Um policial agride seu colega e entra em crise emocional. Fotos íntimas de uma garota são vazadas por rapazes. Um homem descobre o segredo de sua esposa morta e, incapaz de lidar com sua frustração, fica obcecado. Em comum, as histórias dos filmes “Deserto Particular”, “Ferrugem” e “Para a Minha Amada Morta”, de Aly Muritiba, analisam as várias facetas da masculinidade.
Agora, “Barba Ensopada de Sangue“, adaptação da obra homônima de Daniel Galera, encerra uma espécie de ciclo cinematográfico do diretor, dedicado a esmiuçar o comportamento do homem brasileiro, diz Muritiba. “Me ocupa muito, como criador, pensar como é ser homem num contexto tão propício para a masculinidade. Como fazer para que ela seja um pouco menos dolorida para os outros?”
“Barba Ensopada de Sangue” explora o trauma geracional passado de pai para filho, por três gerações, inflado pela performance agressiva ou silenciosa desses homens uns com os outros.
O livro foi um sucesso de crítica e vendas quando foi lançado, em 2012. Para o filme, produzido por Rodrigo Teixeira, responsável por “Ainda Estou Aqui”, Muritiba condensou mais de 400 páginas em um thriller, deixando de lado as várias passagens mais contemplativas de Galera.
No longa, Gabriel, um instrutor de natação, visita o pai num encontro em que transparece a falta de intimidade e o ressentimento entre os dois. O mais velho avisa que está doente e que irá tirar a própria vida. Antes disso, porém, conta ao filho a verdade sobre a morte do avô de Gabriel.
Gaudério, o patriarca, descrito como taciturno e grosseiro, mas de bom coração, era pescador de baleias em um vilarejo do litoral gaúcho e desafeto dos outros homens do lugar. Certo dia, depois de ir ao mar, voltou sem um braço, trancou todo seu equipamento de caça em um galpãozinho no quintal e nunca mais pescou. Surrou o filho, que certa vez entrou no local. Tempos depois, Gaudério foi assassinado em uma festa —o culpado pelo crime nunca foi descoberto.
Após o suicídio do pai, Gabriel decide ir ao vilarejo para vender a antiga casa à beira-mar do avô. Ao chegar, todos o tratam com hostilidade, como se ele fosse herdeiro de uma maldição por ser neto de Gaudério. Gabriel, então, fica obcecado em descobrir a verdade sobre a morte do avô, enquanto precisa lidar com pendências de seu próprio passado. Aos poucos, a investigação se torna uma busca por identidade.
Três personagens femininas são importantes condutoras da trama. A ex-namorada de Gabriel, a ex-mulher de seu avô e Jasmine, vivida por Thainá Duarte, com quem o protagonista se envolve durante sua investigação. Em comum, todas elas parecem oferecer caminhos alternativos à brutalidade. “As mulheres estão transitando pela vida desses homens. Jasmine é quase como um bicho que está em extinção dentro de um contexto supermasculino”, diz Duarte.
Quem encarna o neto e protagonista é Gabriel Leone, que lança o filme logo após voltar de Los Angeles, onde estava para participar do Oscar com a equipe de “O Agente Secreto“. No longa de Kleber Mendonça Filho, que concorreu a quatro estatuetas na maior premiação do cinema, Leone interpreta um assassino de aluguel.
Seu rosto tem aparecido em várias produções com grande repercussão, entre elas a série “Senna“, da Netflix, em que encarnou o piloto de Fórmula 1 brasileiro, e “Ferrari“, melodrama de Michael Mann sobre o fundador da grife de carros.
Leone conta que, no final de 2022, voltou da Itália, onde morou quatro meses para as gravações de “Ferrari”, e foi direto para Cananéia, no litoral de São Paulo, cenário de “Barba Ensopada de Sangue”. A sensação de cair de paraquedas, como ele diz, numa praia deserta, sem conhecer ninguém, serviu para dar forma ao seu personagem deslocado.
O mar escuro e agitado, o céu nublado e os ventos insistentes da paisagem do filme dão a impressão de falar por Gabriel, que é calado e melancólico. Sua solidão é consequência, em parte, da prosopagnosia, condição que impede seu portador de reconhecer o rosto das pessoas.
São características que servem de estofo para o thriller, mas também como metáforas da incapacidade que Gabriel tem de acessar as próprias emoções e de estabelecer conexões profundas com os outros —problemas geralmente associados ao que hoje se chama de masculinidade tóxica.
Muritiba diz enxergar esses aspectos em seus pares, homens criados nas décadas de 1980 e 1990. “De lá pra cá, as coisas mudaram, com vais e vens. A sociedade era mais progressista, agora está retroagindo e se tornando mais conservadora. Deixamos de ser tão opressivos com as mulheres, e agora o feminicídio explode”, diz.
“Me interessam esses personagens que poderiam fazer uso de seus privilégios, mas que, passando por uma situação limite, têm as suas certezas quebradas e, na reconstrução dessa figura, talvez possa surgir uma pessoa melhor, menos opressiva.”
A reflexão levou o diretor a mudar o final do livro de Galera, que termina com um encontro violento envolvendo Gabriel. “Nos meus filmes anteriores, a violência está à mão do personagem masculino o tempo todo, só que quando ele a utiliza, se dá mal. Pelo menos no campo da fantasia, quero que esses homens possam abdicar da violência”, diz Muritiba.
Esse arco se repete também nas séries criadas pelo diretor, que têm alavancado produções nacionais no streaming. Na primeira temporada do faroeste “Cangaço Novo“, por exemplo, o protagonista Ubaldo descobre ter uma herança no sertão do Ceará, e se envolve com o crime organizado local para pôr as mãos no dinheiro.
A violência, no começo, uma ferramenta, aos poucos se torna uma armadilha física e emocional perversa. Algo parecido ocorre na série “Cidade de Deus: A Luta Não Para“, em que o protagonista Buscapé vive constantemente tentando se manter fora dos conflitos que emergem na favela.
“Barba Ensopada de Sangue” não se volta para a tensão entre classes sociais, mas o ambiente em que Gabriel se encontra é mantido pela agressão e pela dominação do mais forte sobre os mais vulneráveis. Essa realidade se espelha na caça de baleias, animais dóceis e exuberantes que se aproximam da costa quando estão grávidas, para se protegerem —e, ali, são golpeadas pelos pescadores.