O sambódromo projetado por Oscar Niemeyer no Rio de Janeiro foi mais uma vez ocupado por milhares de pessoas em êxtase, dançando e cantando a noite inteira, como se não houvesse o amanhã. Lá, a carnavalização da vida vibra sob códigos visuais específicos, a partir de figurinos e alegorias que contam histórias, tendo como condutor o ritmo dos tambores e os corpos de seus componentes.
Nesse cortejo, as 12 escolas de samba cariocas do Grupo Especial propõem a cada ano novas formas de levar ao público e aos jurados essas narrativas, e daí emergem as mais arrebatadoras experiências estéticas —sensoriais também.
A Marquês de Sapucaí é a maior passarela do mundo. Com tudo a que tem direito em glamour, drama e fortes emoções, de natureza tão efêmera quanto inesquecível para quem a vive.
Talvez por isso, para o desfile de 2026, alguns dos principais carnavalescos do país trouxeram à avenida um quê de nostalgia ao revisitar momentos, personagens e figurinos que contam a própria história do Carnaval, muitas vezes em caráter de metalinguagem.
Ao olhar para si, o Carnaval se reinventa enquanto produz memória e cria nova iconografia a ser propagada pelas redes sociais e pela digitalização do cotidiano, projetando-se no imaginário desta e das próximas gerações.
A Viradouro, por exemplo, homenageou o condutor de sua bateria, Mestre Ciça. Com cinco décadas de atuação, considerado um inovador em seu segmento, prestes a completar 70 anos, era até então conhecido no meio do samba, não fora dele. Saiu consagrado do desfile que levou a escola à vitória.
O ápice da apresentação foi quando os ritmistas subiram num carro alegórico vazio para, lá de cima, atravessarem a pista, repetindo a ideia que Ciça teve para o desfile de 2007 no enredo “A Viradouro Vira o Jogo”, desenvolvido por Paulo Barros —não à toa ele chorava do início ao fim deste desfile.
Corta para 2026, quando o carro é o coração da escola, de onde pulsa sua alma —o samba. Seus instrumentistas, vestidos com o vermelho que é a cor da escola, “na maior beca”, como se diz no Rio, reverenciavam o mestre em bossas das mais sinistras. A Sapucaí foi à loucura.
“A rígida hierarquização social no Brasil muitas vezes torna certas personalidades artísticas invisibilizadas. A ideia do enredo era fazer de Mestre Ciça, operário do Carnaval nascido no bairro do Estácio, um herói civilizador, elevando seu nome ao patamar de artista”, diz o enredista João Gustavo de Melo, que desenvolveu o roteiro juntamente com o carnavalesco Tarcísio Zanon.
“Filho da revolução musical no bairro do Estácio, com o chamado ‘samba de sambar’, a figura carismática de Moacyr da Silva Pinto traduz a alegria e a emoção do Carnaval.”
Para o desafio de converter vida e obra de um personagem do cotidiano da escola em fantasias e alegorias, de modo épico, a estratégia foi reprocessar os instantes que fazem parte da história do Carnaval, também por meio do figurino.
“Optamos por uma pesquisa de tecidos que entregassem um ar retrô, sem abrir mão da contemporaneidade. Um exemplo foi a ala de baianas, intitulada Arte Negra no Legendário São Carlos. A saia, feita de tule com metaloides nas pontas, era um recurso clássico da ala. Neste ano, fizemos a peça nesse estilo, mas colocando pequenas franjas de EVA cortadas, dando a ideia de que as saias foram ‘manchadas’ de serpentina”, afirma Zanon.
Na Salgueiro, na homenagem a Rosa Magalhães, maior campeã do Carnaval carioca, nome absolutamente incontornável em sua arte, a equipe comandada pelo carnavalesco Jorge Silveira optou por mergulhar na pesquisa feita a partir do “download” dos 5.000 croquis que a professora deixou em vida à UERJ.
E se valer de um método visual e narrativo usado pela própria, a sobreposição e a mistura. Mas de modo anacrônico, provocando verdadeiros crashes, sem citar um desfile específico, justapondo referências, signos, épocas e conceitos.
“Mergulhamos na nostalgia e no sentimento de saudade do trabalho da Rosa”, diz Jorge Silveira, que se refere a ela como “a maior artista que a Marquês Sapucaí já viu e já produziu”.
