Um mês após as chuvas que deixaram dezenas de mortos na zona da mata mineira, moradores que tiveram casas interditadas ainda têm incerteza sobre o retorno ao local onde habitavam.
Em Juiz de Fora, cidade com o maior número de afetados, eram 8.800 pessoas desalojadas ou desabrigadas segundo o último levantamento divulgado pela prefeitura, no dia 19 de março.
Desse total, 170 famílias estavam desabrigadas e foram levadas a hotéis custeados pela prefeitura após permanecerem em abrigos em escolas municipais até o dia 8 de março, quando foram transferidas para a rede hoteleira.
Armando Ferreira Lima, 39, morava com dois irmãos e a mãe em uma casa no Parque Burnier.
Eles deixaram o local minutos antes de um barraco desabar, causando o desmoronamento de casas. Com a casa condenada pela Defesa Civil, não puderam mais voltar para buscar documentos e roupas. Os quatro estão na casa de um irmão.
“Estou há um mês usando roupas dos outros e dei entrada em novos documentos porque, além de não poder voltar, não queremos mais voltar. Não queremos ter essa lembrança ruim da casa condenada. Não queremos ter de ver quão destruído está o bairro em que moramos. Queremos morar em outro bairro, outra casa”, afirma Armando, que diz não ter feito pedidos de auxílio à prefeitura.
“Entendemos que temos condições de refazer nossa vida aos pouquinhos e não queremos correr o risco de prejudicar quem precisa.”
Antônio Cléber de Araújo Queiroz, 62, também afirma não querer retornar para a residência onde morava, no bairro Três Moinhos, um dos mais atingidos pelos deslizamentos.
Ele e a família estavam em um aniversário na casa de um amigo no dia 23 de fevereiro, quando choveu quase todo o volume esperado para o mês na cidade.
A lama que desceu do morro invadiu a casa dele e atingiu 1,20 metro de altura, destruindo os móveis. O morador afirma que a Defesa Civil ainda não fez uma avaliação sobre risco estrutural.
“Minha expectativa é zero [de voltar]. Eu não moraria lá, mesmo se não tivesse sido atingido como fui, daria um jeito de ir embora. Não quero nem ficar no bairro, porque lá é muito arriscado”, diz Queiroz.
Atualmente, Antônio, a mulher e a filha estão em um alojamento do Tupi, um clube da cidade, para onde foram transferidos após o desastre.
O levantamento da prefeitura da semana passada aponta para 1.008 moradias completamente destruídas e 928 casas interditadas.
A cidade ainda tem 58 ruas vazias, sendo os bairros Paineiras (8), Três Moinhos (7) e Vila Ideal (6) os mais afetados. Três ruas foram liberadas até o momento pelas autoridades municipais.
Procurada, a Prefeitura de Juiz de Fora afirmou que realizou 4.577 vistorias técnicas nas áreas afetadas desde o dia 23 de fevereiro. A gestão disse que o número representa o triplo da média de vistorias que a Defesa Civil realiza em um ano.
No dia 10 de março, o Ministério Público expediu recomendação para que o município só libere as áreas interditadas após avaliação técnica da Defesa Civil e do Corpo de Bombeiros que ateste a inexistência de risco nos locais.
Rafaella Silva, 49, está há duas semanas na casa de amigos. Ela passou alguns dias abrigada em uma igreja evangélica, depois ficou na casa de familiares.
Moradora de Lourdes, onde vivia com a mãe idosa e um irmão com autismo, ela também teve a casa condenada: houve o deslizamento de uma escada na lateral da residência e a casa em que vivia ainda tem risco, segundo ela, de desmoronar em cima de outras.
“Nossa casa teve rachaduras nas paredes, janelas e chão pela movimentação da terra. A laje encharcou e as ferragens oxidaram. Defesa Civil deixou a gente tirar os documentos e só, porque há risco iminente de desabamento”, afirma.
Rafaella diz que procurou uma casa para alugar, mas considera que há proprietários abusando no valor. Enquanto isso, a manicure diz sofrer a cada chuva.
“Estou tendo crise de pânico sempre que o tempo fecha e os alertas chegam. Sinto falta de ar quando chove. Vejo rachadura em todos os lugares e sinto que nenhum local é seguro”.
Em Ubá, outro município da zona da mata que contabilizou mortos pelas chuvas, são 3.156 pessoas desalojadas e 2 pessoas desabrigadas. A prefeitura afirma prestar apoio aos atingidos.
A Defesa Civil municipal fez 991 vistorias técnicas e emitiu 277 avaliações de estruturas e riscos. Na cidade, 34 imóveis foram interditados de forma total e outros 47 de forma parcial ou temporária.