A lista das maiores vendedoras de combustíveis em São Paulo mudou drasticamente entre o fim de 2024 e o fim de 2025, segundo dados da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis). Cinco das dez primeiras colocadas praticamente desapareceram após as operações policiais contra empresas suspeitas de fraudes no setor no ano passado.
O processo é visto pelo mercado como uma reorganização da distribuição de combustíveis no país após décadas convivendo em um ambiente de concorrência desleal, com fraudes tributárias e adulteração de produtos. Tem impactos também na arrecadação dos estados, que sofriam com a sonegação de impostos.
“O setor de distribuição de combustíveis no Brasil está vivendo uma transformação profunda”, escreveram os analistas Monique Greco, Eric de Mello e Eduardo Mendes, do Itaú BBA, em relatório sobre o tema no início de fevereiro.
A percepção é reforçada por executivos de grandes empresas com quem a reportagem falou. “Quem está há muitos anos nesse segmento reconhece a relevância deste momento de combate ao crime organizado e práticas irregulares”, diz Rafael Grisollia, presidente da mineira Ale.
Quarta maior distribuidora de combustíveis do país, a empresa diz que suas vendas cresceram 8,2% em 2025. “Em São Paulo e no Rio de Janeiro, onde as ações de fiscalização tiveram maior intensidade, os reflexos foram ainda mais evidentes”, afirma Grisollia.
Segundo o executivo, entre agosto e setembro, as vendas da Ale avançaram 30% no mercado paulista e 40% no do Rio.
Em seu balanço de 2025, a Ipiranga falou em “forte expansão, principalmente pela retomada do mercado após as medidas de combate às irregularidades no setor durante o segundo semestre”. As margens da empresa cresceram 7% no quarto trimestre em relação ao mesmo período de 2024.
A Ipiranga é a segunda maior empresa do setor. A maior, a Vibra Energia, também viu um cenário de crescimento consistente, influenciado “pelo fortalecimento do arcabouço regulatório, maior rigor no combate a irregularidades e redução de assimetrias competitivas”.
Dados da ANP apontam que, de dezembro de 2024 a dezembro de 2025, a fatia de mercado das três nas vendas nacionais de gasolina subiu de 53,16% para 55,41%. No diesel, foi de 56,15% a 59,50%.
Pode parecer pouco, mas cada ponto percentual do mercado de gasolina no país representa hoje uma receita anual de cerca de R$ 3 bilhões. No diesel, são cerca de R$ 4 bilhões por ano, também considerando o preço atual do produto.
Foi também em São Paulo e no Rio onde ocorreu a maior recuperação de mercado pelas três grandes do setor. Segundo o Itaú BBA, entre março e dezembro, elas avançaram 9 pontos percentuais no mercado paulista de gasolina e 13 pontos no mercado fluminense.
No diesel, completa o relatório do banco, as três companhias recuperaram 6 pontos percentuais em São Paulo e também 13 pontos percentuais no Rio.
Agora, há um momento de redesenho, a partir da fiscalização mais rigorosa e de medidas legislativas e regulatórias —por exemplo, a aprovação da lei do devedor contumaz, em dezembro. A concorrência desleal sofreu “um grande revés”, segundo análise do mercado.
As operações policiais miraram, primeiro, postos e distribuidoras ligados ao PCC em São Paulo. Depois, a Refit, dona da refinaria de Manguinhos, no Rio de Janeiro.
“Essas operações marcaram um momento histórico para o setor”, diz o presidente do ICL (Instituto Combustível Legal), Emerson Kapaz, citando a descoberta do uso de fintechs para ocultar dinheiro do crime como fundamental.
“Sabíamos que o crime movimentava bilhões de reais, mas nada aparecia no Coaf [Conselho de Controle de Atividades Financeiras]”, afirma. “O estrangulamento financeiro desse pessoal foi um grande avanço.”
A melhora do cenário se refletiu nos preços das ações das empresas. A Vibra atingiu no início de fevereiro o maior valor desde que deixou de ser BR Distribuidora. A Ultrapar, que controla a Ipiranga, chegou no fim de fevereiro ao maior patamar desde o início de 2024.
Apenas a Raízen, que vive crise financeira, anda em baixa. Na sexta-feira (13), a Justiça aceitou pedido de recuperação judicial feito pela empresa para reestruturar dívida de R$ 65 bilhões.
Os dados da ANP confirmam que os efeitos se espalharam para além das três gigantes.
Em São Paulo, empresas de médio porte dobraram sua fatia de mercado com a saída das suspeitas de fraude. A Avant, hoje a quarta maior no estado, por exemplo, passou de 1,9% para 3,8% das vendas. A fatia de mercado da ALL, a quinta, subiu de 1,5% para 2,8%.
A Secretaria de Fazenda do Rio de Janeiro diz que a arrecadação de ICMS com combustíveis cresceu 8,12% em 2025, para R$ 9,5 bilhões, puxada por “fatores como a expansão da atividade econômica e a variação dos preços e o fortalecimento das ações de combate a irregularidades tributárias”.
Na avaliação do setor, com a segurança pública em destaque no debate político, a fiscalização sobre fraudes nas vendas de combustíveis continuará forte. Mas há o alerta para o avanço de outros crimes, como bombas fraudadas para uma quantidade menor do que mostra o visor.
A fraude, chamada de bomba baixa, foi objeto de 153 autos de infração emitidos pela fiscalização da ANP em 2025.
Procuradas, Raízen e Ipiranga não quiseram dar entrevistas.
A Vibra afirmou, em nota, que “o avanço das ações de combate ao mercado irregular de combustíveis e o aperfeiçoamento do ambiente regulatório têm contribuído para um ambiente de concorrência mais equilibrado no setor”.
A empresa ressalta que, com margens de cerca de R$ 0,15 por litro, “qualquer manipulação, adulteração ou sonegação no mercado gera uma concorrência desequilibrada”. “Um mercado organizado, transparente e aderente às normas é condição essencial para o desenvolvimento sustentável do setor.”