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CEO Americanas: empresa quer mais crédito junto a bancos – 27/03/2026 – Economia

by Silas Câmara

O CEO da Lojas Americanas, Fernando Soares, 47, diz que a empresa pediu para sair da recuperação judicial após dois anos porque os resultados da empresa melhoraram e para ampliar o acesso a crédito.

Na noite desta quarta-feira (25), a varejista apresentou o balanço do quarto trimestre de 2025 e o pedido de saída do processo de renegociação de dívidas, que teve início em janeiro de 2023 e foi homologado pela Justiça em fevereiro de 2024. Pela Lei de Recuperação Judicial (11.101/2005), as empresas podem solicitar a saída dois anos após a homologação. A Justiça precisa aprovar a requisição.

“Os números chamaram a nossa atenção e culminaram nessa decisão de antecipar o pedido [de saída da RJ], porque apontaram mais um ano de muita melhora operacional”, diz Soares, destacando a alta de 4% nas vendas das lojas físicas, canal que responde por 93% das vendas totais. “É uma declaração importante para o mercado e o nosso time também, de que é hora de mudar de fase no jogo.”

Segundo ele, a varejista tem crescido de forma muito expressiva em categorias como bebidas e limpeza, o que pede mais limite de crédito. “Essa conversa você só pode ter [com bancos e fornecedores] no pós-recuperação judicial”.

O administrador destaca ainda que, entre outubro e dezembro, a companhia conseguiu aumentar em 7,8% as vendas “mesmas lojas” em comparação ao mesmo período do ano anterior —o indicador é importante porque permite entender se as vendas crescem, mesmo sem a empresa inaugurar novos pontos ou canais de venda. No intervalo, a Americanas também apresentou redução de 18,1% das despesas gerais e administrativas.

Soares assumiu o cargo em 1º de outubro, no lugar de Leonardo Coelho, responsável por comandar a Americanas depois que veio à tona a fraude contábil de R$ 25,3 bilhões, que levou a empresa à recuperação judicial com dívidas de R$ 43 bilhões. Se o trabalho de Coelho se concentrou em manter a operação de pé em meio ao maior escândalo contábil da história do país, o de Soares está em fazê-la crescer. Mas existem dúvidas se a empresa está de fato em uma fase consistente, como diz o executivo.

O time de analistas financeiros que acompanhava o desempenho da empresa não emite mais relatórios sobre a companhia. Em 14 casas, o papel está “em revisão” desde a recuperação judicial.

O ano encerrou com prejuízo de R$ 271 milhões, frente a um lucro de R$ 8,3 bilhões em 2024, que havia sido obtido graças a efeitos contábeis decorrentes da reestruturação de dívidas.

Em 2025, a companhia registrou vendas brutas consolidadas de R$ 17 bilhões, queda de 9% sobre 2024. A receita líquida atingiu R$ 12,3 bilhões, recuo de 1,2%. O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) caiu 33,2%, para R$ 1,1 bilhão. O Ebitda ajustado ex-IFRS 16 (que considera o aluguel das lojas) somou R$ 277 milhões, alta de 156,3% sobre o ano anterior.

André Pimentel, sócio da consultoria Performa Partners, chama a atenção para a linha de “outras receitas/despesas operacionais”, que foi positiva em R$ 1,2 bilhão em 2025. Na conta, entram R$ 830 milhões referentes a créditos de ICMS e Pis e Cofins, R$ 164 milhões referentes a renegociações de

contratos de TI e R$ 160 milhões de acordos tributários federais e estaduais.

“Sem essas receitas não recorrentes, ou seja, com as quais não se conta todo trimestre, o Ebitda ex-IFRS 16 seria negativo em R$ 912 milhões”, afirma Pimentel. Um Ebitda negativo indica que a operação da companhia não gera caixa suficiente para cobrir seus custos e despesas diretas.

Além disso, diz o consultor, a dívida bruta subiu R$ 213 milhões, para R$ 1,99 bilhão, enquanto as disponibilidades totais (soma de todos os recursos da empresa) caíram R$ 300 milhões, para R$ 2,48 bilhões. “Como resultado, o caixa líquido recuou 51%, para R$ 488 milhões. Como um negócio desses pode se manter de pé?”, questiona o especialista, que trabalhou na reestruturação da Americanas no fim dos anos 1990, quando estava na Galeazzi & Associados.

Na opinião de Eugênio Foganholo, sócio da Mixxer Desenvolvimento Empresarial, a Americanas ainda não redescobriu a sua vocação no varejo —deixou de ser uma das líderes do canal online, onde era forte em eletroeletrônicos, e tenta se adaptar ao modelo de conveniência baseado em lojas físicas. “É uma empresa ainda em busca de um conceito, de uma proposta de valor”, diz.

Já para Alberto Serrentino, sócio da Varese Retail, o novo modelo Americanas se mantém. “O parque de lojas da rede é muito bom. Embora muitos pontos tenham sido fechados [mais de 400 durante a RJ], as lojas têm muito tráfego e são destino de quem procura bomboniere, higiene e beleza”, afirma.

As compras sazonais, como as de Páscoa, são a grande força da Americanas, diz Serrentino. “Eles trabalham muito bem com a ampliação de mix em categorias sazonais, como Páscoa, Natal, volta às aulas e Dia das Crianças”, diz o consultor, para quem a rede está retomando gradualmente a confiança dos fornecedores. “Acredito que eles saíram da UTI, mas ainda têm uma longa reabilitação pela frente.”

De acordo com dados do Observatório da Insolvência, que analisa processos de recuperação judicial e falência no Brasil, os processos de recuperação judicial no país têm duração média de três anos e meio a cinco anos, a contar da data da homologação do plano pela Justiça.

“Vai depender da complexidade do caso, do número de credores e do efetivo cumprimento do plano”, diz o advogado Filipe Denki, sócio da Veritas Administração Judicial. A Americanas pediu a saída da RJ dois anos depois da homologação. “Caso se confirme, terá sido um processo bem rápido”, diz ele, lembrando, a título de comparação, o caso da Oi. A tele passou cerca de seis anos na primeira recuperação judicial, e voltou a ingressar nesse regime em novembro do ano passado.

No geral, segundo Denki, os planos de pagamento aprovados em recuperação judicial têm duração média de 10 anos no Brasil. “No caso de grandes empresas, tende a ser ainda mais extenso, diante da maior complexidade e do número elevado de credores envolvidos”, diz. No caso da Americanas, o prazo de pagamento é de 20 anos. Mesmo saindo da recuperação, a empresa deve cumprir o cronograma.


RAIO-X AMERICANAS

Fundação: 1929

Sede: Rio de Janeiro

Funcionários: 23.988

Lojas: 1.452, em todos os estados do país e no Distrito Federal

Centros de distribuição: Seropédica (RJ), Uberlândia (MG), Itapevi (SP), Benevides (PA), Cabo de Santo Agostinho (PE), Simões Filho (BA), São José dos Pinhais (PR) e Gravataí (RS)

Principais concorrentes: supermercados, lojas de cosméticos, lojas de doces

Receita líquida 2025: R$ 12,3 bilhões

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