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Como Hollywood perde força com hostilidade de Donald Trump – 04/03/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

Um piloto bonitão de espírito rebelde serve o Exército americano em uma missão para explodir usinas de urânio de uma nação distante e salvar o mundo. Se fosse lançado hoje, “Top Gun: Maverick“, de 2022, talvez não pegasse tão bem. Fora das telonas, os bombardeios dos Estados Unidos e de Israel sobre o Irã, ordenados por Donald Trump, não pareceram heroicos ao despertarem uma guerra no Oriente Médio, no último sábado (28).

O novo conflito se soma a uma política interna que inclui censura, perseguição a imigrantes e repressão a protestos. Os Estados Unidos de hoje parecem distantes da terra da liberdade cheia de paladinos dispostos ao sacrifício pelo bem maior, como Hollywood retratou por mais de cem anos, de “O Nascimento de uma Nação” a “O Resgate do Soldado Ryan”, “Super-Homem”, “Argo”, e por aí vai.

Na vida real, os caças mataram o líder do Irã, Ali Khamenei, e atingiram alvos civis —entre eles uma escola primária para meninas, matando 85 estudantes. Trump não usou a promoção dos valores democráticos para justificar a empreitada, como fizeram outros líderes americanos em guerras como a do Iraque, em 2003, ou a invasão à Líbia, em 2009.

“O público vai percebendo esse escancaramento da hipocrisia da política externa americana, que com o Trump só aumenta”, diz Fernando Mascarello, especialista em cinema e relações internacionais e autor do livro “História do Cinema Mundial”.

Ainda é cedo para afirmar como a hostilidade do governo Trump vai ressoar entre o público internacional de blockbusters americanos. Segundo especialistas, porém, ela pode acelerar um cenário que vem se desenhando nos últimos anos, em que Hollywood vem perdendo seu alcance —e, consequentemente, influência— ao redor do globo.

Esse processo se reflete no Oscar, sobretudo após o marco, em 2020, do sul-coreano “Parasita“, o primeiro longa não falado em inglês a vencer a estatueta de melhor filme. Na edição deste ano, disputam a principal categoria duas narrativas que se passam bem longe dos Estados Unidos —o brasileiro “O Agente Secreto“, que ainda concorre em outras três alas, e o norueguês “Valor Sentimental”.

Entre as animações, a favorita é “Guerreiras do K-pop”, que apesar de ser uma produção americana, surfa no boom do gênero musical coreano e compete com as francesas “Arco” e “A Pequena Amélie”. No Globo de Ouro, até “Demon Slayer: Castelo Infinito”, anime japonês, gênero já popular que vem ganhando ainda mais tração no Ocidente, esteve indicado.

A abertura a filmes internacionais é um reflexo direto da pressão sobre a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas para diversificar seus votantes e laureados. “O Oscar não se apresenta como um prêmio do cinema americano, mas mundial. E estava totalmente fechado para fora”, diz Pedro Butcher, professor da ESPM, a Escola Superior de Propaganda e Marketing, e autor do livro “Hollywood e o Mercado de Cinema no Brasil: Princípios de uma Hegemonia”.

Para o especialista, ainda é difícil medir se o interesse do público americano sobre títulos internacionais aumentou. Isso porque a distribuição dessas produções no país ainda é tímida, uma estratégia antiga para garantir a priorização de títulos americanos. “Criou-se uma cultura lá de que o filme estrangeiro é uma coisa alienígena. Quando há um filme de sucesso internacional, ele é distribuído em pequena escala”, diz Butcher.

Há uma mudança clara, porém, na forma como outros povos aparecem em filmes americanos. “A maneira como o sul global era representado, latino-americanos, árabes, chineses, africanos, sempre foi muito depreciativa, desde o ‘Tarzan’ até os faroestes. Agora é menos explícito”, diz Mascarello.

A guinada vem da necessidade de atrair novos públicos em meio às mudanças na indústria. Em um mundo multipolar, diz o especialista, conforme outros países apostam em suas próprias produções e aprimoram a distribuição em seus territórios, Hollywood passa a disputar com os animes do Japão, com os musicais de Bollywood ou, ainda, com os dramas coreanos. Esses gêneros também crescem nos streamings, ainda que os números exatos não sejam divulgados pelas plataformas.

