem o banco de dados finalizado, segundo Suzana, devido à falta de pessoal.
Essa pesquisa reúne informações sobre demografia, saúde reprodutiva e nutrição infantil, além de perguntas sobre violência contra a mulher. Trata-se de um conjunto de informações recentes e essenciais para retratar essa epidemia que assola o país e subsidiar a formulação de políticas públicas.
O IBGE, apesar de sua importância, parece estar sendo deixado de lado. Deveria, no entanto, ser fortalecido. A instituição merece e o Brasil precisa das suas pesquisas.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.