“Para materializar esses desenhos, chegamos a comprar alguns materiais nas mesmas lojas e encontrando até os mesmos vendedores que forneciam para Rosa, para poder chegar o mais próximo possível dessa textura nostálgica.”
O resultado é uma viagem lírica por diferentes épocas e muitas lembranças, ao som de um violinista em meio aos instrumentistas do “carro de som”, aludindo à fascinação de Rosa Magalhães pelo barroco.
Foi um ano de muitas homenagens na Sapucaí. Aqui cabem a nostalgia doce do olhar de Renato Lage para Rita Lee, na Mocidade Independente de Padre Miguel, num estilo leve e irreverente, sem penas ou plumas de origem animal, como pediu Roberto de Carvalho, honrando a homenageada, e a leitura de Leandro Vieira sobre a trajetória de Ney Matogrosso na Imperatriz Leopoldinense.
Irreverente e “caliente”, e o mais ousado do ano, interpretando o enredo sob o repertório estilístico do Carnaval —formas extravasadas para serem vistas das arquibancadas, tropicalizadas, latinizadas, sensualizadas, brincantes, leves, ainda que exacerbadas. O corpo político do cantor multiplicado nos 3.000 componentes da escola.
A começar pela comissão de frente, que trazia em formato de palco e camarim diferentes personas do camaleônico Ney Matogrosso, exibidas com truques de ilusionismo, passando pela debochada ala toda em cor-de-rosa e dourado, a dos “homens com agá” —de sunga, flores e franjas, chapéu à moda nordestina—, e terminando num grande bloco, 300 integrantes com fantasias clássicas de Carnaval misturadas aos looks criados e eternizados pelo cantor que encerrou seu próprio desfile num figurino que poderia ter saído de um de seus shows. O Carnaval imita a vida.
Outro momento sublime deste ano foi o desfile criado por Leonardo Bora e Gabriel Haddad em sua estreia na Vila Isabel, lembrando Heitor dos Prazeres. Sambista, compositor, dândi carioca, sua arte de múltiplos talentos foi o assunto para a badalada dupla de carnavalescos discorrer seu rigor ao detalhe, sua paixão pela cor —em muitas pinceladas na avenida—, onde o Rio de Janeiro aparece como cenário e protagonista de antigos carnavais.
Foi aqui que tivemos a monumental Sabrina Sato como uma rainha de muitas tintas e cores, absoluta na passarela, apresentando os ritmistas em roupas tingidas à mão, e as mais bonitas baianas da Sapucaí, em prata e dourado, referência a Oxum.
Já a jovem e aclamada Mayara Lima levou consigo tanto a bateria da Unidos do Tuiuti, quanto uma movimentação que convida ao futuro das escolas de samba, dentre as agremiações que celebram a ancestralidade africana em seus temas —aqui com um dos sambas-enredo mais cantados do ano. O início do desfile, todo em branco, abria os caminhos do afrofuturismo na Sapucaí.
A Beija-Flor, por sua vez, rainha de enredos de temática afro, encheu a Sapucaí de beleza com seu Bembé do Mercado, dando continuidade ao vigoroso e rico estilo da escola nas mãos de João Vitor Araújo, campeão com o enredo em homenagem a Laíla no ano passado.
Neste ano, quatro escolas gabaritaram nos quesitos de alegorias, adereços e fantasias —Imperatriz Leopoldinense, Vila Isabel, Viradouro e Mangueira. Na verde e rosa, o carnavalesco Sidnei França sedimenta sua posição, fortalecido por mais estrutura —verba—, conseguindo bons resultados e contornos para seu estilo, sobretudo a partir dos figurinos e alegorias dos rituais do Amapá, do bonito e lisérgico início do desfile.
Sua abordagem de look total —luvas, acessórios, muitas camadas de roupas e pinturas— funcionou, num ano de maquiagens criativas em todas as escolas. Notas à parte, destaca-se a Grande Rio, que falou do Manguebeat com domínio cromático e excelente volumetria na avenida, bom trabalho do carnavalesco Antônio Gonzaga, em sua estreia à frente da escola. Olho nele.
Com tantos talentos, sendo o Carnaval a celebração da produção periférica, negra, brasileira, será mesmo que se justifica a “ação” da grife italiana Dolce & Gabbana ao vestir a atriz Juliana Paes para seu retorno junto à bateria da Viradouro? Aqui não tem alta-costura. E nem precisa.