Hoje, um dos mercados mais cobiçados é o da China, que tem o maior público de cinema do mundo e pode definir o sucesso mundial de um filme —como fez com a animação nacional “Ne Zha 2“, que se tornou a maior de todos os tempos, e recentemente com “Zootopia 2“, da Disney. Não por acaso, como retaliação a Trump pelo tarifaço no ano passado, o país asiático ameaçou barrar blockbusters americanos no país.

“Todos os filmes importados precisam passar pela validação do órgão de regulamentação da China. Em alguns casos, podem ter cenas editadas para a exibição pública comercial”, diz a cineasta Milena de Moura Barba, especialista em documentário pela Academia de Cinema de Pequim.

Estúdios americanos vêm alterando a trama de suas produções para adequá-las às regras chinesas e garantirem sua estreia nas salas do país. “Há uma competição muito grande, não só para conquistar mais o público, mas para conquistar os executivos que fazem a decisão por aceitar ou não determinado filme americano na cota de tela”, diz Barba.

“Hoje, cerca de 70% dos títulos [em cartaz na China] são nacionais. A indústria chinesa se desenvolveu para dar conta, inclusive, de suprir a demanda interna de conteúdos que dialogassem com a sua população.”

Se, por um lado, a produção de outros países ainda não consegue suprir a demanda mundial como os blockbusters americanos, por outro, Hollywood enfrenta o desafio de criar novas narrativas atraentes. “Há uma saturação de formatos e o crescimento de uma rejeição. De alguma forma, uma parte do público está mais desconfiada”, afirma Butcher.

Ele se refere aos filmes de super-heróis da Marvel e da DC, representados pela Disney e Warner Bros., que na década de 2010 encheram as salas de cinema com legiões de fãs. Ainda são histórias muito populares, mas o fracasso de bilheteria dos últimos lançamentos, como “Capitão América: Admirável Mundo Novo” e “Quarteto Fantástico: Primeiros Passos”, indicam um desgaste.

Algo semelhante ocorre com narrativas em que americanos salvam a pátria ou lutam contra um mal maior para restaurar a paz mundial. “Esses filmes não são mais abundantes como já foram décadas atrás”, diz Butcher.

Naturalmente, a indústria americana, em seu século de cinema, não fez apenas filmes alinhados aos ideais do “soft power” americano. Sobretudo a partir do fim dos anos 1960, a chamada nova Hollywood pôs nas telas todo o lado B dessa suposta glória patriótica, em títulos como “Apocalypse Now”, com a decadência moral da Guerra do Vietnã, ou “Taxi Driver“, e sua análise brutal dos reflexos do sonho americano entre os marginalizados.

De alguma forma, porém, produções mais afiadas contribuíram para a admiração de um país no qual a liberdade de expressão era levada a sério, e o dissenso de artistas não era reprimido.

As coisas mudaram. Desde que assumiu a presidência, em janeiro do ano passado, Trump vem tomando uma série de medidas para censurar o setor cultural, de exposições de arte até talk shows. Na semana passada, a compra da Warner Bros. pela Paramount, estúdio que tem influência direta do presidente, arrepiou o setor, que teme o silenciamento de futuras produções que toquem em temas políticos, de raça, sexualidade ou gênero.

Nesse cenário, é possível que produtoras independentes, como a A24 —que já vêm ganhando espaço nos últimos anos com títulos como “Moonlight: Sob a Luz do Luar” e “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo“— podem crescer ainda mais ao abordar temas de forma mais criativa e corajosa. O mesmo vale para filmes internacionais.

“Tanto ‘Ainda Estou Aqui’ quanto ‘O Agente Secreto’ são críticas à ditadura e, por tabela, uma crítica ao Trump”, diz Mascarello. Os dois longas brasileiros concorreram, de forma inédita, ao Oscar de melhor filme consecutivamente. O especialista lembra que o sentimento antirrepublicano é forte entre os profissionais da indústria cinematográfica, muitos deles votantes do Oscar.

Jane Fonda, uma das atrizes mais prestigiadas do país, foi uma das primeiras celebridades a se manifestar contra a guerra no Irã, durante um protesto em Los Angeles, no último domingo. “Eu acredito que muita gente nesse país aprendeu a lição da Guerra do Vietnã, do Iraque, do Afeganistão, e das outras guerras desnecessárias e ilegais.”

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