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CEO do Pão de Açúcar tentar acalmar grandes fornecedores – 10/03/2026 – Economia

by Silas Câmara

O presidente do GPA (Grupo Pão de Açúcar), Alexandre Santoro, 54, está no “corpo a corpo” com os maiores fornecedores do grupo varejista, na tentativa de acalmá-los diante da decisão da empresa, anunciada nesta terça (10), de entrar com pedido de recuperação extrajudicial para renegociar dívidas de R$ 4,5 bilhões.

“Só hoje já conversei com mais de 20 grandes fornecedores, falo pessoalmente com eles”, disse Santoro à Folha. “Estou tirando todas as dúvidas que porventura possam surgir, e eles têm entendido muito bem”, afirmou o executivo, que assumiu a empresa em janeiro, por indicação dos novos principais acionistas, os Coelho Diniz, que também trocaram o conselho da companhia em outubro.

“A gente nunca teve problema de atrasar o pagamento [aos fornecedores] e não vamos ter agora”, afirmou Santoro, cuja preocupação número um do momento é deixar claro para os fornecedores que a medida tomada hoje envolve apenas as dívidas com credores financeiros, especialmente os bancos. Parte deles, que concentram 46% dos créditos sujeitos ao plano (R$ 2,1 bilhões), aceitou a negociação extrajudicial. São elas Itaú Unibanco, Rabobank, HSBC e BTG Pactual. Agora a missão é convencer os demais a aderirem ao plano.

O GPA possui cerca de R$ 1,7 bilhão em dívidas com vencimento já em 2026 e encerrou dezembro com capital de giro líquido negativo em cerca de R$ 1,2 bilhão.

Além disso, a companhia revelou a existência de R$ 15 bilhões em disputas tributárias classificadas como “perdas possíveis” —valores que não estão provisionados no balanço, mas que representam um risco potencial. Também existe um passivo trabalhista da ordem de R$ 17 bilhões. Mas essas duas dívidas, que somam R$ 32 bilhões, não entraram no pedido de recuperação extrajudicial.

Questionado se parte dos credores pode transformar sua dívida em participação acionária no grupo, Santoro disse que o assunto ainda não está na mesa de negociação.

“Eu não tenho como dizer que é totalmente descartado. Isso envolve os próprios acionistas, é muito cedo para afirmar qualquer coisa nesse sentido” afirma. Ou seja, a negociação vai se concentrar, pelo menos neste primeiro momento, em alongamento da dívida.

O Itaú é o principal credor, com R$ 1,16 bilhão. Mas até o momento apenas o banco, e não a sua gestora de recursos (Itaú Unibanco Asset Management), que também é credora da varejista, aceitou negociar.

De acordo com uma fonte próxima ao comando do grupo, os bancos não querem que a empresa quebre, porque a consideram um ativo saudável. O GPA é o quinto maior varejista alimentar do país, com receita de R$ 20,6 bilhões em 2025. As suas 728 lojas estão em 11 estados e no Distrito Federal.

Pela lei, as empresas podem entrar com pedido de recuperação extrajudicial se conseguirem acordo com credores cujas dívidas representem no mínimo de um terço dos créditos afetados. Na opinião do advogado Filipe Denki, sócio da Veritas Administradora Judicial, a escolha do GPA foi acertada.

“A via extrajudicial evita o rebaixamento automático do rating bancário da empresa, o que preserva, pelo menos em parte, o acesso ao crédito e a sua reputação perante o mercado e os parceiros comerciais”.

Para Alberto Serrentino, sócio da Varese Retail, a dívida da empresa ganhou uma dimensão ainda maior com os juros, diante da Selic a dois dígitos.

“A renegociação com os principais credores era inevitável”, afirma. Eles têm dívidas vencendo, sem esse caixa para pagar. Ou desmobiliza ativo, ou capitaliza a empresa com dinheiro novo, ou tem que chamar os credores e negociar”, diz Serrentino, lembrando que, caso a medida não fosse tomada, a recuperação judicial se tornaria uma possibilidade real. As Casas Bahia fez o mesmo recentemente, afirma.

Santoro não tinha muitas opções na manga para tentar manter de pé a doceria fundada por Valentim dos Santos Diniz em 1949. A empresa praticamente não tem ativos —das atuais 728 lojas, apenas 5% têm imóvel próprio.

Em dezembro, já sob nova direção, o GPA vendeu para o Itaú a parte da sociedade que mantinham na financeira FIC. Vai receber R$ 260 milhões.

Questionado pela reportagem se a venda da rede Extra Mercado seria um ativo à venda, Santoro descartou completamente esta hipótese. “Não está à venda”, afirmou.

O executivo está promovendo uma reestruturação na empresa. Cortou três diretores do comando da companhia —hoje fazem parte da diretoria apenas o próprio Santoro e Pedro de Albuquerque, vice-presidente de finanças e diretor de relações com investidores. O CEO afirmou que o grupo não deve abrir lojas neste ano e que os cortes, tanto de pessoal quanto de ponto de venda, devem ser pontuais.

O plano de recuperação extrajudicial prevê a suspensão imediata das dívidas de R$ 4,5 bilhões por 90 dias, a contar da data do pedido. A companhia e os credores vão formar um comitê para se reunir periodicamente e avaliar medidas alternativas, tais como alteração em condições de pagamento e juros, reorganizações societárias ou capitalização da empresa.

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