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Coleção preenche lacuna na literatura negra infantil – 31/03/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

“Para que todos os meninos negros possam vivenciar o amor desde o berço” é a dedicatória que Kiusam de Oliveira assina em seu livro “Tudo o que Eu Quero É Amor”.

A escritora e professora está a frente da curadoria do projeto Vozes Pretas, da editora PeraBook, onde o seu livro e de outros autores busca preencher a ainda desfalcada literatura negro-brasileira para as infâncias.

A coleção, que faz um evento de lançamento de seus primeiros 23 títulos nesta terça-feira (31), mira publicar ao menos 60 obras infantojuvenis escritas e ilustradas por autores e artistas negros.

Entre os volumes já disponíveis estão “Me Chame de Bakari” de Madu Costa, nome já consolidado na literatura infantil, e “Francisco Bonito de Turbante Colorido”, estreia de Leandro Passos na literatura infantil.

Curadora do projeto, Kiusam acompanhou de perto todas as etapas, desde a escolha dos autores ao desenvolvimento das imagens que acompanham suas histórias.

“Convidei autores ainda novatos no gênero porque reconheci neles uma potência e o perfil de uma escrita negro-brasileira, mesmo que eles ainda não soubessem disso.”

Segundo ela, os convites não garantiam a publicação e todos os textos passaram por seu crivo, amparado por quase quatro décadas de experiência em sala de aula e no trabalho com crianças.

Kiusam mirou textos que, além de cumprir uma função pedagógica, buscassem fazer crianças negras se reconhecerem como potências e crianças brancas a entenderem que há força e valor além da branquitude.

“A escola, muitas vezes, traz o desencantamento para o corpo das crianças, principalmente das crianças negras que passam a conhecer o racismo e o preconceito ao sair da socialização primária vivida dentro de casa. A literatura, nesse sentido, pode ser um caminho de reencantamento pelo próprio corpo.”

O objetivo do projeto é se adotado em escolas e também na casa das crianças, para alcançar seus pais, que talvez não tenham tido acesso a esse tipo de literatura na infância. “As crianças são grandes ensinantes capazes de transformar os pais”, afirma.

Nos livros, a perspectiva afrocentrada aparece menos como tema explícito e mais como essência das narrativas. Línguas africanas como o iorubá são incorporadas às histórias que, partindo de acontecimentos cotidianos da experiência infantil ganham novos contornos quando protagonizadas por personagens negros.

Em “Tudo o que Eu Quero É Amor”, Oliveira narra a história do menino Adeyemi que enfrenta exclusões fora de casa e expressa o desejo por acolhimento. As ilustrações de Caio Zero acompanham esse percurso e vão se tornando cada vez menores à medida que o protagonista sofre violências e sente com mais força o vazio da solidão.

Quando encontra sua mãe, o mundo de Adeyemi volta a ser florido. Para Zero, essa imagem é uma das formas de romper imagens cristalizadas. “Meu objetivo é fazer com que personagens negros fujam dos estereótipos, de todos eles. Assim como o menino negro pode ser feliz sentindo o aroma das flores, a menina negra pode sonhar em ser o que ela quiser”, afirma.

Historicamente, a representação negra em imagens recaiu sobre figuras secundárias e caricaturais. Oliveira lembra que, até um passado recente, era comum ver personagens negros descalços, de barriga inchada (a chamada “barriga de verme”) e com traços animalizados.

“A maior diferença é que hoje eu me vejo nas imagens que produzo. Também vejo meus sobrinhos, as crianças da minha rua, os rostos e os jeitos com os quais eu cresci convivendo”, afirma a artista Suzane Lopes, que ilustrou o livro “Francisquinha” de Josias Marinho, sobre uma menina que vive em um quilombo.

A presença negra, como defende Oliveira, precisa atravessar todas as etapas do livro, da autoria à imagem. Ela aponta a importância de reconhecer esse trabalho de forma concreta e afirma ter sido contratada pela editora PeraBook com remuneração à altura de sua trajetória, algo ainda raro para profissionais negros no mercado editorial.

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